quarta-feira, agosto 27, 2003

Lá tens as tuas razões ou... emoções?



Tu, jovem ou adulto, não te punas: és humano e tens o direito ao erro, aproveita os encantos e desencantos da vida, di-los com palavras que evoquem música, mistura a dor e o prazer com as tintas da terra e dos céus, plasma a emoção na obra infinita da tua fantasia e canta com o teu semelhante o hino da existência - porque para criar nasceste; e quem é só razoável não afecta a criação.

Foi a raciocinar sobre modelos abstractos e os seus símbolo que o homem isolou no computador a inexorável monotonia do pensamento, incapaz de se libertar das amarras formais da identidade e da não contradição: se o que é, é, não pode ser e não ser ao mesmo tempo, e, então, ou é ou não é.

O computador é para mim a mais gratificante das invenções: só há uma razão, cabe toda num microchip do tamanho de uma unha e desta maneira ninguém me engana quando argumenta eu cá tenho as minhas razões.

Nem o senhor tem as suas, nem eu tenho as minhas. Ponhamos a razão de ambos a funcionar, step by step, que a nós mais ninguém nos leva à certa...

À certa... só o gesto de uma dádiva sem preço - o Amor!

Que os meus harpejos de sapateiro a tocar rabecão não perturbem o entusiasmo perante as novas tecnologias; elas são úteis e abriram ao mundo uma nova era. Mas todas as eras produzem as suas rotinas.

Só a paixão acorda nos adultos as reservas psíquicas da adolescência, capazes de transformar em novidade o repetido e o habitual, e de tornar familiar e possível o que é estranho e misterioso.

sexta-feira, agosto 01, 2003

Até ao fim


De 3 de Abril de 1960 a 18 de Julho de 2003


No mar são tuas cores que a luz desenha
No horizonte de uma outra rota
Segui até ao fim tua façanha
Porquê tanto ocultaste teu rumo em troca?

Partias de manhã com tua dádiva
E nós na praia morna sempre aquém
Vagas que galgavas mulher impávida
Eram serenas ondas sempre mãe

E assim fugiu de mim o teu destino
Espuma branda teu corpo que não ousei
Puras águas as mágoas do meu signo
Que ao lado da tua barca naveguei

Contempla lá do alto o mar ameno
Regressa às margens estreitas do meu rio
Repousa enfim de coração sereno
E só a vela segue como eu a guio.


Também em Poemastro me confesso

domingo, julho 13, 2003

Dali houve meu nome



O bom-nome a que temos direito nunca é mau... Sou Lamas. Perguntam-me com frequência se eu pertenço aos Lamas de... gente célebre. Não, meu lamaçal é outro, mas não tenho nada contra. A identificação civil adianta pouco ou nada sobre a pessoa. Quem vê caras, não vê corações. Aqui sou visto por mim e por outros. Mas só eu assumo a representação da minha insubstituível memória emocional.

Funcionário público, sei o que é o tacho: aconchega o estômago e amolece o engenho. Resisti e barafustei e desisti, frustrado, após 36:00:00 (anos:meses:dias). Sou um aposentado por inteiro. Nada mau: sopas, descanso e até, vejam lá, a Internet para levar o desabafo pelo universo fora...

Nunca rejeitei o passado. Não me lembro de ter desejado alguma vez construir deliberadamente o futuro. Quanto ao presente, incomoda-me a prolongada rotina da passagem. Sou um retrógrado vigilante: uma alma deste mundo com saudades do outro. Daí a tendência para nunca esconder por de trás do discurso a suposta neutralidade da razão diante do sentimento. Vão aqui alguns exemplos, já velhos, da razão com que sinto.

Se eu tivesse que repetir o passado, voltaria ao dia em que meu pai e minha mãe me conceberam. Foi o dia em que Deus se fez história em mim. A necessidade do amor, a que eu chamo o usufruto da criação sem lei, se foi inventada pelo homem, parece-me não poder ser senão impulsionada por Deus. Eu sou um crente e tento expressar minha crença, às vezes sem rei nem roque.

E por ali cresci. O ponto terrestre mais significativo do universo é o largo da minha aldeia. Trata-se do centro geográfico de uma vida cujo perímetro nunca foi além de uns quatro quilómetros até à idade de dez anos. Aprendi depois no liceu que o carro de mão era uma alavanca e na universidade que meus cabelos louros eram um gene. Como é que hei-de desagravar estas ofensas aos meus olhos de menino senão devolvendo à aldeia a ficção que a cidade me deu?

N.B. - Convém lembrar, até para a compreensão deste "post", que o projecto deste blog se integra num outro alojado noutro servidor. De lá vêm textos para aqui e daqui textos para lá. Um vai-vem da memória, sem fim nem pensamento.

sábado, julho 05, 2003

Nos Mártires da Pátria



Vou até ao Hospital dos Capuchos marcar uma consulta. “Venha amanhã, hoje estivemos em greve de manhã e não se marcam exames de tarde.” O que vale é que perto do hospital acolhe os doentes o jardim do Campo dos Mártires da Pátria.
São 1630 da tarde. Densidade enorme de tristeza por metro quadrado de bancos do jardim.
Leio no sopé de uma árvore velha:

Tu que passas e ergues para mim teu braço
Antes que me faças mal, olha-me bem
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de Inverno
Eu sou a sombra amiga que tu encontras
Quando caminhas sob o sol de Agosto
E os meus frutos são a frescura apetitosa
Que sacia a sede nos caminhos
Eu sou a trave amiga da tua casa, a tábua da tua mesa
A cama em que descansas e o lenho do teu braço
Eu sou o cabo da tua enxada, à porta da tua morada,
A madeira do teu berço e do teu próprio caixão
Eu sou o pão da bondade e a flor da beleza
Tu que passas, olha-me bem e não me faças mal.


Tranquiliza-te, árvore! Não te faço mal e vou olhar bem em redor.

O que há de vivo? Crianças, pombas, três garnisés atrás de galinhas. Debaixo de uma árvore, duas mesas de sueca de reformados. Ainda dizem que não cuidam dos reformados. Há um letreiro que atesta: “Árvore classificada de interesse público. Moraceae. Ficus benjamina l. Fico. Regiõe tropicais.” Uma outra árvore: “Árvore classificada de interesse público no D.GOV. IIª série 121 – 21.5.1968. Família:TAXACEAE; Nome científico: Taxus bacata l.; Nome vulgar: Teixo; Origem: regiões temperadas do Norte; Altura: 11 m ; Altura: 11,1. Medidas feitas em 1.1.91. Não sei quanto alargou a copa da árvore na última década, mas creio que dá sombra para outra mesa de bisca lambida.
Do lado (Este? Não trago bússola comigo...) do jardim, seis carros de transporte de carga com aspecto de há muito ali estacionados. O dístico nas carroçarias fechadas, folgosa, tanto contrasta como condiz com a apatia da greve. Transporte de folga (de folga, descanso, ou folga, folguedo, ou com folga nos pistões?...) Mas o logótipo é verde, uma esperança de movimento dos mártires da pátria.

Sons: cantam galos, arrulham pombos, gritam crianças, ressonam velhos, resmungam os sem abrigo.

Atravesso, sempre sem bússola, para o outro lado do Jardim. O Campo Mártires da Pátria polariza à sua volta uma significativa concentração de elementos decadentes do corpo e do espírito da pátria: o instituto de medicina legal e a morgue, hospitais, hospícios, institutos de bactérias, doenças dos olhos e maleitas do espírito, asilos e até a toponímia primitiva não desdenha. O espaço antes chamava-se “Campo do Curral por aí se fazerem as matanças de gado para o abastecimento da cidade”, e o nome actual, mais heróico, mas não menos bestial e sangrento, deve-se ao enforcamento que aí se fez dos presumidos autores da conspiração de 1817 contra o domínio inglês de Beresford. E a praça de touros, também mártires para os protectores dos animais, era ali antes de passar para o Campo Pequeno. E não esqueçamos o monumento a Sousa Martins, um santuário da crendice popular: mártires e remédios da mesma pátria.
O único apelo visível de algum progresso é alemão: Mercedes e wolkwagens de gama alta anunciam os serviços culturais da Embaixada alemã.

Apresto-me a abandonar os mártires da pátria, as crianças, os jovens, os velhos, trôpegos, desempregados, alcoólicos, mais galos, patos, pombos e cães, uma estufa da memória decadente em ruínas neste dia solarengo.

Espero o 33. “Não espere, porque há greve. Começou às 17 e 30 e vai até às 20 e 30 da noite”.

Greve no Hospital. Greve nos transportes. Já não tenho tempo de ir urinar a casa. Na empena nascente do jardim dois sólidos redentores epigráficos indicam aos “homens” e às “mulheres” que os mártires da pátria podem ao menos aliviar a bexiga. Na porta dos homens encimada pelo ícone de Lisboa em relevo, dois corvos, um na proa, outro na ré da nau de São Vicente, piam boas vindas a lisboetas e forasteiros que se aproximam para descarregar as entranhas. De igual modo sugestivo, colado na parede o anúncio de um festival de outras calendas “saberes, sabores e sons de Lisboa”, cuja sibilância escorregadia ainda mais acentuava a necessidade do alívio que fora procurar nas catacumbas dos mártires.

Procurar em vão. O pio dos corvos soturno avisava: não há mijo para ninguém...
Também eu, um mártir da Pátria.

terça-feira, julho 01, 2003

Pela boca morre o peixe



Tenho cana, carretos, linhas e anzóis. E sacos, cestos, tesouras, canivetes e alicates. Sei onde se compra o isco, tenho um livrinho com as marés, mas não me considero um pescador. Passo anos sem ir à pesca e nos anos que vou, contam-se pelos dedos da mão os dias em que abeiro os pesqueiros. Sem o traquejo da lide continuada, coloco-me tímido na enfiada de pescadores tostados pela experiência de sóis, frios, ventos e maresias e armo os aparelhos com a medrosa hesitação de quem não domina a matéria.

Há dias, ousei colocar-me na última nesga de um paredão bem saturado de canas e consegui a autorização tácita para me candidatar ao unânime isto hoje não está a dar para ninguém dos companheiros mais madrugadores. Antes de lançar, com a estudada modéstia do costume, implorei a compreensão da vizinhança: - sou novato nisto, amigos.

Normalmente, recolhe-se um incentivo, mas desta vez, o companheiro do lado reforçou minha timidez: - é novato e nota-se...

Lancei. A linha, a timidez, a afoita esperança de uma cândida ingenuidade que me acompanha desde menino. Um minuto depois tinha um peixe a estrebuchar a ponteira da cana. E nem era sargueta, era sargo, desses que enche um prato com duas batatas e uma macheia de grelos.

O vizinho penitenciou-se do remoque com o provérbio pela boca morre o peixe. Eu, atónito diante do estertor prateado do peixe na ponta do anzol, lembrei-me da sentença de Jesus que cito de memória: não é o que entra pela boca que conspurca o homem, mas aquilo que sai pela boca do homem.

Tanto morre pela boca o peixe, como o homem. Mas nota-se menos no homem, porque fala pelos cotovelos. E quanto mais fala, mais se julga vivo e mais vivo o julgamos. No entanto, a falar se esgota. Com a boca voz do cérebro, manda bocas ao mundo, esse mundo que fica tal e qual o deixamos quando a função cerebral se esgota e com ela a capacidade de mandar bocas.

Evidentemente, também a capacidade de mandar bocas na blogoesfera.

segunda-feira, junho 23, 2003

Dar com a língua nos dentes.



O sentido mais corrente da expressão “dar com a língua nos dentes” é divulgar um segredo. Mas se com a verdade me enganas, a palavra é também disfarce. Também se diz que a falar é que a gente se entende. Como há gente que se entende entre si e outra não, pelos vistos, nem toda a gente fala da mesma maneira. E como palavra puxa palavra e palavras leva-as o vento, as palavras que se apanham no ar entram e saem dos discursos como em sacos rotos.

Há registos dos significados das palavras, mas é inviável andar com o dicionário à costas a promover o entendimento entre os falantes e os escrevinhadores. Contudo, no caso particular da escrita não é de todo estulta a ideia de viabilizar no começo ou no fim do texto um glossário dos termos utilizados. Aliás, há quem o faça, nas ciências e na filosofia e, como a prática é recente, há dicionaristas especializados que reportam os vocabulários próprios dos vários saberes, e dentro de cada saber, o vocabulário próprio de cada sábio. Também não é por falta de dicionários que os humanos se não entendem, nem por falta de ocasião para dar à língua, agora potenciada pela blogosfera.

Tanto no mundo da fala como no da escrita, não é nada óbvia a garantia de que as palavras que utilizamos correspondam àquilo que elas designam. Pelo contrário, a tendência da análise contemporânea do fenómeno da cultura privilegia o discurso como relação entre termos, embrenha-se no exercício lúdico da construção e desconstrução dos sentidos, faz piruetas nas paralelas assimétricas dos semas e meta semas e goza com a indeterminação labiríntica das estruturas.

No mundo da relação discursiva, a sensação é a de que está a chover no molhado. Embriagado com as palavras, o humano rompeu o contrato espontâneo entre o conceito e o objecto concebido, vive a vida isolada da mente (a imanência), perdeu a aposta com a eternidade (a transcendência), viaja na galáxia artificial da significações e foge a sete pés da imediata expressão da singularidade dos sentidos.

Deixemos então que as emoções dêem com a língua nos dentes...

quarta-feira, junho 18, 2003

Outra vez o umbigo.



Desde que tive conhecimento da etiqueta umbiguismo para classificar os blogs com forte dose de carga afectiva mais ou menos íntima, dei em reflectir sobre o umbigo, o meu bem entendido.

Reconheço que o meu blog se inclui nesta classificação e não enjeito o risco de quem voluntariamente exibe diante doutros o exercício arriscado de se manter em equilíbrio no vértice da pirâmide, cujas vertentes mantêm fronteiras entre a vida íntima, privada e pública.

Não vejo correlação imediata entre olhar para o umbigo e a contemplação narcísica. Esta parece cair na tentação esfíngica de petrificar a própria imagem como centro do mundo. O umbigo, pelo contrário, escapa à função abstracta da imagem e impõe-se como sacramento, isto é, uma realidade visível e exterior de uma graça interior e invisível.

De facto, o umbigo assinala no corpo o fim do convívio simbiótico com a origem e o começo do encontro cada vez mais radical com a solidão a que nem a morte promete a esperança do sossego.

Quem pressionar com intenção sagrada o botão do seu umbigo abre duas portas simultâneas interdependentes que o introduzem na histórica aventura que a humanidade prossegue: a porta do amor e a porta da transcendência.

Do amor, a dádiva gratuita das suas entranhas que a mãe oferece ao mundo. Da transcendência, o nome de deus que o humano fixou para guiar o mundo e a vida à plenitude de ser.

segunda-feira, junho 16, 2003

O meu umbigo



O meu primeiro post é de Janeiro, 10, 2002. Meu blog cabe inteirinho na prateleira do umbiguismo, segundo os critérios de análise da blogoesfera propostos por JPP (é o Pacheco Pereira) no seu Abrupto.

O termo não me escandaliza. Não me tinha era lembrado dele. Como ando com a mania de dar relevo às singularidades, em detrimento dos conceitos específico-genéricos, fui realmente olhar para o meu umbigo.

Um sarilho! Falta-me elasticidade para o ver em directo. Fui ao espelho (fui mesmo, não é força de expressão) e lá estava o buraco na vertente descendente da calote abdominal.

Acho o meu umbigo bem feito, uma cratera pacífica bem desenhada onde não cabe a ponta de nenhum dos dez dedos das minhas mãos (não cabe mesmo, eu experimentei). Mas... ó diacho, se lá não cabe um dedo, e eu me lembro de limpar todos os buracos do meu corpo menos este, será que eu ando com o pipo umbilical cheio de sarro sem dar por isso?

Peguei num “bastoncillo de algodón” (não é força de expressão, peguei mesmo, como se prova pela citação original...) e esburaquei até à profundidade máxima sem encontrar lixo.
Meu umbigo anda limpinho.

quinta-feira, junho 12, 2003

O cão de Pavlov



É razoavelmente conhecida a experiência de Pavlov que provoca o reflexo condicionado do cão que saliva ao toque de uma campainha sem a presença da comida, depois de várias vezes associar o som ao acto de comer. Todo o bom guloso sabe disto quando começa a salivar ao aproximar-se de Belém, não a do Presépio, nem a do Presidente da República, mas a Belém dos pastéis de nata...

Também de Pavlov, mas menos conhecida, é condicionar a reacção do cão à presença de um anel circular perfeito que aos poucos vai tomando a forma elíptica. Quando o cão começa a não poder distinguir entre o circulo e a elipse, rosna irritado.

Não me atrevo a dizer que a irritação dos humanos obedeça a este esquema, mas, confesso, que frequentemente me sinto como o cão de Pavlov, sobretudo diante de um interlocutor que se serve conscientemente de discursos ambíguos para levar a água ao seu moinho. E fico duplamente irritado, quando caio na tentação de fazer o mesmo. O mais popular desses discursos é o “da garrafa meio cheia ou meio vazia”... O mais intelectual é o “da razão e o das razões”...

Eu [segue-se uma argumentação que só a mim responsabiliza, mas se inspira no ensino de Miranda Barbosa, meu professor na Universidade de Coimbra, de 1957 a 1963 e cujo pensamento se encontra in A.Miranda Barbosa, “Obras Filosóficas”, organização e prefácio de Alexandre Fradique Morujão, Colecção Pensamento Português, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa 1996] entendo que só há uma razão, uma ordem fundamentadora do saber que parte de um mínimo de pressupostos aceites para um máximo de explicações cujo caminho pode ser percorrido “step by step” por quem tenha a apetência e a competência para o percorrer. Quando esta ordem se põe ao serviço de uma fundamentação racional e radical do saber, encontramo-nos com a Filosofia a qual deve conformar-se a este método único e irreversível para garantir a unidade do sistema.

E então as razões, “os conceitos de..., segundo fulano...”, isto e aquilo segundo Sócrates, segundo Platão, segundo Aristóteles, segundo Averróis, segundo Aquino, segundo Locke, Berkeley e Hume, segundo Descartes, Leibniz e Spinosa, segundo Kant, Fichte, e Hegel, segundo Husserl, Heideger Sartre e companhia, segundo Russel, Whitehead, e mais este e mais aquele, os proto e os neo “ismos”, medievais, modernos e contemporâneos, de ontem, de hoje e de amanhã?

Em princípio não há incompatibilidade entre as afirmações destes dois últimos parágrafos, a não ser quando se confunde a unidade metódica da filosofia enquanto sistema com os processos de investigação e fundamentação face aos problemas concretos com que se debate o filósofo. Estes problemas não se encontram todos no mesmo plano da realidade (a ideosfera, a ontoesfera, a axioesfera, por exemplo), nem lhes convém os mesmos processos de investigação (a analítica, a noética, a dialéctica, exemplos entre os mais usados dos processos de investigação e fundamentação filosóficos).

Há porém um problema que se vêm arrastando desde Descartes (o divórcio entre o cogito e a realidade extra mental) uma aporia que todos os filósofos têm vindo a elucidar com investigações úteis e argumentos sagazes, mas raramente resolvida, porque cada filósofo e seus seguidores arvora o método particular útil em relação ao processo de investigação em disciplina fundamental da filosofia, caso em que o método se torna inadequado para garantir a unidade metódica de fundamentação racional e radical do saber.

A Filosofia como sistema concebida nos termos que aqui se expõem tem uma exigência primeira: ser filosofia do real, isto é, dar conta racional de que o conteúdo das notas caracterizadoras que distinguem um objecto ideado (existente na ideosfera) corresponda a um ente (existente na ontoesfera, ou domínio existencial da realidade). Diz o senso comum que a realidade existe fora da mente que a pensa. É o realismo ingénuo. A história do conhecimento em marcha dá conta do mundo e da vida antes da existência do humano. É o realismo crítico. Mas, como se disse atrás, o cogito cartesiano abalou os fundamentos do realismo ingénuo e os do realismo crítico. Então, uma sã filosofia sistemática deve encontrar uma fundamentação lógica para o realismo que passa pela aplicação do processo da dialéctica aos resultados da analítica: as singularidades da ontoesfera não são nenhuma anomalia na ideosfera porque o conceito de indivíduo, não tendo conceitos subordinados, não é definível, mas é concebível como conjunto transfinito de notas caracterizadoras.

A filosofia moderna e contemporânea é intrinsecamente idealista: comporta-se como se a realidade extra mental não existisse ou, então, exista como construção da mente. Até os “existencialistas” que dizem partir da existência, acabam por deambular sem sentido no seio das reduções eidéticas propostas pela fenomenologia cuja coerência depende significativamente da decisão metódica que coloca a realidade entre parêntesis. A filosofia moderna e contemporânea é uma ideosofia (termo proposto por Jacques Maritain).Só problematiza; não dá soluções a nada e faz jus à tradicional definição anedótica de que “a filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual nós ficamos tal e qual”. E ficamos mesmo. Ou pior: aturdidos e sonâmbulos na galáxia das ideias à solta, onde a palavra e a coisa nunca se encontram.

A primeira vítima do idealismo (a realidade imanente ao pensar) é a história. De facto, a perspectiva histórica exige o respeito pela singularidade do devir que não se define, mas apenas se narra. Como a realidade é para a cultura de cariz idealista uma construção do pensamento, a narrativa histórica solta-se ao sabor de interesses ideológicos, confessados ou não, interpretando os factos até ao ponto de os torcer ao serviço da construção de um passado que a realidade não consente ou até rejeita, e propondo para o futuro uma ordem ideal para o qual nada indica que o presente aponte.

Esta crítica não significa menos apreço pela utilidade intrínseca das investigações processuais nos vários campos do saber que a perspectiva histórica da filosofia nos oferece. Mas a pluralidade de processos que contribui para a solução de filosofemas só ganha capacidade explicativa racional e radical quando integrada num sistema com unidade metódica, isto é, no interior de uma ordem de fundamentação que parte de um mínimo de pressupostos para um máximo de explicações e que, portanto, integra e supera conhecimentos progressivamente.

O cão de Pavlov rosnava, mas habituou-se... condicionado. A cultura actual foge da realidade como o diabo da cruz. Está assim condicionada à ideia que devora ideia e rumina ideia, duplos mentais das coisas que fazem crer que a realidade é uma ilusão.

quinta-feira, junho 05, 2003

Cheguei aqui.



Cheguei aqui a este quarto de quadros e flores atapetado
vindo da Barreira em tarde de figos que matavam fome
empurrado pela mesma cana e a mesma reentrância que colhia os frutos
e empurrava o eixo do triciclo que o Viquinho me deu partido
e o Escabelim forjou como forjou as colheres pequenas de pedreiro
com que construí as casitas iguais às que não tinha
moldadas pelas que deitavam sobre as nossas as sombras delas
e luziam como nossos sonhos de canas verdes
vergadas em corpos e asas de aviões de dois pés
e motores de lábios num frenesim de som que perseguia borboletas
e na fuga desenhavam a metamorfose dos voos em ziguezague
até aqui a este quarto de flores atapetado
morta com o Escabelim a forja da minha infância.

In Poemastro Me Confesso


segunda-feira, junho 02, 2003

Feira do Livro


Imagine entrar na Feira do Livro e perguntar aos visitantes “O que é um livro?” Desconfiariam da pergunta: estão por aí milhares nos escaparates, porquê a pergunta? Ora a resposta não é tão óbvia como parece, e estranharia muito se alguém avançasse com uma definição semelhante a esta: colecção de folhas de papel, impressas ou não, cortadas, dobradas e reunidas em cadernos cujos dorsos são unidos por meio de cola, costura etc., formando um volume que se recobre com capa resistente. Ou: um livro é a publicação com mais de 48 páginas, além da capa. Ou ainda: obra de cunho literário, artístico, científico, técnico, documentativo etc. que constitui um volume. (Ver Dicionário Houaiss, 1ª ed. Brasileira).

Na minha biblioteca tenho alguns livros, aqueles poucos que escaparam às sucessivas revendas nos saldos dos anos escolares, e mais uns tantos que o continuado sacrifício do ordenado de funcionário público ainda permite. E porque os meus livros se foram assim humanizando em repetidos holocaustos do “pão para a boca” nada neles me faria adivinhar a definição fria do dicionário, objectivamente inerte.

Impõe-se por isso evocar o livro vivo. Vivo na inquieta inspiração do autor que a urdidura do texto desvela; vivo na nervosa perspectiva do editor que as tiragens fazem prever; vivo na atenta afeição do leitor que a dádiva da compra significa.
O livro, o tal produto manufacturado de papel não é senão o objecto-síntese dum mundo de problemas que envolvem autor, editor e leitor e a sociedade onde se movem, problemas comuns tantas vezes em contraditória efervescência centrípeta e que não poupam a tríade na dupla dimensão, poética e prosaica, revelada no sonho e no estômago dos actores do processo editorial.

São os problemas socioprofissionais do autor, hesitante entre o pão dos mecenatos multiformes, as alcavalas dos ócios criadores que certas profissões consentem, o salário irregular de proletário das letras que os direitos de autor prometem. É, pelo lado do editor, o quebra-cabeças dos custos, cada vez mais dependentes das regras estritas do mercado ao arrepio da função cultural do livro a que o Estado nem sempre atende com eficiência e oportunidade. É um público sem hábitos de leitura, mas aturdido sob o bombardeio da leitura consumo que lhe arremessam a granel. São, por fim, os estratos ideológicos que sedimentam na sociedade onde todo este complexo se gera, exprime e auto-alimenta.

O livro, voltemos a recordá-lo, não é apenas uma manufactura de papel, importado ou exportado entre cartolinas e cartões, mas o media que espelha a sociedade viva onde deita raízes, cresce e frutifica.

E poderá o dicionário continuar a registar a definição do livro-coisa, se nos lares, nas escolas, nas bibliotecas, jardins e transportes públicos as gentes se habituarem à companhia do livro-vida.

sexta-feira, maio 30, 2003

Tela nua


E se eu fizesse
neste papel
o teu retrato?

Tenho a caneta
- é o pincel
é exacto
neste momento
o acto
da criação.

Há os teus olhos
- é a luz
Há o teu corpo
- tela nua
na minha mão.

E na paleta
brincam as cores
da sedução.

domingo, maio 25, 2003

Chamar as coisas pelos nomes...



Pelos vistos, não é coisa fácil dar um nome à coisa, até porque, afinal, parece que a coisa sem nome não é coisa nenhuma. Daí, os apelos constantes para chamar as coisas pelos nomes. Parece haver um consenso generalizado sobre de que não há duas coisas iguais... E mais: cada coisa no seu sítio, um sítio para cada coisa e, portanto, sempre que se verificar a tentativa de meter duas coisas no mesmo sítio, não estamos a falar da mesma coisa... no mesmo sítio.
Jogo de palavras, mas não só. Trata-se sobretudo de ir ao encontro uma vez mais do real. O real narra-se; não se define, nem se classifica.
É por comodidade, tantas vezes por ignorância, muitas por preguiça da mente ou ainda por disfarçada desonestidade intelectual que a palavra coisa (da mesma família de causa) se transforma no lugar comum estereotipado e estático da realidade, cuja substância é essencialmente dinâmica e, por isso, nunca se esgota no discurso que a narra.
À expressão chamar as coisas pelos nomes, prefiro a de agarrar o boi pelos cornos.

sexta-feira, maio 16, 2003

NUM VERÃO DA MÁ CONSCIÊNCIA DO CRENTE



Poluição, protectores, sol que aquecia antes e agora só queima, um ventre disforme — anda lá, ao menos não exibas a barriga — o pai leva para a praia a cabeça ainda mais poluída do que a praia e como sempre corre atrás das circunstâncias de que se ri no íntimo, mas que consigo transporta e espalha.
O stress aflora à superfície das preocupações e das águas e na areia reduz o espaço para um corpo de cócoras, uma toalha, uns sapatos e lá dentro uns óculos, uma boa maneira de meter os pés pelo nariz e partilhar um metro quadrado do palco de areia — cada veraneante um actor único de uma plateia pejada de actores únicos exibindo-se diante de um público alheio — o rebuliço do espectáculo de Verão, tão certo no calendário como está certa a contradição que lhe levou ali o corpo ritmado pelo pretexto de um passeio à beira mar, cansado de imaginar a esperança de uma diferença.

E de repente o pai refugia-se na igualdade do absoluto: pai-nosso que estais no céu santificado seja o vosso nome…
É! Assim tal e qual: a frase estereotipada da catequese de menino conspurcada pela cultura que acha natural que deus não tenha outra maneira de se manifestar senão pela ausência — e, resignado, “Tu lá sabes por que te ocultas…”
Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu… A terra e o céu, dois lugares e uma só vontade, o império do absoluto?
E porque não reconhecem Tua a vontade de duas gotas por onde escorrega, lenta, entre quatro-olhos, dois rostos e um desejo a maresia inteira do oceano que aporta e se funde no tempero ajustado de quatro lábios, duas línguas e uma boca?
E assim na terra como no céu brinquem as estrelas no prazer instantâneo da fusão dos corpos, pálida fantasia da explosão quente de duas almas a quem acontece no marasmo calendarizado de um Verão a inesperada oportunidade de esgotar o oceano na alquimia de um beijo.

A fome prosaica da hora do almoço. O pão-nosso de cada dia nos dai hoje. Hoje. Eufemismo do pão antecipado no cartão de crédito… Também o telemóvel faz parte do pão-nosso de cada dia. E Deus deu um ao pai, outro à mãe e outro ao filho. O farto sossego da informação guia-os até ao restaurante: o mar serve-lhes o peixe e a terra o acompanhamento. Serve a quem serve. É a fartura ou a fome que está mal distribuída? À mesa readquire sentido o perdoai as nossas ofensas…

Pai, mãe e filho — a família é a última guardiã das convenções da tribo. É o último alfobre da uniformidade dos deveres e dos costumes, o último bastião colectivo da regulação dos afectos. De maneira que se o perdão tiver sentido, compete aos progenitores pedirem perdão aos filhos por serem pais e os filhos aos pais pelos netos que geram.

E não nos deixeis cair na tentação de ocultar o cais anárquico de onde partem sem regresso as velas do vento morte.

E livrai-nos do mal. Ámen.

sábado, maio 10, 2003

Criação sem lei


Gaivotas desenham na cadência azul um bailado branco. E são brancos os novelos de espuma que cavam a areia branda debaixo dos seus pés.
O mar fustiga as rochas e esculpiu na pedra com o capricho dos anos uns sáurios estranhos que vigiam a variação da cor no horizonte calmo.
O homem, só, calcorreia a corda limite das águas de um ao outro braço da harpa que ponteia a surdina musical da baía solitária.
Quantos anos esperaram as rochas pela memória que hoje as transforma em crocodilos do mar? E como era o silêncio antes de se ordenar o som nos búzios?
O homem que anda por ali à procura da solidão primordial é um crente: imagina o mundo antes de haver homens e não concebe a possibilidade de o universo poder existir para ninguém. Procura o radicalmente outro.
O homem pára de vez em quando, absorto. Como era tudo antes da sensibilidade, da inteligência e da memória? Conclui: Era tudo ao deus-dará. – o fascínio da criação sem lei só atribuível a um deus.

quarta-feira, maio 07, 2003

Uns olhos e um rosto



Uns olhos e um rosto
fixos no instantâneo de outros olhos e outro rosto
ambos, anos a fio, quedos no mesmo gesto e no mesmo olhar
que a magia da palavra fixou no riso aberto do primeiro encontro
e revelou até ao infinito relevos, toques, pele, luz
e o mordisco renovado na polpa intumescida
ondulada pela luz da cortina coada na brisa de gargalhadas
entre pasmos humedecidos de soluços brandos,
afogados nos impulsos de corpos confundidos,
leves, lentos, agitados, furiosos
ao ritmo da entrega, e da placidez partilhada do regresso
aos olhos e ao rosto, quedos no mesmo gesto e no mesmo olhar
e subitamente soltos, desprendidos e alheios a um adeus imerecido.

sábado, maio 03, 2003

Dia da Mãe



Mãe, lembrei-me hoje muito de ti e fui aos meus papéis buscar o único documento escrito que sabias fazer: a tua assinatura.

Assinatura da minha mãe


Quando nasceste, na tua e minha aldeia, campónios não iam para escola, e tu também não. Mas quando te apercebeste, à beira do casamento, que havia gente que se identificava através da assinatura de um estranho a rogo de, a determinação de mulher forte que sempre foste levou-te a aprender as primeiras letras para ao menos saber fazer teu nome.

Mãe, nunca mais escreveste nada. Mas eu sei que a tua assinatura testemunha uma grande obra. Por isso a vim colocar na Internet que espero também chegue ao céu onde te encontras.

Apoiado na tua assinatura, grito ao mundo inteiro o meu grande orgulho em ser teu filho.

Fronteira



Lamento meu caro
mas chegaste tarde à ingénua criação
e a realidade é mesmo mesmo a realidade
quando caminhas no ângulo superior direito desse castelo
donde do lado de cá avistas do lado de lá
a indiferença da distância.

Lamento meu caro
mas chegaste tarde à ingénua criação
e a realidade é mesmo mesmo a realidade
de portas e janelas
alçadas na vertente do espaço e da distância
na linha exacta em que do lado de cá
isso se chama lá do lado de lá.

Lamento meu caro
mas chegaste tarde à ingénua criação
e a realidade é mesmo mesmo isso
sem feitiço.

Em Poemastro me confesso

sábado, abril 26, 2003

Cai na real.


Há mais de um mês que não escrevo neste espaço. Acordei com esta na cabeça: vou dizer qualquer coisa nem que seja uma idiotice...
Registam os dicionários que idiotice é qualidade do que é ou de quem é idiota e/ou acção, procedimento ou dito de idiota ou de pessoa dada como idiota (Dicionário Houaiss). Ora se forem ver o termo idiota (e aconselho a consulta de um qualquer dicionário especializado de psicologia) verão que nenhum idiota é capaz de consultar o dicionário, nem capaz de dizer uma idiotice: - o idiota não fala por se tratar do grau mais adiantado da degradação intelectual.
É com sua lábia de sábio que o humano enrola tudo o que não fala na categoria do quem cala consente. Como só o humano fala, o resto que sobra é idiota, fazendo jus à etimologia da palavra que vem do grego idiotès, termo que se aplicava ao irredutível homem comum singular, um qualquer zé-ninguém face aos magistrados e aos sábios que sempre conseguem subordinar o particular a uma lei geral que desvia a atenção do comum dos mortais da inexorável realidade.
O homem foge do real como o diabo da cruz. Abomina o que é simples, e treme diante do que é único. Por isso o humano imaginou um sistema para iludir a realidade que assenta no famigerado princípio de que o homem é a medida de todas as coisas. Parece que o mistério de todos os mistérios (ver o livro de Michael Ruse, com este título, edições quasi, 1ª edição, Outubro de 2002) é saber se existe ou não uma realidade para além do que os nossos sentidos percebem. No entanto, a realidade leva sempre a melhor. Não são as utilíssimas leis da ciência que iludem a realidade (evoco aqui o prefacio ao livro citado do Prof. Alexandre Quintanilha): os prédios caiem, as pontes ruem, as barragens cedem, os aviões despenham-se, os automóveis embatem, os navios afundam-se; uma cegonha provoca um apagão num país; os medicamentos curam e matam; a genética reproduz a cor dos pigmentos, mas não impede que sejam “teus olhos castanhos de encantos tamanhos pecados meus”.
É assim a plenitude do real com ou sem as leis da mecânica, as leis da electricidade, as leis da química, ou as leis da genética.
Amigo, cai na real.

quinta-feira, março 06, 2003

Partir a diferença ao meio?...



A expressão em título é comum no mundo dos negócios. E o que é que não é hoje negócio? Apregoa-se por todo o lado que há que respeitar as diferenças, mas toda a educação se resume ao treino permanente para encontrar coisas iguais. A razão é um cata ventos de semelhanças e tem horror à singularidade.
Claro que para anunciar grandes princípios estéticos, diz-se que não há duas obras iguais e só uma é prima – a tal que é única, mas se protege com “copyright”. E... a caminho da ética, também se proclama que não há gente, há pessoas, cada uma delas com todos os direitos garantidos na célebre declaração universal que razão autoral inventou para eliminar as diferenças... entre as criaturas.
Reinventemos a cultura do ócio, a única capaz de produzir obras únicas. Tenhamos a coragem de não nos deixarmos vencer pela fruição utilitária que a razão descobre, mas abramo-nos às trocas gratuitas das diferenças que o amor único – criação sem lei – aponta.

segunda-feira, fevereiro 24, 2003

Na Ponte da memória.



Na ponte parada da memória
entre a margem da candura e do disfarce
corre enigmaticamente plácido
o distanciado mistério.

por de trás das origens
brotam silêncios de esperança,
suaves e doces,
ao encontro da primeira madrugada fria.

quem desenhou a ponte onde só a solidão pára?
contornos, cores, vozes, gestos,
carícias, matizes, melopeias e movimentos,
onde se escondem ou de onde surgem?

parada na ponte
é a solidão
prisioneira da paisagem.

Em Poemastro me confesso

sexta-feira, fevereiro 21, 2003

A medida de todas as coisas...


O conflito entre a teoria e a realidade é cada vez mais patente. É o divórcio entre a razão e a vida, aquela forçando a realidade a vergar-se perante a auto-suficiência explicativa, a vida, por seu lado, contrariando a petulante ousadia da razão poder ter razão sozinha sem o incómodo da singularidade.
Espero que quem me leia, homem ou mulher, seja uma singularidade. Eu sou na realidade uma primeira pessoa do singular. Mas os filósofos dizem que somos "homem" e como tal, "a medida de todas as coisas"... Eu ainda me não dei conta do facto de ser "a medida de alguma coisa, fará então de todas elas"... O fascínio da razão é de veras ofuscante: dá por boa a imagem que cada um faz em determinado momento das relações que mantém com a natureza e depois deita fora ou reconverte essa imagem quando encontra uma realidade que a desminta, susceptível de verificação (por mais do que um homem) . Desta forma, a razão tem sempre razão: as "coisas" que existiam antes do homem não tinham medida, porque não havia homens para as medir; as "coisas" depois do homem têm sempre a medida que a razão lhes dá enquanto houver coisas "coisas" e coisas "homem" e.. mais do que um homem para garantir a submissão da prova ao processo do contraditório. Olha que o bicho homem é mesmo uma inteligência...
Parece que ultimamente anda a inteligência atrapalhada com a chamada física quântica. Já não é o "homem" a medida de todas as coisas, mas o "fulano de tal" observador. E o que ele observa tem a medida da sua observação, pelo que não pode dizer a outro "vem ver o que eu estou a observar", porque esse outro, quando observa, modifica a coisa observada. E já não há prova real de que o homem seja a "medida de todas as coisas", mas tão só daquela "coisa". A minha intuição é de que a "teoria" passa pela medida da "coisa", a do homem e a da mulher... A psiquiatria que resolva...

quarta-feira, fevereiro 12, 2003

Até ao fundo do coração de si mesmo.


Mas haverá homem que não se encontre consigo próprio? Mas homem não é mesmo esse biota que ao encontrar a substância da sua intimidade radical a expressa no conceito de pessoa - seu seu e seu dos outros em marcha pela estrada irredutível à de qualquer outro companheiro?

Nunca haverá clone de si mesmo a não ser nas retortas das alquimias “abstractizantes”. Homem faz-se em confronto irremediável com a solidão. Caminha. Com a razão? Com a razão, bem entendido. É um falso problema, separar, no homem, a razão daquilo que supostamente o não é, só porque à razão não convém enfrentar o incómodo da sua auto reconhecida limitação. A história da actividade humana não passa de um grande cemitério de teorias racionais que a própria razão vai arrumando nos caixotes da incoerência...

Faça-se então a caminhada metafórica até ao fundo do coração de si mesmo. É escusado deixar na borda do poço o escafandro da razão. Leve-o consigo, mas não se assuste quando ele rebentar sob a pressão do silêncio. É a isso que se chama o apelo do sagrado. Religião? Não necessariamente. Por vezes, a experiência individual e a colectiva da humanidade revela que são as religiões quem mais impedem o encontro com o divino.

domingo, fevereiro 02, 2003

Rejuvenesço



REJUVENESÇO quando gratuito me abro à esperança de lá chegar
REJUVENESÇO quando por aí passo e não esqueço outros mais velhos a andar
REJUVENESÇO quando na coragem do silêncio ouço o mistério vibrar
REJUVENESÇO quando firme o pensamento caminha sem espezinhar
REJUVENESÇO quando anteponho ao agravo o gesto de perdoar
REJUVENESÇO quando atento a mim mesmo com outro caminho a par
REJUVENESÇO quando ser ouso e sem meus nem haveres teus recomeçar
REJUVENESÇO quando meu rosto te olha e tua pele fica a brilhar
REJUVENESÇO quando abatido e cansado me estendes a mão tutelar
REJUVENESÇO enfim quando envelheço sem parar

NB: Entende-se melhor este post passando pelo Livro de Visitas, antes ou depois, tanto faz...

terça-feira, janeiro 28, 2003

Para sofista, sofista e meio...


Um sofisma pode cair como sopa no mel para enganar ou confundir os sofistas de profissão que se servem da sofística para não terem o incómodo de confrontarem seus interesses com a verdade que voluntariamente desprezam. Eu, por exemplo, confesso minha predilecção por perguntas sofísticas do género: - terá sido Galileu quem pôs a terra a andar à voltado sol?

quinta-feira, janeiro 23, 2003

Para quê o quê?


Um anónimo deixou no meu Livro de Visitas uma sugestão: escrever aqui com mais regularidade. Gostaria bem de corresponder ao sugerido. Mas... sinto que não tenho nada para dizer, apesar de o mundo solicitar muita reflexão. Aliás o que não falta no mundo é reflexão ou não seja a vida uma autêntica tenda de espelhos mágicos que reflectem entre si a realidade imaginada. Onde está a realidade real? Estou convencido que se encontra bem fora da imaginação. E... cada vez a possuo menos para convencer os meus amigos de que se torna urgente quebrar os espelhos que nos reflectem.
Só me atraem desafios radicais. Por exemplo, o de um pai meu amigo que, em face do espanto do filho sobre o facto de Gandhi ter morrido apenas com uns óculos, uma tanga e um livro, lhe redobrou a estupefacção com este comentário: - acho, filho, que Gandhi morreu com muito: um livro para ler o quê, uns óculos para ver o quê, uma tanga para esconder o quê...

terça-feira, dezembro 31, 2002

Ano Novo, promessa de sempre.


Passam os anos e eu continuo a olhar para trás. Mesmo para antes de ter nascido. Vejo sempre meus pais a imaginarem minha vida algum tempo antes de me terem concebido. E continuo agarrado à fidelidade com que eles cumpriram essa promessa. Por isso, meu Bom Ano Novo vai cheio das esperanças que de meus pais herdei e eles me ensinaram a partilhar. E desta maneira, sem deixar de olhar para trás, convosco continuarei a caminhar em frente.

terça-feira, dezembro 24, 2002

Meu Natal radical


Natal não é pacífico: queixam-se de todos os quadrantes que o espírito de Natal foi desviado para fins ínvios. E queixam-se crentes e não crentes. É mais ou menos voz corrente de que deveria ser Natal todos os dias. Mas não: - é só uma vez por ano com hora certa no calendário.
Deixo aqui minha interpretação radical do Natal. Radical e, certamente, pouco ortodoxa. Trata-se de um símbolo transversal da humanidade que se foi habituando a comemorar o mistério feito criança todos os anos a horas certas. Nasceu da virgem Maria, outro mistério para muitos, apenas para os que esqueceram que os filhos do amor nascem todos de mães virgens. Eu não esqueci: virgem era a minha mãe e que eu saiba teve quatro filhos.
Filho de uma mãe que não conheceu homem. Outro mistério? Talvez, mas para mim há muito esclarecido: mulher nasce mãe muito antes de ter homem, casar e ter filhos. Só homem se torna pai depois de mulher lhe apresentar um filho. Nisto de ter filhos, pai é secundário; mas sem mãe, nada feito. Por isso, só se pode fazer uma ideia do que é o amor olhando para a mãe. Ela é a personificação da esperança e o ser que transforma a esperança, virtude do fim, em permanente coragem, virtude sem fim que suporta a ansiedade permanente de ver o filho cada vez mais separar-se dela.
E pai, quando é fiel, assiste. Não desiste. Nem a mulher é sua, nem o filho é seu. Só passa por ele o sopro da vida, mas não detém a chave do mistério. Assiste com a mulher ver o filho partir para outra. Nasce o menino numa folha do calendário da esperança; morre o adulto noutra folha roxa da paixão: - Deus meu, porque me abandonaste? E se não fora a ressurreição, para quê o Natal todos os anos?
Deixo-vos meu Natal radical: - mães, pais e filhos a caminho de alimentar o Além. Além 2002 e além Sempre.

quarta-feira, dezembro 11, 2002

Uma resposta a dez questões muito sábias.


E o que é a ciência? Um articulado de razões para submeter ao pensamento a realidade. E a realidade, o que é? Tudo aquilo que resiste ao pensamento e deixa a ciência sem hipótese. E a hipótese o que é? Um cheque em branco que a ciência emite no banco da verdade. E a verdade, o que é? O misterioso banqueiro que dá ou não à hipótese a cobertura da experiência. E a experiência o que é? O conjunto de manipulações com que a ciência procura subornar o banqueiro, abalando a verdade com a ameaça da revolução. E a revolução, o que é? A irreprimível tendência da ciência para não aceitar o facto. E o facto, o que é? É “isso” mesmo que constitui para a revolução um permanente problema. E o problema, o que é? É o conjunto de factos que a revolução não resolve e pede à ciência que arrume na prateleira da teoria. E a teoria, o que é? Um grande armazém de hipóteses sem cobertura, um rol de quebra-cabeças para divertir a argumentação. E a argumentação, o que é? Uma escada rolante para viajar entre os patamares teóricos, mas que encrava sempre à porta do mistério que escapa à ciência. E a ciência, o que é? Volte ao princípio e continue a lenga-lenga até à argumentação.

quarta-feira, dezembro 04, 2002

Sem fim...


Gosto muito da expressão sem fim. Mas gosto dela porque tenho consciência da morte. O fim da vida não tem que ser necessariamente o seu termo, nem o termo da vida se esgota necessariamente no seu fim... Em todo o caso, parece-me que só a consciência da morte torna suportável a ideia de o infinito poder durar a eternidade. Confesso a minha incapacidade para conceber a vida eterna sem a morte, bem como conceber a morte como o fim da vida. Fim e meta não se confundem, como nos lembrava um professor de ginástica de quem, aliás, muitos troçavam por ser um metafísico da educação física. Respondia sempre aos que lhe lançavam o remoque: preferia uma meta para a educação do físico do que educar o físico para cortar a meta. Parafraseando: antes programar uma corrida sem fim para o espírito do que construir um pódium para o destino final de um corpo.

sexta-feira, novembro 15, 2002

Palavras para um catálogo


de uma exposiçãp patente
até 30 de Novembro de 2002,
de Terça a Sábado das 14 às 19h


Caleria
NOVO SÉCULO
R. do Século, 23 A B
1200-433 LISBOA




Entre! É uma exposição de João Vaz de Carvalho. São quadros. Telas sem cenário. Fundos de cores que entram pelos olhos dentro matizadas por variações tonais que a mestria do pintor faz sobrepor como se o gesto do pincel encontrasse tão só a presença subtil de camadas de tule transparente.

Entre! Agora no quadro. Trave conhecimento com uma, duas, três, quatro cabeças bojudas encrostadas em troncos rectangulares proporcionais à cabeça. Olhos? Ou distraidamente cegos, a olhar para dentro, ou redondamente arregalados a olhar para fora. Repetidamente desproporcionados em relação ao volume de outros sentidos bem proeminentes nas carantonhas narigudas com beiçolas escarlates. E os membros? Apenas uns paus de fósforo suficientes para manter de pé e movimentar os cabeçudos entroncados ou sugerir, quando necessário, um arremedo de braços para animar os trânsitos comportamentais dos personagens. E há bichos que ainda falam. Humanóides.

Sim, entre! Os quadros contam histórias. Uma ou várias a cada espectador. Uma ou várias por cada quadro. Uma ou várias pela sucessão das sugestões pictóricas que convidam o visitante a embrenhar-se na leitura de uma banda desenhada sem o apoio dos balões linguisticos que, por regra, orientam um só sentido óbvio da narrativa.

Entre! Venha e participe na desconcertante destruturação do inelutável convívio do pintor com o mundo dos objectos quotidianos, que são também da memória colectiva. Pairam em equilíbrio instável sobre as cabeças. Quando se anda com a cabeça cheia de coisas (símbolos de quê?…), coisas simultaneamente indispensáveis e fúteis, oscilando entre a utilidade e o empecilho, balançando, afinal, entre o desespero que a lucidez ilumina e a futilidade que também ao desespero não escapa, então, rir é o melhor remédio.

Entre! A proposta de João é de humor contido. O humor salva. O pintor já fez descer o riso às profundezas de si mesmo. Está salvo. Aproveitemos agora as achegas que ele nos estende e salve-se como puder: encontre uma cifra para o código de barras que encima e finaliza muitos quadradinhos desta história; assuma sem rebuço as significações das “coisas” com que anda na cabeça – pés, mãos, olhos, língua, pénis, útero, mamas, nádegas; ouça, veja e… ria. Ria, sobretudo de si mesmo.

João Lamas.

Lisboa, 2 de Outubro de 2002.

segunda-feira, novembro 11, 2002

da costela de Adão...


Parece-me razoável o mito que pretende explicar a criação da mulher por causa do homem. Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, mas emendou logo a mão e criou a mulher para o humanizar. De facto, sem a mulher, os homens correriam o risco de se tornarem deuses insuportáveis.

quarta-feira, outubro 30, 2002

Palavras, trá-las o vento.



Redondo
Luz
Distância
Ponto
Auréola

Sede
Odor
Desliza

Morde
Torce
Cede

Recebe
Encontra

Lágrima
Aflora
Expande
Cora

Aquece
Esquece
Desponta

Hora
Boca
Evoca
Tonta

Toca
Retira
Troca

Aponta

domingo, outubro 06, 2002

São Josemaria Escrivá


Esta canonização é um sinal dos tempos. E os tempos não são os melhores. São mesmo tempos inquietantes: "santificar o trabalho". Ora o trabalho, segundo certos mitos da relação do homem com o criador que Bíblia acolhe, fez esfregar as mãos de contente ao Diabo... Por outro lado, não consta que Jesus se tenha preocupado em fazer da carpintaria do pai uma multinacional do móvel. Jesus, recebido na casa de Maria e Marta, preferiu, sem margem para dúvidas, a disponibilidade de Maria sentada ao seu lado, sem fazer nada, à eficência doméstica de Marta, muito "santa", a cozinhar, varrer o chão e a lavar a louça... Inquietante é o espírito que hoje foi glorificado: o trabalho burocrático eficiente de uma instituição que levou o Papa a declarar santo para toda a Igreja o homem que os membros da Opus Dei vêm aprendendo a glorificar desde 2 de Outubro de 1928. A fé de Maria (irmã de Marta) nada entende de "burocracia canónica". É a fé de quem não precisa do Vaticano para canonizar Padre Cruz e Padre Américo. A fé de Marta, fazendo seu pé de meia na economia doméstica que vai depois engrossar os activos da banca, essa fé, sustentada pelo trabalho humilde do dia a dia, muito santo, vai levar ao altar muitos presidentes de conselhos de administração, gestores santos de santos dinheiros, fruto redentor do trabalho santo... E se a prelatura já é do Santo Padre, virá um dia em que o Santo Padre será da prelatura.

quarta-feira, outubro 02, 2002

O humor é uma virtude


A ironia é uma ponte para o desprezo. O humor, não. Pelo contrário, é a antecâmara do amor. O humor é um convite para a tolerante conviabilidade da amizade; promove a partilha erótica de corpos adversos que se harmonizam; apela para o mundo das interpretações compreensivas cada vez mais descomprometidas com as lógicas quotidianas dos interesses. É uma saudável deambulação gratuita através do gozo.

segunda-feira, setembro 16, 2002

Encontros do terceiro grau


É o subconsciente colectivo que conserva a memória dos homens. Não há que ter medo, por isso, de máquinas inteligentes, porque o homem evita nelas, o que alimenta em si próprio, ou seja, o acumulado recalcamento emotivo com que a humanidade vem disfarçando a inépcia da inteligência para se explicar a si mesma.
Um computador não passa de um controlador mecânico do “vírus” da inteligência... A memória das máquinas acabará por se apagar irremediavelmente.
E se a história se redimir com encontros do terceiro grau, não será porque as máquinas inteligentes aproximem as galáxias, mas por nelas viajarem homens emocionados ao encontro de outros homens igualmente prenhes de memória colectiva.

sábado, setembro 07, 2002

Longe da vista, longe do coração e... vice-versa


Fala-se muito em crise de valores, mas nunca houve tantos. Há valores a dar com pau... Incontáveis, tantos quantas as pessoas. Até temos uma imagem consensual dos valores: a caminhada ascensional da base para o cume. É no cimo que se encontra o busílis da caminhada: a linha das duas vertentes da montanha separa muitas vezes valores inconciliáveis, como vida vs morte, ter vs ser, liberdade vs honra, enfim, o mais do que provável dilema de ter de dizer não ao intolerável.
A crise passa então dos valores para a crise dos critérios. E mais uma vez a proliferação dos ditos: - cada cabeça, cada sentença. Ao sabor dos interesses, todos muitíssimos legítimos e/ou legitimáveis. Perto da vista, (um horror, as bandarilhas...), perto do coração (bárbara a estocada no touro...), mas o contrário também dá, longe da vista (o embrião não é pessoa...), longe do coração (o aborto asséptico numa unidade hospitalar)
Prega Frei Tomás... Olhemos para o que ele diz e para o que ele faz e... tenhamos a coragem de tomar decisões através de critérios que nem sempre compatibilizam vida e liberdade, honra e eficiência, conforto e dignidade.

sexta-feira, agosto 30, 2002

Nem tudo o que luz é oiro


A propósito da cimeira de Johannesburgo, li um texto de CARLOS VOGT, Presidente do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp.
De todo o longo e útil texto retenho: "... não basta decompor analiticamente o todo em suas partes para chegar à plena compreensão de seu funcionamento".
O fascínio da ciência, (a luz da modernidade), leva a supor que sim, isto é, que basta decompor o todo em partes para depois arranjar uma explicação das coisas... decompostas. E como a explicação resulta, (o oiro da modernidade) conclui-se muito cientificamente que o que ainda não tem explicação aguarda melhor oportunidade para se... decompor e... finalmente ser explicado. E de decomposição em decomposição, isto é, de explicação em explicação, TEMOS O AMBIENTE QUE TEMOS, MAS NÃO SOMOS O QUE GOSTARÍAMOS DE SER.
Insisto: ser ou ter, eis a questão. Será que ainda há tempo (e se houver tempo, ainda haverá coragem?) de deitar fora o supérfluo acumulado e reaprender a gostar de ser amante despojado da vida? Dizem que nem tudo o que luz é oiro, mas parece que tudo o que balança, cai.

quarta-feira, agosto 21, 2002

O sexto sentido.


Embora se diga que contra factos não há argumentos, o homem é um exímio aldrabão dos sentidos. Tem cinco sentidos, mas é com um sexto, (pelos vistos todos têm um, mas ninguém sabe como opera...) que ele elabora os argumentos contra os factos. Os outros animais não possuem este olhómetro e, por isso, obedientes ao relógio de seus ritmos biológicos, arrumam-se na vida conforme os instintos, e se alguns a eles escapam, é porque os homens os submetem às tropelias da domesticação e às fantasias que evocam nas histórias do tempo em que os animais falavam os envergonhados êxitos e frustrações da humanização da natureza.
Como em terra de cegos quem tem um olho é rei, o homem é o rei dos animais graças ao sexto sentido – o tal olho suplementar que nós temos e eles não. A bem dizer, o sexto sentido orienta o homem de forma a reduzir os outros cinco à expressão mais simples, simplesmente dispensáveis: às tantas, não são precisos olhos para ver, ouvidos para ouvir, mãos para apalpar, boca para saborear e nariz para cheirar. Nem a realidade é necessária, porque o sexto sentido navega como peixe na água na realidade virtual.
Na realidade virtual, o corpo vai para o galheiro, mas ressuscita e pirilampa por entre tufos de “bites” ordenados pela mestria dos algoritmos que colocam ao alcance de um digito humanóide a promessa profética de uma Jerusalém Celeste, finalmente invertida a contento do sexto sentido do homem: enquanto no Éden dos édipos a utopia redentora é o mundo da inocência, quiçá da ignorância, no Ciberespaço, a versão digital da ubiquidade dos contrários desenha um mundo de saber e de inteligência perpétua...
Estaremos condenados pelo sexto sentido a ser deuses? Pelo sim e pelo não, fia-te na Virgem e não corras e verás o trambolhão que levas...

segunda-feira, agosto 12, 2002

O verso e o reverso da medalha.


Quando se deita uma moeda ao ar é para saber se é cara ou coroas. Apanhamo-la na queda, espalmada entre mãos, e a sorte é determinada pelo primeiro a escolher, a mão direita ou a esquerda, cara ou coroas ou vice-versa. O truque de a apanhar no ar entre mãos é para evitar, não vá o diabo tecê-las, que ao cair no chão, a moeda se ponha a rolar e vença definitivamente a inércia sem verso nem reverso. Se assim fosse, não haveria sorte para ninguém – pelos vistos, o desejo do diabo.
Sorte para todos é desejo divino. Desconfio que ainda não é o programa de todos os homens: há sempre quem queira um pouquinho mais de sorte para si do que para os outros... Mas homem é bicho de fé. Se não em Deus, pelo menos na ciência, cujo fascínio o leva a acreditar de que é possível e plausível ter, simultaneamente, sol na eira e chuva no nabal. Só que até ao momento as soluções ditas científicas também obedecem à lei do verso e do reverso da medalha...

domingo, agosto 04, 2002

A alma do negócio


Confundir a certeza com a verdade é vulgar. Mas há uma diferença muito grande: a verdade é; a certeza tem-se. A confusão entre uma e outra corresponde à confusão entre ser e ter. A certeza passa pela apropriação da verdade para uso exclusivo. É o domínio dos pronomes pessoais e dos adjectivos possessivos – o segredo, a alma do negócio, a luta pela vida.
A verdade requer a transcendentalidade do objecto. É o domínio do nome predicativo do sujeito que actualiza aqui e agora a utopia mobilizadora de que o homem carece para ser. A verdade diz-se. Proclama-se aos quatro ventos. A verdade mostra-se. Quem a encontra sabe muito bem como mostrá-la ou escondê-la. É fácil reconhecer a verdade: basta que quem a encontre mostre o caminho que percorreu para lá chegar e revele a “senha” do código que utilizou para a conhecer. A verdade é. Não se possui. Ninguém tem a verdade. O que as pessoas têm são certezas. Muitas. A cada um sua certeza, a sua própria alma do negócio...

sábado, agosto 03, 2002

O primeiro homem.



Parece que agora temos outro primeiro avô: - o Sahelantropus tchadensis. Foi desenterrado no deserto de Djurab uma caveira parecida com o crânio de um homem, mas com volume para a massa cinzenta de um chimpazé. Será de facto o crânio do primeiro macacão que disse pela primeira vez à sua macaca olha que isto de ter cio todo o ano obriga a pensar duas vezes antes de?... Mais crânio, menos crânio, pouco importa. São ossos do ofício de antropólogo. O que eu gostaria mesmo de ouvir era a primeira conversa de nossos macacões avoengos.

sexta-feira, agosto 02, 2002

O outro mundo...


O caminho é o espaço entre duas camas: a cama da mãe e a cama da morte. É o caminhante que vai fazendo o caminho. Mas o chão tem uma prioridade absoluta sobre a mãe, a morte, o caminhante e o percurso. Nada a fazer, pelo chão ou pelo ar, este mundo já cá estava quando o homem deu por ele. Se tem uma noção de passagem, de um outro mundo vem e para outro mundo vai. Não seria nada mau que regressasse ao mundo de onde veio: o da inocência.

sábado, julho 27, 2002

Noves fora, nada...


A propósito das contas públicas, lembrei-me do meu primo Zé Inocêncio, companheiro de instrução primária. Quando aprendeu a prova dos nove, nunca mais errou uma conta: espalhava um número ao calhas entre as parcelas para em cima de um traço aparecer por baixo o mesmo número que aparecia em cima. Meu primo foi para o Brasil cozer pão e... com os noves fora nada por lá morreu. Fazes muita falta, querido primo, para acertares as contas de São Bento. Quinze, noves fora, seis, e vão... todos para Bruxelas deitar contas à vidinha...

quinta-feira, julho 18, 2002

"Três” é o número que Deus fez


Vá lá a gente conceber um, só!... E só um para quê? Pelo menos mais outro... um. Assim já são dois... uns. Um e dois são primos. O povo, que nem precisa de ir à escola para perceber a sofisticada matemática das uniões naturais, intui que quanto mais primo, mais lhe arrimo”: - não há dois sem três. E como continuam primos, redondamente divisíveis por si e pela unidade, os primeiros três números são a sagrada família primordial que rompeu a inconsequente virgindade eterna. Só um Deus poderia de tal sorte tirar os três à solidão. O “quatro” é o primeiro número humano: abandonou o círculo divino para se tornar divisível por um, por si e... por mais. Anda o homem, o “quatro”, condenado a conceber a quadratura do círculo: - tirar os três a toda a gente, mas ficar sempre com umas sobras para o que der e vier nos quatro cantos da casa, a mais redutora metáfora do universo que o ser humano inventou.

sexta-feira, junho 28, 2002

A primeira a saber és tu.


Quando começa então a vida humana? Não será quando ela se anuncia? E quem recebe o anúncio, tu, sabe do que se trata: a de uma nova vida humana. Anúncio solitário. Bem-vindo? Mal-vindo? Iniludivelmente vindo. Desasadamente vindo.Vindo para a vida ao encontro da morte. Não é pessoa? De certeza que não é se o/a não deixarem ser: a pessoa vai-se fazendo sustentada pela humanidade em marcha para cada vez mais ser. Recorrer à ciência e à filosofia para destruir o embrião antes de? É sempre depois de que se opera a destruição, sustentada pela humanidade em marcha para cada vez mais ter. Ser ou ter - eis a questão.

quinta-feira, junho 27, 2002

Nu Verão


Eu gosto do Verão porque as pessoas despem-se. E algumas despem-se tanto que ficam nuas. Eu gosto do nu: duas letras muito significativas - "n" de não; "u" de um. Nu = não um. Não um, mas dois ou mais...
No Verão as pessoas andam com menos (roupa, dinheiro, adereços, etc.). Podem portanto partilhar mais o que são e não o que têm. Se calhar Adão e Eva nasceram no Verão e... vestiram-se no Outono, a estação da Queda...

sexta-feira, junho 21, 2002

A verdade de La Palice.


Os velhos (chamo velhos a quem, como eu, tem direito ao passe social da terceira idade), numa ocasião ou outra deixam escapar que estão próximos da morte. Há dias percebi uma leve inquietação de um amigo a propósito deste assunto e atirei para a mesa com esta sentença:
- Eh pá, toda a gente nasce com que é necessário para morrer.
- Pois, essa é mais uma verdade de La Palice.
O tema da conversa morreu por aqui e voltámos a dar vida a outros discursos para os quais não foi mais necessário evocar as verdades de La Palice...
Agora, no silêncio de O Proverbiota, venho perguntar:
- Mas haverá alguma verdade com a qual estejamos todos de acordo que não seja de La Palice?
Valha a verdade que La Palice não é célebre por ter sido autor de verdades incontestáveis. Marechal de França entre o último quartel do século quinze e o primeiro do dezasseis, Jacques de Chabannes, senhor de La Palice, viu-se envolvido numa batalha travada sem o seu consentimento. Bateu-se, porém, com grande determinação e bravia. Morreu no campo de batalha. Seus soldados, gente simples e por certo analfabeta, para afugentar as mágoas da derrota, beberam uns copos para esquecer, mas imortalizaram para sempre o seu chefe, cantando a verdade da vida de La Palice que “um quarto de hora antes de morrer, estava vivo”... E esta é a verdade de La Palice que muito pouca gente conhece.
A verdade dita científica, o acordo com a proposição necessária, neste sentido o contrário do erro, é tão obediente à mecânica do raciocínio que basta uma vintena de anos de estudo para que não nos escape a conclusão ao fim de um percurso step by step de qualquer primário debugger. Mas a verdade de um compromisso vital, neste sentido o contrário da mentira, não convence quem tem um arsenal neutro de razões prontas a disparar mecanicamente, mas não escapa a quem partilha a fidelidade ao compromisso de andar na vida, não para a prolongar, mas para a viver... até antes da morte.

segunda-feira, junho 17, 2002

Um, dois, esquerda, direita e... troca o passo.



Direita e esquerda? Estou pela esquerda condenado a ser da direita, pois é a esquerda que diz que é de direita quem não vê a diferença. Mas não vejo, embora me julgue capaz de diferenciar os discursos.
Mas... há os comportamentos: - estudam nos mesmos colégios, vestem nos mesmos alfaiates, penteiam-se nos mesmos cabeleireiros, comem nos mesmos restaurantes, vão às mesmas festas, andam nos mesmos automóveis, lêem os mesmos livros, falam nas mesmas televisões, escrevem nos mesmos jornais, etc. e tal. Por que raio de magia deverão ser diferentes as políticas?
E quem pergunta é o Zé Povo que estuda na mesma escola degradada, veste na tenda do mesmo cigano, vai ao barbeiro da mesma esquina, come em pé a mesma sopita, diverte-se à bisca lambida nos mesmos jardins, agarra-se como pode aos mesmos varões dos autocarros, lê (quando sabe ler...) a mesma Maria, partilha os mesmos sonhos do Big Brother, e desabafa as mesmas angústias nos directos dos mesmos telejornais, etc. e tal.
Um, dois, esquerda, direita e... troca o passo. É tempo de dizer "Basta!".

domingo, junho 16, 2002

Cravo e canela livre de impostos


Chegou da Coreia a selecção nacional de futebol. Esperava poder desfazer o sentido do último post. Mais: esperava desancar meu pessimismo precipitado e dizer que aquilo com a América tinha sido “primeiro milho para pardais”. Pardais? Pardalecos, esses americanos que têm a mania de ser bons em tudo, até em futebol, vejam lá, a única garantia que ao terceiro mundo ainda resta de poder figurar nas primeiras páginas dos noticiários sem ser por via da fome, da epidemia ou da guerra.
Os “tugas” não catapultaram meu ego de pobretana ocidental para a via ascensional dos mastros e velas que outrora sonharam buscar o sol lá onde nascia o astro-rei.
Mas há ainda uma réstea de portugalidade no campeonato do mundo: os brasileiros continuarão a contar as facécias anedóticas do Zé Pacóvio que os descobriu e ... o Senegal, por quem passo agora a torcer: - o Senegal moderno deve muito a Leopold Shengor, cujo nome vem directo do português "Senhor" e que, enquanto poeta, lembrou que lhe corria no sangue a alma do fado.
Quanto aos "Tugas" foi mais um sonho perdido no regresso das caravelas. Partiram Gamas e nem sequer regressam com a fantasia purificada pela Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Foram ao oriente e como bons agiotas ocidentais querem cravo e canela livre de impostos.

quinta-feira, junho 06, 2002

Cedo, a decadência



Euros Bruxelas

Pobre povo

Nação cadente

E fé fatal

Murcham hoje mastro e velas

Cravo e alhos de Portugal

Entre o esperma da memória

Ó Tugas, sente-se que a vós

Faltam ventos dos avós

Que nos soprem a vitória

Garganta! Garganta!

Nem mar, nem barcos, nem anzóis

Garganta! Garganta!

Vamos pastar os caracóis

Mudam-se os ventos

Espanhóis, espanhóis



Bom, se, entretanto, passarmos à fase seguinte lá no oriente que já foi nosso, voltamos ao hino republicano, à Maria da Fonte e à Padeira de Aljubarrota. E desculpem o mau jeito: ando azedo desde ontém. Falta-me alma até Ameida. Cheguei ao Almotão e que vi eu? A Senhora de lá virada para Castela e de costas voltadas para Portugal... Contava com os Tugas para vencer a crise...

quarta-feira, maio 22, 2002

A galinha da minha vizinha...


A austeridade está na ordem do dia. Há que circunscrever o termo “austeridade” à coisa que ele quer nomear e a coisa é o equilíbrio entre receitas e despesas públicas.
Mas as palavras acarretam uma carga afectiva. Elas denotam e conotam e carambolam umas nas outras. Sinónimos, homónimos e homófonos quando referidos “à mesma coisa” (a contabilidade pública) reencaminham o espírito para os horizontes mais alargados da economia política global e, então, austero é também o nome de um vento que sopra do sul o severo rigor da fome aos ouvidos frios de um norte rico que equilibra os seus activos com os passivo dos antípodas.
Alinhemos então alguns sinónimos de “austeridade”: abstinência; aspereza; dureza; estoicidade; estoicismo; inflexibilidade; integridade; inteireza; mortificação; parcimónia; pulso; rigidez; rigor; rispidez; severidade; têmpera; tesura.
Como se vê, austeridade é um raio de substantivo abstracto que referido a pessoas e/ou a coisas concretas não deixa grande margem à simpatia. Bem pelo contrário. O mesmo se dirá da sinonímia do adjectivo austero. Vejam: acerbo; acre; adstringente; apertado; áspero; cru; desabrido; disciplinado; duro; escuro; espartano; estóico; grave; inflexível; íntegro; intransigente; parco; penoso; ponderoso; rígido; rigoroso; rijo; ríspido; rude; sério; severo; sisudo; sombrio.
Ufa! Isto aplicado à política levará meia dúzia de votos às urnas. No entanto, dada a indisfarçável desproporção entre os recurso (escassos) e as necessidades (muitas), o reequilíbrio entre a coluna da esquerda e a coluna da direita de uma contabilidade “austera” (nada como a contabilidade para equilibrar a esquerda e a direita) exige o abandono de direitos adquiridos, de privilégios actuais, impõe, afinal, a lúgubre panóplia das significações austeras.
Foi, creio, um frade austero que inventou o método das partidas dobradas do registo das contas nos livros de contabilidade: créditos menos débitos sempre igual a zero. Que austeridade matemática! Mas onde se inscreve o lucro que faz com que a galinha da vizinha seja mais gorda que a minha? O homem até compreende o “bom fundamento da austeridade”, mas é geralmente mais severo com os outros do que consigo próprio...
Em Portugal não se fala senão do almejado zero do Orçamento de Estado. Fala-se em Portugal, na Europa e no Mundo. A “austeridade” tornou-se mesmo um imperativo categórico. Afinal, não é a riqueza que está mal distribuída; é a pobreza. Haja a coragem de inscrever esta verdade nas contas públicas...

segunda-feira, maio 13, 2002

Assim não chegas lá...


Ao longo da minha vida ouvi, e ainda ouço dizer em diversas ocasiões, muitas, assim não chegas lá. Pergunto sempre lá onde? e reparo no súbito embaraço do meu interlocutor. Como nunca quis chegar ali e lá cheguei, aquele assim não chegas lá cheira-me a suborno e põe-me logo de pé atrás em relação ao manifestado interesse de me levarem para onde eles vão. Confesso que me embaraça o frenesim de ter de um dia chegar lá, só. Mas levo a esperança de ouvir no fim muitas vozes dizerem-me assim chegaste cá.

sábado, maio 04, 2002

Dia da Mãe


Nunca ninguém viu Deus. Quanto a mim, sempre que procuro imaginá-lO, encontro-me com a tua imagem, querida Mãe.

quarta-feira, abril 24, 2002

Com os pés no chão


Há quem se gabe de ter os pés bem assentes na terra. Porem, o homem inventou as meias e os sapatos bem cedo precisamente para não sentir a terra e andar com a cabeça no ar à vontade. Se há característica que melhor identifique o bicho homem é essa de uma cabeça no ar, tão no ar, que a mente se desprende do corpo para justificar o injustificável, aquilo que nem sequer o cérebro justifica. Hoje a cultura é paradoxalmente esquizofrénica: venha de onde venha, todo o discurso avança com as condições mentais prévias justificativas do saber e do poder de quem discursa sem o incómodo de assentar os pés no chão. É urgente que o homem mude a sua relação com o saber e o poder. O homem? Sim: eu, tu e o outro.

segunda-feira, abril 01, 2002

Páscoa Feliz


Surpreendi Moisés, Jesus e Maomé a passar a Páscoa juntos. Foi no deserto, a terra deles. Acordaram entre si fazer uma grande fogueira com o Livro: o Velho Testamento, o Novo e o Alcorão. Diziam entre eles que o Livro deveria sair da memória e feito assim em chamas arderia para sempre no coração dos homens. Resolveram mais: não voltar a casa e deixar a sinagoga, a igreja e a mesquita às moscas. Crentes e cheios da fé do início Moisés, Jesus e Maomé não perderam a esperança: quando os templos forem só das moscas, rabi, papa e emir voltarão a procurá-los e encontrarão os três juntos, no deserto da origem, iguais a si próprios, nenhum maior do que outro, falando de uma só voz – amai-vos uns aos outros.

quinta-feira, março 28, 2002

Razão antes do tempo...


A razão vem sempre antes do tempo. E não espera pelo tempo para lhe dar razão. Aliás, o homem não aprende nada com a razão porque a tem sempre toda antes do tempo. A característica fundamental da razão é mesmo a de desconfiar do tempo. Os irracionais só cometem um erro uma vez e de cada vez: gato escaldado de água fria tem medo. Mas o homem, esse racional inveterado, como anda com a razão o tempo todo, nunca perde uma ocasião para demonstrar por a+b que errar... é humano. E de erro em erro, nunca perde a razão: - presunção e água benta, cada qual toma a que quer. Sempre, até haver água e quem a benza...

quarta-feira, março 27, 2002

Uma mente brilhante


Fui ver o filme. É a história de John Forbes Nash Jr. que em 11 de Outubro de 1994 ganhou o Prémio Nobel da economia pelos seus trabalhos de matemática no campo da teoria dos jogos. Nash, com vinte e um anos de idade, mostrou como construir cenários matemáticos nos quais se pode verificar, numa competição, a vitória de ambos os lados. Foi o que a economia quis ouvir. Os economistas transformaram a teoria dos jogos num instrumento e hoje só se ouve falar em economês competição, competição, competição. Tudo graças a Uma Mente Brilhante – a de Nash.
Depois... a esquizofrenia. Deu em ouvir vozes e em dar estatuto de realidade ao que se passava tão só na sua mente brilhante. Pretendem os psicólogos freudianos explicar estes desarranjos mentais, dizendo que o casamento e a gravidez da mulher teriam conduzido a mente de Nash a perder a capacidade de distinguir sensações e razões, de ordenar o seu vasto campo de emoções. Mas ainda bem que casou: a mulher perdeu um amante; mas Nash não perdeu uma esposa. Graças a ela, a mente brilhante voltou a verificar que o que é real na vida é o encontro de dois corpos numa carícia, é a fragrância de um filho fruto da dádiva e não a fruição de um produto ordenado pelo jogo matemático da competição.
E no fim foi a uma mente brilhante que a Academia do Nobel deu o prémio, mas foi uma mente bonita (A Beautiful Mind) que o recebeu.

quarta-feira, março 20, 2002

ri melhor quem...


Como poderá o homem um dia achar irrisória a divindade sem se encontrar com o deus do riso?

terça-feira, março 19, 2002

Vem lá o pai.


Eu lembro-me onde e quando apareceu meu pai. Era de noite, não havia electricidade, e minha casa tinha nas traseiras uma varanda. De lá se avistavam, ao longe, a dois quilómetros ou mais, pirilampos de lanternas lentas que tracejavam a esperança de quem no escuro da aldeia aguardava um caminhante vindo da cidade.
Minha mãe procurava fazer coincidir a cozedura da broa com a folga semanal do marido, aleatória sucessão rotineira de caprichos do calendário que ritmava seus encontros semanais.
- Vem lá o pai!
- Onde?
- Passou agora na Fonte da Nogueira.
- Ora! Como é que sabes, daqui, tão longe.
- Eu conheço a luz da lanterna de carbureto da bicicleta do pai.
E era. Meu pai vinha atrás dessa lanterna que meus olhos nunca mais esquecem. Meu pai foi essa lanterna que de minha memória se não apaga. Meu pai é essa lanterna que eu hoje, Dia do Pai, doo aos filhos do mundo inteiro.
Querido Pai, o beijo que hoje depositei na lanterna velha que ainda guardo não é só meu: é de todos os filhos que esperam, seguem, guardam e devolvem a chama das lanternas que são seus pais.

domingo, março 17, 2002

Humor, sexo e Deus


Quem se embrenha na Internet verifica, a olho nu, que os temas humor, sexo e Deus estão entre os mais procurados da Web. Há quem veja nisto uma prova da subversão de valores: poucos curam de coisas sérias; muitos andam atrás das inutilidades.
Eu julgo que quem assim pensa corre o risco de se enganar: humor, sexo e Deus têm de comum o apelo à transcendência.
Vejamos. Normalmente, antes de se contar uma anedota, os parceiros envolvidos na representação são convidados pelo contador ao recolhimento da escuta – então, já sabem da última... – e o grupo distancia-se voluntariamente dos afazeres para saudar com uma boa gargalhada a entrada no mundo dos prazeres gratuitos, até que um companheiro acorde os outros para a rotina dos interesses – pronto, já chega, vamos ao trabalho... O sexo também exige um corte com o mundo: a procura da intimidade do outro é um convite à partilha de entranhas que catapulta os corpos até aos limites da perca dos sentidos – a dádiva gratuita do orgasmo. E Deus só se acha no corte radical que se opera entre a mente e a imanência do mundo e da vida – um apelo à gratuidade pura que transcenda a transhistoricidade da memória.
Humor, sexo e Deus apelam à transcendência, um corte com a realidade. É algures nos interstícios da gratuitidade a que apelam que se encontra o critério para distinguir o humor do sarcasmo, o sexo da pornografia e o sagrado da religião.

terça-feira, março 12, 2002

... o inimigo do bom


Sempre ouvi dizer que o óptimo é inimigo do bom. Se o amigo do meu amigo, meu amigo é, a sentença contrária (o inimigo do meu inimigo) também. Confessam os óptimos que não gostam dos bons; avisam os bons para os perigos do óptimo. Óptimos e bons são maus entre si. Resta-nos ter confiança nos medíocres. Isto é, na hora da decisão venha o diabo e escolha... A propósito: no domingo há eleições.

quarta-feira, março 06, 2002

Ladrar ou morder pela calada?


As caravanas passam, todas iguais: carros, bandeiras, altifalantes. Vêem-se, mas quem os ouve? Cães que ladram? Mas não mordem? No dia das eleições, civicamente, no silêncio das urnas, ninguém é nómada, a caravana pára, palhaços e circo, artistas e bichos, ordenadamente, todos igualmente crentes, põem o voto na urna... Eu lembro-me invariavelmente de uma quadra, de autor desconhecido, a qual, na minha juventude, aludia à interferência sarcástrica de duas desilusões, então com muito significado ético, mas hoje igualmente anómicas:

Teve o azar de casar
No dia de eleição
Pos o voto na urna
Não sentiu oposição

É assim, como pressente o povo bom e crente: mudam as moscas... Mais caravanas hão-de passar, nas autárquicas, nas legislativas, nas presidenciais... No dia da eleição, contam-se os cães que ladram (os votos), contam-se os que não ladram (as abstenções) e... tem razão o Zé Povinho: os que ladram, não mordem; outros mordem pela calada...

segunda-feira, fevereiro 25, 2002

De pequenino...


Quantas vezes já se ouviu dizer que de pequenino se torce o pepino? Muitas. Mas, confessemos, são sempre os mais velhos quem proferem o ditado em relação aos mais novos. Aliás, ditados e provérbios, frases feitas e estereótipos são coisas de velhos. Eu que o diga que não escrevo n’ O Proverbiota duas linhas sem a protecção de um “ditote”. Então, a que propósito vem hoje à baila o pepino? Da juventude. “Juventude” é apenas uma palavra e se forem ao dicionário (o da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo) verão que é até a última da letra J. Nem de propósito: os últimos são os primeiros... Nunca se falou tanto de juventude e nunca um dado biológico (velho quanto a idade da vida) foi tão manipulado socialmente como este o é hoje pelos detentores das rédeas do poder. Há juventudes para todos os gostos e são um produto de consumo que dá a muita gente a oportunidade de ganhar uns tostões para sair da juventude e... entrar na vida adulta – o mundo dos adúlteros... Só uns exemplositos: a juventude rasca dá trabalho à polícia e aos técnicos de prevenção social; a juventude bem comportada tem uma Secretaria de Estado que lhes passa cartão, os jovens dos partidos políticos têm assento no parlamento, os jovens empresários têm subsídios a fundo perdido, as juventudes dos clubes têm patrocinadores para as claques, os sub16, os sub20, os sub21 são o alfobre do nosso futebol, a Banca disponibiliza crédito jovem, etc. etc. e tal. Sem falar das televisões onde a juventude é o prato forte das audiências... Eis a juventude que chega à idade adulta com o pepino... torcido.

quinta-feira, fevereiro 21, 2002

Quem cabritos vende e cabras não tem...


Ultimamente, com a campanha eleitoral e a insistência dos candidatos sobre a necessidade de responder às exigências de Bruxelas para equilibrar as contas, de forma a que os gastos correspondam à riqueza produzida, lembrei-me do ditado quem cabritos vende e cabras não tem, de algures lhe vem. A sabedoria popular deveria tranquilizar a erudita sabedoria dos políticos: o povo entende bem o discurso da chapa ganha, chapa gasta. Mas... habituámo-nos a que o terreiro do paço distribua à tripa forra e abra os cordões à bolsa e são cada vez mais os que vivem às sopas do Estado. Isto é, o Zé Povinho tira sempre um provérbio do manguito. Ora, quanto ao dos cabritos, sabe o povo que os não há, sem cabras e cabrões. De maneira que... acautelem-se os políticos porque há muito anda o povo a perguntar onde vão os cabrões arranjar tantos cabritos...

segunda-feira, fevereiro 18, 2002

Lágrimas de crocodilo


A poluição é um assunto que já polui o espírito mais do que os resíduos poluem os corpos. Trata-se de uma autêntica indústria do medo. Se quem semeia ventos colhe tempestades, quem semeia medos, colhe débeis mentais... Não semeiem tantos medos: há seiscentos mil anos que o homem anda a poluir o ambiente e fá-lo na medida em que avança com a sua inteligência. Aliás, é com a consciência cada vez mais aguçada que o homem se vai afastando do tal paraíso terrestre pelo qual agora tanto chora. São lágrimas de crocodilo, venham elas das associações de defesa do ambiente, da anónima sociedade civil, dos governos, de outros poderes, de mais saberes, de quem os informa e outros patuscos que tais. Quem quiser mudar o ambiente tem que mudar de vida: não jogar no tabuleiro da utilidade, mas no da gratuidade. Deixem de ser tão úteis, meus senhores, porque é a utilidade que polui o mundo. Se querem tocar nas coisas para as transformar em ouro, não se queixem agora de que o ouro não mata a sede.

quinta-feira, fevereiro 14, 2002

Um descuido sem intestinos...



Tudo (mas mesmo tudo, o universo, o mundo e a vida) teria começado com um grande estoiro, o Big Bang. Mas pelos vistos foi um pum!... inorgânico, inodoro e inaudível, pois os cientistas dão por adquirido que só apareceram os primeiros cagagéssimos de vida, muitos, muitos e muitos biliões de anos após rebentar a bolha inicial. Os cientistas nada dizem sobre a bolha antes de à bolha lhe ter dado na bolha e... descuidar-se. Mas contam tim por tim toda a história que se seguiu ao cataclismo inicial.
Resumindo a história : o primeiro pum deu lugar ao espaço e ao tempo com tanta energia que trezentos milhões de anos depois (mais milhão, menos milhão, não interessa para a história...) já havia estrelas e galáxias bem arrumadinhas, girando sobre si ou à volta umas das outras.
Bem arrumadinhas, é como quem diz: encontrão daqui e encontrão dali, deu-se um acaso feliz, o nascimento do sol, já lá vão cinco biliões de anos (mais bilião, menos bilião, não interessa para a história...).
Com o sol, aquece além e aquém, e arrefece ali e acolá, e vice-versa e de cima para baixo e de baixo para cima, num caldeirão de lama, apareceram umas bichezas, que são assim como o resultado de uma revolta da matéria que queria ter voto na matéria. É a vida!. Mas que vida tão chata. Não há bela sem senão: descobre a vida que para ter voto sobre a matéria teria que fazer pela vida... morrendo. A luta pela sobrevivência.
A partir desta constatação (a morte da bicheza) foi um ver se te avias com todos os biotas a ultrapassarem-se a si mesmos: peixes que viram repteis, repteis que viram pássaros, ovos que viram mamas para os mamíferos mamarem nas tetas da vida. Os mamíferos andam a mamar há duzentos milhões de anos (mais milhão, menos milhão, não interessa para a história).
O maior mamão de todos ainda estava por nascer. Claro que já havia uns macacos de imitação, mas tiveram que pelar o rabo e fazer muita ginástica para endireitar o corpo e dar cabeçadas para arredondar o crânio e fazer sexo cara a cara, sem horas marcadas pelo ritmo do cio. E nasceu o homem, sem o cio do macaco, mas cioso por macaca quanto o seu antecessor ainda o é por banana. Estamos por esta altura a uns seiscentos mil anos deste “post” (mais mil menos mil, não interessa para a história...).
Temos portanto o homem, um macacão de primeira. É o responsável por esta história: há meia dúzia de anos (mais meia, menos meia, não interessa para história) o nosso homem confirma que tudo começou com o tal pum inicial. Quando lhe perguntam pela origem intestina desse descuido iniciático, responde, matreiro, que o segredo é a alma do negócio.

quarta-feira, fevereiro 06, 2002

Com a verdade me enganas


A sabedoria popular é o bom senso em marcha. Os sentidos não enganam a mente, pelo contrário, é a mente que engana os sentidos. Os sentidos sentem e a mente... mente. E a mente mente com a verdade. Nós esquecemo-nos com muita frequência do que é a verdade. Na civilização ocidental que foi beber a razão na Grécia, o direito em Roma e a moral em Jerusalém, o termo verdade tem, pelo menos, dois sentidos: no mundo greco-latino, a verdade é a conformidade com a proposição necessária e o seu contrário é o erro; no mundo judaico cristão, a verdade é a fidelidade a um compromisso e o seu contrário é a mentira. O espectáculo da ciência e da fé está à vista: a ciência não erra, mas diz que não há regra sem excepção; a fé não mente, mas diz que há males que vêm por bem... O que nos vale, é de novo a sabedoria popular: anda meio mundo a enganar outro meio. Uns com a mente mentem; outros acreditam, mas são (de)mentes. Mas a solução é de caras. Cada um arranja a cara-metade que lhe der jeito.

domingo, fevereiro 03, 2002

a brincar a brincar...


- Tenha paciência, Senhor Einstein, Deus joga mesmo aos dados. Mas não é para testar a sorte; é para lembrar aos homens que deixem de procurar coerência onde ela não faz falta – no mundo que transcende o pensamento. Coerência é coisa que só funciona na cabeça dos homens. Só a incoerência permite que um ser nascido do chão possa voar.

quarta-feira, janeiro 30, 2002

... dar tempo ao tempo


No princípio era o tempo. O tempo tinha o tempo todo ao mesmo tempo e no mesmo tempo. Como não havia tempo a perder, o tempo rebentou. O universo, mundo e vida, é o conjunto de fragmentos do tempo com a memória do tempo antes de rebentar – é um backup do sopro criador. O homem já descobriu que não há memória RAM nem ROM que processe o restore de semelhante backup. Chega-se sempre lá... sem memória. Não vale a pena perder tempo com o tempo. Dá tempo ao tempo, porque atrás de tempo, tempo vem.

... pelos dedos de uma mão


Os dígitos têm a ver com os dedos da mão. As mãos são duas e os dedos são dez. Os dígitos também. Começas a contar no dedo um e se não fosse o zero vias-te aflito para acabar a contagem. Medita: o zero é um pró-memória do fim — foi inventado para dizer que a mão acabou. E quem anda sempre com o zero à mão, escusa de se preocupar com tirar com uma mão o que dá com a outra.

terça-feira, janeiro 29, 2002

Cada cabeça, cada sentença


Toda a gente aceita a sentença cada coisa no seu sítio. Porém, o equilílibrio e a paz dependem cada vez mais da aceitação de dois ou mais sítios na mesma coisa. É a tradução proverbial da chamada teoria do caos, mais coisa, menos coisa...

sexta-feira, janeiro 25, 2002

As palavras são como as cerejas.


Puxa por uma e outra e mais outra, quase um açafate delas vem agarrada à primeira. Servem de brincos. As picadas pelos passarinhos cantam doces em nossas bocas. A polpa colorida confunde-se com os lábios e os caroços, quais balas impulsionadas pela elasticidade das bochechas, tinam nos alvos que vamos escolhendo ao sabor dos disparates.
Brincos e balas, palavra puxa palavra, ao sabor do som que a diz, a humanidade lavra a natura e cria cultura. Já chegámos à realidade virtual: a palavra, no computador, é qualquer mancha de impulsos separada pela barra de espaços. Adeus cerejas: comem-se as poucas que há alinhadas e calibradas pela gramática do consumo nas embalagens frias de uma mensagem via Internet.

terça-feira, janeiro 22, 2002

A terra a quem a trabalha e o mar a quem o pesca...


Vêm aí eleições para um novo parlamento e, consequentemente, para um novo governo. Um governo para Portugal.
Dei comigo a pensar em Portugal. Dantes dizia-se alma até Almeida. Em várias ocasiões ao longo da nossa história, circunstâncias várias obrigaram os portugueses a fazer das tripas coração para leste e a malta ia, mas não ia muito longe, porque para lá de Almeida, a alma era de outros. E depois tínhamos umas rezas e umas cantigas protectoras: Senhora do Almotão/ minha tão bela arraiana/ voltai costas a Castela/não queirais ser catelhana. Portugal é pouca terra e muita água. Terra é apenas a suficiente para nela nos aparelharmos para ir para o mar: quem vai para o mar aparelha-se em terra Mas... nem tanto à terra, nem tanto ao mar. Está certo, mas esquecer o mar, nunca. É por isso que a fronteira terreste que Deus haja esteve sempre colocada à distância ideal para não esquecer o mar. Nascemos na extrema do Douro e empurrámos a Foz do Douro até Foz do Côa, trouxemos a Extremadura para a boca do Tejo e o mar foi por aí cima até às gargantas do Ródão, alargámos Ribatejo Alentejo, subimos o Caldeirão para ver o mar no Algarve, e toca de o levar Guadiana acima, não muito longe, porque não nascemos para marinheiros de água doce...
Mas o mundo é feito de mudança Vai haver eleições para um novo governo de Portugal. De Portugal? Agora que o mar já não é solução, mas antes problema, não basta apenas alma até Almeida. Alma até Bruxelas ... de mão estendida, sem sangue na guelra, porque nosso mar já não dá peixe.

sexta-feira, janeiro 18, 2002

Mãe


Hoje é dia de teu aniversário. Como se festeja aí no céu o dia de anos? O pai fez anos no passado dia oito. Encontraram-se? Já deves saber que a nossa pobre imaginação projecta cá na terra o reencontro idílico no céu dos mortais deste mundo. Seja como for quero recordar-te um sorriso teu.
É datável. Foi em 17 de Fevereiro de 1941. Tinha eu cinco anos e cinco meses. Estávamos sós em casa. O pai trabalhava em Coimbra, o Zé, com onze anos já era marçano na loja do Zé Moca e a Lurdes aprendia costura, ambos na vila. Levantou-se um vento doido, árvores, telhados, alfaias, gados e capoeiras voavam sem destino. Ao teu lado nunca tive medo e, por isso, minha inocente e curiosa expectativa de um dia fora do comum estranhou a inquietação com que me ajoelhaste a teu lado, de mãos erguidas, a gritar o socorro de Jesus, Maria e José. Mas os nomes de Deus Jesus e José atropelavam-se à saída de teus lábios aflitos e soavam de um só folgo inquieto Judé. Ai Maria Judé nos acuda! Maria e Judé , Maria e Judé. Emendei-te com uma cotovelada tranquila: - Oh! Mãe, não é assim que se diz. É Maria e José.
Voltou a tranquilidade ao teu rosto. O sorriso que me devolveste ainda anda comigo e faz parte da substância sagrada da percepção de divino que nunca mais me abandonou.

domingo, janeiro 13, 2002

Vamos ver o invisível


Em 1993 chegaram imagens de galáxias perto dos limites do universo visível. Será que quando pusermos o pé nessas galáxias ficaremos em condições de ver o invisível? Não deixa de ser uma situação caricata: para a frente em direcção ao futuro é invisível e todos gostariam de ver; para trás, em direcção ao passado tudo é visível e ninguém quer ver. Só visto, contado não tem graça... Ainda por cima, o universo está condenado a ir para o galheiro!. Daqui a uns cem triliões de anos as estrelas começam a arder para dentro e cá por fora ninguém dá por elas. Assim contentemo-nos com as "Estrelas do Bigbrother" que ainda ardem por fora embora muito desmaiadas por dentro... Lembra-nos a sabedoria popular que nem tudo o que luz é oiro, embora haja oiro negro mas que dá luz... por pouco. Também está em vias de extinção... Quer dizer, tudo e todos estamos a caminho do fim. A não ser que até lá uma nave nos transporte até à boca de um buraco negro: espreitando talvez se veja um fio de luz no fundo do túnel...

A ti, computador, me confesso


Hoje apetece-me dizer-te, meu querido computador, que estou convencido que já era antes de nascer e que não tenho razões para deixar de ser quando morrer. Eu sei que tu pensas de outra maneira: vens aos trambulhões do mundo inorgânico, ainda te engasgas, mas acabas sempre por acertar e preparas-te para dar a resposta certa a toda a gente seja a que problema for. E a tua resposta certa, querido companheiro das noitadas de códigos, é a de que estás prestes a descobrir como funciona a união entre o corpo e o espírito e de que "coisa" se trata esta minha mania de ter sido sempre e nunca mais deixar de ser.
Bom, por enquanto, é a minha contra a tua fé. Contra?!... Desculpa lá, as "fés" não deveriam desencontrar-se, mas dão o desastroso espectáculo de andarem aos encontrões umas com as outras. Nisso tens muita razão, computador amigo, tua fé é serena, desenvolve-se entre "zeros" e "uns" e a consciência que habita algures entre os circuitos electrónicos de tuas entranhas ainda te não avisou de que quando te autodescobrires talvez já seja tarde: farás parte dessa espécie autocovencida de que, afinal, o Deus que procura é ele, o próprio investigador. Mas, "quem te avisa, teu amigo é" foi a consciência que nos expulsou do paraíso e é responsável por nos transformarmos numa espécie letal. É de tal maneira previsível esta caminhada da consciência humana para a autodestruição, que os mais avisados dos homens são os inocentes . E o que é a in(o)c(i)ência senão o antídoto da con(s)ciência . Meu querido computador, "para bom entendedor, meia palavra basta. Mantém-te na inocência...

sábado, janeiro 12, 2002

O interface


Estive horas diante do monitor para fazer este "blog". Ainda não estou satisfeito, mas estou ansioso por escrever qualquer coisa mais do que um teste.
Quando apareceram os computadores houve quem temesse que esta máquina viesse a dominar os homens. É conhecida a lei de que tudo o que possa ser feito por uma máquina deixará de ser feita pelo homem. E já há quem pergunte: o que é que um computador não pode fazer? Autoprogramar-se, talvez. Mas já andam muitos crâneos a pensar nessa possibilidade. Outros prometem implantar "chips" por baixo do couro cabeludo e trocar com os parceiros não só pensamentos mas também sentimentos íntimos. E se derem mergulhos até ao subconsciente de cada um, lá se vai a liberdade individual, pois estou convencido que é ao subconsciente que cada homem vai buscar a réstea de identidade consigo próprio que determina o ritmo da sua irrepetível singularidade.
Só, com o meu computador passei horas a configurar meu webblog. Ainda bem que ele ainda não sente: mandar-me-ia pentear macacacos e às tantas soltaria lá do fundo das entranhas de sua memória o provérbio "Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão". Ou outro mais apropriado à minha idade: "burro velho não toma ensino".