Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009
Todo o dinheiro gasto em bens supérfluos é um ganho indevido enquanto houver quem não tenha dinheiro para adquirir bens necessários.
Com esta frase pus a mão na consciência e retirei-a queimada... Ainda bem que se tratava da mão esquerda: - continuo a escrever com a direita os mesmos desabafos inconsequentes. Mas são desabafos. Isto é, não os abafo.
Quinta-feira, Outubro 26, 2006
1. "Sexo", entre aspas para não haver dúvidas, é um termo aplicável a vários conceitos. Li de alguém: "sexo, mais do que para pensar, é para... fazer". Creio que o entendi. Por isso, não o imagino nas Caldas da Rainha a modelar em barro "um das caldas". Isto é, eu sei que a expressão "fazer sexo" não significa manipular matéria para obter órgãos genitais, a partir de barro ou do tecido celular de que são feitos a "pilinha" do menino e o "bibi" da menina...
2. Mas, então o que fará de sexo, o dito cujos quando diz que melhor do que o pensar, é fazê-lo? Não lhe vou fazer a desfeita de o imaginar com um "objecto" na mão, mesmo que seja de "tecido celular" envolvido nas mais imaginativas peripécias psico-motoras do Canal Playboy...
3. Na expressão "sexo, mais do que para pensar, é para... fazer", o termo "sexo" denota outro conceito e dou de barato que quem o faz, quando o faz, exerce uma função múltipla que num só acto ou em actos sucessivos, se excita e/ou excita, dá e/ou recebe prazer, copula e/ou não copula, reproduz e/ou não reproduz um outro ser que prolonga a espécie, no caso vertente a... humana.
4. Cada qual, na função sexual, se excita e excita como quer e pode, dá e recebe prazer a quem quer e lho possa dar, copula com o que tem à mão, coisa, animal ou homem (macho e/ou fêmea), e... (também não pode ser tudo como a gente quer...) só reproduz outro ser com... o sexo oposto.
5. "Sexo" significa também a divisão de uma espécie em dois géneros, o sexo masculino e o sexo feminino. O sexo aqui amarra-nos à espécie, condenados a ser homem ou a ser mulher, e o encontro de orgasmos, frenesim de prazer inesquecível, é também um acto por onde passa o prolongamento da espécie, nem sempre uma perspectiva feliz de humanidade... Pode ser uma chatice, uma seca, a perspectiva de ver associado ao prazer um monte de preocupações
6. Prazer e preocupação não é par que entusiasme os humanos. Os sucessivos êxitos científicos e tecnológicos vão no sentido de separar sexo e procriação e sexo seguro ao fim e ao cabo significa sexo despreocupado com as inerentes consequências indesejadas. Não deixa de ser uma conquista civilizacional, ligada ao luxo tecnológico ainda apenas ao alcance de escassas minorias.
7. Mas mesmo que se queira fazer sexo despreocupado para, simultaneamente, ter prazer, não apanhar nem transmitir doenças nem procriar, a natureza prega partidas às estritas opções racionais. Lindas ou feias histórias a dois, viram histórias a três ou mais. E no caso da procriação, confirmadas as primeiras suspeitas, por muito que se recorra à ciência ou ao direito, ninguém ignora que o tal terceiro desta história se anuncia à porta da humanidade porque dela já faz parte.
8. Será que o sexo não é para ser pensado? É; e, desde logo, na mínima unidade significativa do vocábulo, o se de sexo, a mesma de secção, de secante, de separar, e outras, que dão ao sexo a significação profunda de dividir, de separar, de acentuar a diferença e não a igualdade, a de nos amarrar à situação de ter de ser o que se é e de não poder ser o outro que eventualmente desejaríamos ser.
9. Estamos amarrados ao nosso sexo. É, aliás, o constrangimento desta situação que ajuda os humanos a não terem a veleidade de se tomarem por deuses. Deus que deve ser livre (estou a falar do conceito racional de Deus e não apenas do objecto da fé de um crente...) não tem sexo. Compreende-se porquê. O sexo não une, divide; o sexo não liberta, amarra; o sexo não igualiza, diferencia.
10. O sexo é a residência do desejo - e é a partir deste ponto residual do desejo de dois sexos diferenciados que a humanidade floresce. Pelo desejo a humanidade se forma e expande.
11. Lembra o sexo à razão que o desejo a precede. Apela o sexo à razão que cuide mais da diferença e não prossiga a igualdade abstracta de apetites inconsequentes. O desejo pela razão se transforma em ética. E a ética abre-se aos valores. E os valores vivem da esperança de quem espreita a vida, da coragem de quem enfrenta a morte que a amedronta, da devolução generosa do desejo à própria vida que o comporta. Sexo e vida – sempre. Sexo e morte – nunca.
Quinta-feira, Janeiro 26, 2006
Janeiro, mês de balanço…
Quando percebi a regra prática da contabilidade quem deve, tem; quem tem, deve, descobri na sequência lógica do raciocínio que a riqueza consiste em dever a um credor que não exija o pagamento da dívida.
É por isso que quem não tem credores nem à porta nem ao ferrolho e possui bens próprios, se apressa a justificar o pouco ou muito de seu, dizendo que o que tem, a si o deve.
Sou ainda do tempo em que no Pai-Nosso a actual prédica perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido se dizia perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores. A mudança apartou águas profanas de águas sagradas: créditos e débitos equilibram-se no balanço da situação líquida das empresas de César (a César o que é de César) enquanto ofensas e ofendidos se purificam nas águas celestiais do perdão que lava a culpa (a Deus o que é de Deus).
Pelos vistos César e Deus respeitam a separação entre este mundo e o outro. Os “prófes” de economia, mesmo os das universidades pias, lembram-nos cheios de humor de que não há almoços grátis. Isto é, neste mundo ninguém perdoa dívidas a ninguém; ou melhor, só se perdoa o que a si próprio se deve…
Os que a si devem o que a si não cobram, engordam. Mas César obriga a que o balanço seja equilibrado, inscrevendo os lucros no passivo: quem tem não só amealha o que a si próprio deve como engorda também com o que outros têm, mas que, pelos vistos, não a si mas a outros devem…
Dito isto, confessemo-nos pecadores: - perdoai nossas ofensas assim como não cobramos as nossas próprias dívidas. Terra e céu unidos no balanço… Ámen.
Sexta-feira, Setembro 09, 2005
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Segunda-feira, Julho 18, 2005
Dois anos depois
Tudo se deve passar por aí como eu te havia dito antes de partires. Segues nossos passos mas não te perturbas. Aliás, nem sequer há razões para grandes ansiedades. Vive-se por aqui a esperança, Isabel. E a esperança é uma virtude que nada tem a ver com a racionalidade fria da coragem. É emoção pura. Como me acaba de dizer o Miguel numa mensagem, há dois anos partiste e ficámos nós com as dores de um parto onde nos vimos obrigados a renascer. Eu, teus filhos e as netas continuamos bebés sadios.
Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
O mesmo do mesmo...
Vivemos no meio de uma gigantesca galáxia de diagnósticos em expansão. São aos milhares os teorizadores da sociedade técnica, os teorizadores do fenómeno urbano, os teorizadores da abundância, os teorizadores dos tempos livres, os teorizadores do consumo, os teorizadores das teorias, multímodas visões redutoras de fenómenos ao mesmo tempo contraditórios e complementares, onde o político, o social, o económico e o cultural se chocam, penetram, repelem e unem, tudo à vista de todos - também há os teorizadores da mundialização - turbilhão de ideias, imagens, palavras e ruídos, reflectidos por milhões de cérebros que mais parecem outras tantas células nervosas de um gigantesco cérebro colectivo à deriva e a inundar de perspectivas o mercado dos cenários.
Se nem todos têm razão, não há nenhum que não tenha lá as suas razões!... E sabe como se dá razão às razões? É com uma teoria. Continue... Não seja menos que os demais...
Sábado, Janeiro 08, 2005
Parabéns, pai!
- Ó João, por que é compraste um garrafão de aguardente? – dizia a Piedade para o marido, apreensiva e desconfiada daquele inusitado apetite etílico.- É para a feira, mulher. Um copito dela por cada dois quilos, vais ver que esgotamos num instante a carroça das castanhas...
- E por quanto tens de vender o quilo de castanhas para recuperar o preço da aguardente, homem?
- Ó mulher, o que interessa é a festa! Já temos a ceia na volta, levamos farnel para o almoço, as castanhas já estão pagas, vais ver que depois da festa rija, ainda trazemos dinheiro para casa.
Pai, festejei hoje teu aniversário diante de um prato de bacalhau com couves, com uns copos de vinho de marca do Alentejo e com a emoção nublada de lágrimas, minha homenagem à partilha festiva da gratuidade que me transmitiste com histórias simples de vida como a do diálogo verdadeiro entre ti e a mãe, decorriam os difíceis anos vinte do século passado. Pai, fiz a festa sozinho. Hoje, nas feiras, ninguém entende, nem o meu nem o teu ócio. Hoje, pai, todas as festas são negócio.