sexta-feira, março 25, 2011

Cada caso é um caso

Num café em Coimbra, uma senhora idosa, certamente a proprietária, lamenta-se: - desculpe, mas a máquina não aquece e nem sei porquê ainda ontem estava boa. E mexia nos botões ao dispor para a máquina responder como na véspera. Conseguiu: - já está, afinal é bem verdade que as máquinas têm sempre razão. Esperei e bebi o café reconfortante.

A peripécia deu para meter conversa: - afinal a máquina tem sempre razão; é a razão que nem sempre a tem… Ora agora é que o senhor disse uma grande verdade. É isso mesmo. E repetiu prolongadamente a sentença, nem para eu ouvir, nem para se ouvir, mas ecoando-a ao ritmo de acenos visíveis e concordantes com o débito de reminiscências ocultas da memória, - é isso mesmo a razão nem sempre tem razão… Estaria a senhora a reviver em silêncio sem precisar de Pascal as razões do seu próprio coração que a razão desconhece?

Saio do café. Medito: por que é que a razão se dá tão mal com a diferença a ponto de inventar as máquinas, fascínio das técnicas,"hossanas" da ciência, para endeusar um artefacto mecânico que só por artifício consegue que a razão tenha sempre razão devido à inércia do material… Pobre razão que, quando exercida pelo homem e face à inexorável resistência do mundo e da vida, rende-se, calada, à confissão de subordinação mais pungente do ser humano à realidade: “cada caso é um caso”.


terça-feira, outubro 12, 2010

Meu aniversário

É uma e catorze de hoje. Há setenta e cinco anos, meia noite menos um quarto, nasci. Recebi um livro de prenda: "Le goût de vivre et cent autres propos" de André Comte-Sponville.

Uma dedicatória: uma oval feita com um movimento único de uma esferográfica; o interior da oval salpicada de pontinhos desordenados. "João Lamas" no meio da oval ao comprido. Legendas para identificar o desenho tosco: Oval, uma travessa; pontinhos, arroz-doce; "João Lamas", letras em canela. No resto do espaço em branco isto:

Esta folha em branco é uma travessa de arroz-doce feita com o carinho e o amor da tua mãe, a minha doce avó Piedade...

O teu nome está escrito com canela que hoje é oiro vivo para te abrir o palato no gosto de viver... 11 Outubro 2010.

E vim aqui registar, olhos embaciados, esta grata emoção: que bom ter sido filho para agora me comover por ser pai.

domingo, maio 02, 2010

Dia da Mãe

- Piedade, não há fruta.
- Há sim, nesse cesto em cima da mesa - dizia a mãe.
- Mas a fruta está toda sã e tu só deixas primeiro comer a podre - gracejava o pai.

Querida Mãe, hoje, teu dia, quero dizer-te que tenho fome de fruta podre. Um beijo, querida Mãe.

sexta-feira, março 19, 2010

Dia do Pai.

Para ti, Pai, hoje, 19 de Março de 2010, este bilhete. Ando a tentar desenhar no computador, no Excel (não sabes o que é mas eu quando chegar aí explico-te) uma fita do tempo. Na horizontal, coloco os anos e já lá vão setenta e cinco e na vertical de cada ano, semeio uns lembretes, marcos do acontecer de minha vida. No ano de 1935, registei que em Janeiro, 8 fizeste 34 anos; a mãe fez 31, dez dias depois. Haviam casado em 1921. Tens dois filhos vivos: a Lurdes, com nove anos, o Zé com cinco. O primeiro filho, João, certamente gerado após o casamento, faleceu com dois para três anos, ainda vosso filho único. Luto difícil. Contava a Lurdes (olá, Lurdes, é bonito o nosso irmão?) que fora gerada a chorar em mil novecentos e vinte e cinco, o Zé, em mil novecentos e vinte e nove, o consolo descuido para amenizar a depressão de 1929 ou um rebento da esperança do saneamento financeiro do estado novo ainda virgem. Mas agora, em mil novecentos e trinta e cinco, combinaste com a mãe articular as datas dos vossos aniversários próximos e concordaram, na cama, entrelaçar os corpos e sussurrar por entre espasmos de esperança o nome de João, o primeiro filho. E nasci eu em 11 de Outubro de 1935, o primeiro e o último João vosso. Obrigado, Pai. Dá um beijo à Mãe.

quinta-feira, março 18, 2010

A Mulher de César.

Fosse o homem coerente com o que lhe prescreve a razão, ao tentar fazer a história do mundo e da vida ab início, diria que no princípio era tudo menos si mesmo. Mas a coerência com a razão foi ao galheiro e dessa infidelidade hoje bem quista nasceram as razões, filhas ao que parece da mesma mãe - a razão - mas de tantos pais quantos cada cabeça sua sentença. Resultado: uma variedade de "declarações de interesses particulares" a coberto de um discurso pretensamente unívoco, mas semeado de transposições de sentidos que litigantes, causídicos e juízes acordam num acórdão. A mulher de César é e parece sempre séria. Basta que mande para o Senado a seguinte declaração: - "Eu, mulher de César, declaro por minha honra, que durmo com César e só com César; mais declaro que tenho estado na cama com outros homens, mas sempre acordada." E diante de tanta seriedade, rende-se a prudência do juízo fazendo... jurisprudência. E assim sempre anda César tranquilo.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Erro, verdade e mentira


Revejo uns papéis com notas soltas e leio esta frase desgarrada "Hoje é dia de S. Tomás de Aquino!" - E lembrei-me dos anos de 1952/54, 6º e 7º , dia 7 de Março (1953 ou 54?), aula de filosofia, Liceu Nacional D. João III, Coimbra. O professor Gillot, palmada na secretária, interrompeu a lição dum dos estagiários, tão espantados eles como nós, cobaias pedagógicas, com uma solene, arrastada e bem articulada proclamação: - Hoje é dia de S. Tomás de Aquino!. Expectativa espontânea dos alunos: - dia de festa, não há chamadas! O professor: - chamadas, sempre; que melhor honra para S. Tomás? É no falar que a gente se entende. E palavra puxa palavra, o Dr. Gillot ia-nos ensinando que S. Tomás não era filósofo por ser santo, mas sendo santo até os seus actos mais quotidianos de frade carregavam sentenças de grande profundidade filosófica. E contou este: os irmãos de convento testaram a atracção de Aquino pela ocorrência de novidades convidando-o a juntar-se a eles que, debruçados à janela, esticados de pescoço para o céu, estavam a ver uma vaca voar. O filósofo acorreu. Olhou os céus, mas só ouviu as gargalhadas galhofas dos colegas. O santo perdoou, mas o filósofo advertiu que era muito mais credível uma vaca voar, do que um frade mentir.
Não é inocente esta lembrança, cinquenta e seis anos depois: o filósofo avisado sabe que uma vaca não voa; tratar-se-ia de um eventual erro de apreciação de confrades, cuja correcção passaria pela adequação do intelecto à coisa - e por isso Aquino teria de ir ver a "coisa" voar - , mas era absolutamente improvável que um frade, de quem se espera que a palavra seja "sim, sim; não, não" pudesse mentir. O erro é uma falha do intelecto facilmente ao alcance de uma revisão sistemática do pensamento; mas a mentira, caros compatriotas, é uma falha de carácter que só se redime com a confissão expressa da falta.
Para bom entendedor, hoje, nem meia, nem uma, nem academias de palavras bastam. Mas não é de mais esperar uma pitada de carácter, uma simples e derradeira gota de chá de Sócrates, a cicuta.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Não abafo!

Todo o dinheiro gasto em bens supérfluos é um ganho indevido enquanto houver quem não tenha dinheiro para adquirir bens necessários.
Com esta frase pus a mão na consciência e retirei-a queimada... Ainda bem que se tratava da mão esquerda: - continuo a escrever com a direita os mesmos desabafos inconsequentes. Mas são desabafos. Isto é, não os abafo.

quinta-feira, outubro 26, 2006

SEXO E VIDA – SEMPRE.

1. "Sexo", entre aspas para não haver dúvidas, é um termo aplicável a vários conceitos. Li de alguém: "sexo, mais do que para pensar, é para... fazer". Creio que o entendi. Por isso, não o imagino nas Caldas da Rainha a modelar em barro "um das caldas". Isto é, eu sei que a expressão "fazer sexo" não significa manipular matéria para obter órgãos genitais, a partir de barro ou do tecido celular de que são feitos a "pilinha" do menino e o "bibi" da menina...

2. Mas, então o que fará de sexo, o dito cujos quando diz que melhor do que o pensar, é fazê-lo? Não lhe vou fazer a desfeita de o imaginar com um "objecto" na mão, mesmo que seja de "tecido celular" envolvido nas mais imaginativas peripécias psico-motoras do Canal Playboy...

3. Na expressão "sexo, mais do que para pensar, é para... fazer", o termo "sexo" denota outro conceito e dou de barato que quem o faz, quando o faz, exerce uma função múltipla que num só acto ou em actos sucessivos, se excita e/ou excita, dá e/ou recebe prazer, copula e/ou não copula, reproduz e/ou não reproduz um outro ser que prolonga a espécie, no caso vertente a... humana.

4. Cada qual, na função sexual, se excita e excita como quer e pode, dá e recebe prazer a quem quer e lho possa dar, copula com o que tem à mão, coisa, animal ou homem (macho e/ou fêmea), e... (também não pode ser tudo como a gente quer...) só reproduz outro ser com... o sexo oposto.

5. "Sexo" significa também a divisão de uma espécie em dois géneros, o sexo masculino e o sexo feminino. O sexo aqui amarra-nos à espécie, condenados a ser homem ou a ser mulher, e o encontro de orgasmos, frenesim de prazer inesquecível, é também um acto por onde passa o prolongamento da espécie, nem sempre uma perspectiva feliz de humanidade... Pode ser uma chatice, uma seca, a perspectiva de ver associado ao prazer um monte de preocupações

6. Prazer e preocupação não é par que entusiasme os humanos. Os sucessivos êxitos científicos e tecnológicos vão no sentido de separar sexo e procriação e sexo seguro ao fim e ao cabo significa sexo despreocupado com as inerentes consequências indesejadas. Não deixa de ser uma conquista civilizacional, ligada ao luxo tecnológico ainda apenas ao alcance de escassas minorias.

7. Mas mesmo que se queira fazer sexo despreocupado para, simultaneamente, ter prazer, não apanhar nem transmitir doenças nem procriar, a natureza prega partidas às estritas opções racionais. Lindas ou feias histórias a dois, viram histórias a três ou mais. E no caso da procriação, confirmadas as primeiras suspeitas, por muito que se recorra à ciência ou ao direito, ninguém ignora que o tal terceiro desta história se anuncia à porta da humanidade porque dela já faz parte.

8. Será que o sexo não é para ser pensado? É; e, desde logo, na mínima unidade significativa do vocábulo, o se de sexo, a mesma de secção, de secante, de separar, e outras, que dão ao sexo a significação profunda de dividir, de separar, de acentuar a diferença e não a igualdade, a de nos amarrar à situação de ter de ser o que se é e de não poder ser o outro que eventualmente desejaríamos ser.

9. Estamos amarrados ao nosso sexo. É, aliás, o constrangimento desta situação que ajuda os humanos a não terem a veleidade de se tomarem por deuses. Deus que deve ser livre (estou a falar do conceito racional de Deus e não apenas do objecto da fé de um crente...) não tem sexo. Compreende-se porquê. O sexo não une, divide; o sexo não liberta, amarra; o sexo não igualiza, diferencia.

10. O sexo é a residência do desejo - e é a partir deste ponto residual do desejo de dois sexos diferenciados que a humanidade floresce. Pelo desejo a humanidade se forma e expande.

11. Lembra o sexo à razão que o desejo a precede. Apela o sexo à razão que cuide mais da diferença e não prossiga a igualdade abstracta de apetites inconsequentes. O desejo pela razão se transforma em ética. E a ética abre-se aos valores. E os valores vivem da esperança de quem espreita a vida, da coragem de quem enfrenta a morte que a amedronta, da devolução generosa do desejo à própria vida que o comporta. Sexo e vida – sempre. Sexo e morte – nunca.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Janeiro, mês de balanço…



Quando percebi a regra prática da contabilidade quem deve, tem; quem tem, deve, descobri na sequência lógica do raciocínio que a riqueza consiste em dever a um credor que não exija o pagamento da dívida.

É por isso que quem não tem credores nem à porta nem ao ferrolho e possui bens próprios, se apressa a justificar o pouco ou muito de seu, dizendo que o que tem, a si o deve.

Sou ainda do tempo em que no Pai-Nosso a actual prédica perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido se dizia perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores. A mudança apartou águas profanas de águas sagradas: créditos e débitos equilibram-se no balanço da situação líquida das empresas de César (a César o que é de César) enquanto ofensas e ofendidos se purificam nas águas celestiais do perdão que lava a culpa (a Deus o que é de Deus).

Pelos vistos César e Deus respeitam a separação entre este mundo e o outro. Os “prófes” de economia, mesmo os das universidades pias, lembram-nos cheios de humor de que não há almoços grátis. Isto é, neste mundo ninguém perdoa dívidas a ninguém; ou melhor, só se perdoa o que a si próprio se deve…

Os que a si devem o que a si não cobram, engordam. Mas César obriga a que o balanço seja equilibrado, inscrevendo os lucros no passivo: quem tem não só amealha o que a si próprio deve como engorda também com o que outros têm, mas que, pelos vistos, não a si mas a outros devem…

Dito isto, confessemo-nos pecadores: - perdoai nossas ofensas assim como não cobramos as nossas próprias dívidas. Terra e céu unidos no balanço… Ámen.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Homem Macaco e Porco

Leio na revista Visão, nº 653, desta semana, in Útero com paredes de vidro (pag. 25): com seis semanas […] não se distingue se o embrião é de homem, macaco ou de porco […]. Quando o embrião no útero da mulher se torna feto parece que vira homem. Mas a notícia não diz se, em vez de homem, poderia virar macaco ou porco.

Sabe-se porém (e não faltam notícias e comentários nas muitas páginas da revista para apoiar a evidência) que a mulher despeja com as águas uterinas uma esperança de humanidade que a realidade adulta acaba quase sempre por trair: o homem afinal também é macaco e porco.

Não fora a criança, nunca se saberia o que de homem habitava o embrião humano. Não fora o adulto, nunca se saberia quanto de macaco e porco se esconde, afinal, no dito embrião.

O que vale é que a Revista associa a eterna criança à estética: na sua crónica (pág. 13) António Lobo Antunes evoca o fascínio diante do seu (também meu) anel [de lata] com o emblema do Benfica e os novos designers [pág. 107] recorrem, como as crianças, à potencialidade lúdica para aproveitarem os materiais aparentemente sem valor.

As crianças conseguem brincar aos imperadores com ceptros de cana rachada. Depois de adultos, são poucos os que guardam a alma de criança.

segunda-feira, julho 18, 2005

Dois anos depois


Tudo se deve passar por aí como eu te havia dito antes de partires. Segues nossos passos mas não te perturbas. Aliás, nem sequer há razões para grandes ansiedades. Vive-se por aqui a esperança, Isabel. E a esperança é uma virtude que nada tem a ver com a racionalidade fria da coragem. É emoção pura. Como me acaba de dizer o Miguel numa mensagem, há dois anos partiste e ficámos nós com as dores de um parto onde nos vimos obrigados a renascer. Eu, teus filhos e as netas continuamos bebés sadios.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

O mesmo do mesmo...



Vivemos no meio de uma gigantesca galáxia de diagnósticos em expansão. São aos milhares os teorizadores da sociedade técnica, os teorizadores do fenómeno urbano, os teorizadores da abundância, os teorizadores dos tempos livres, os teorizadores do consumo, os teorizadores das teorias, multímodas visões redutoras de fenómenos ao mesmo tempo contraditórios e complementares, onde o político, o social, o económico e o cultural se chocam, penetram, repelem e unem, tudo à vista de todos - também há os teorizadores da mundialização - turbilhão de ideias, imagens, palavras e ruídos, reflectidos por milhões de cérebros que mais parecem outras tantas células nervosas de um gigantesco cérebro colectivo à deriva e a inundar de perspectivas o mercado dos cenários.
Se nem todos têm razão, não há nenhum que não tenha lá as suas razões!... E sabe como se dá razão às razões? É com uma teoria. Continue... Não seja menos que os demais...

sábado, janeiro 08, 2005

Parabéns, pai!

- Ó João, por que é compraste um garrafão de aguardente? – dizia a Piedade para o marido, apreensiva e desconfiada daquele inusitado apetite etílico.
- É para a feira, mulher. Um copito dela por cada dois quilos, vais ver que esgotamos num instante a carroça das castanhas...
- E por quanto tens de vender o quilo de castanhas para recuperar o preço da aguardente, homem?
- Ó mulher, o que interessa é a festa! Já temos a ceia na volta, levamos farnel para o almoço, as castanhas já estão pagas, vais ver que depois da festa rija, ainda trazemos dinheiro para casa.

Pai, festejei hoje teu aniversário diante de um prato de bacalhau com couves, com uns copos de vinho de marca do Alentejo e com a emoção nublada de lágrimas, minha homenagem à partilha festiva da gratuidade que me transmitiste com histórias simples de vida como a do diálogo verdadeiro entre ti e a mãe, decorriam os difíceis anos vinte do século passado. Pai, fiz a festa sozinho. Hoje, nas feiras, ninguém entende, nem o meu nem o teu ócio. Hoje, pai, todas as festas são negócio.

domingo, agosto 22, 2004

… quem tenha ouvidos, ouça



De vez em quando lembram-nos que a culpa morre solteira. Agora é a propósito das cassetes alegadamente roubadas…
É óbvio que a culpa está condenada a morrer solteira. É caso para perguntar: quem é que quer casar com uma gaja dessas? Só por amor. Direi mesmo, só por muito Amor, o tal só ao alcance de Deus.
É, aliás, por isso, que a teologia casa Jesus com as culpas todas da Humanidade, a ponto de um santo não sei quem ter exclamado mais ou menos isto: Bendito pecado que nos deu um tal Redentor.
Como se trata de cassetes, obviamente para serem ouvidas, fui buscar para epígrafe deste meu post, outra óbvia sentença evangélica: quem tenha ouvidos, ouça.
Ouvirá, pelo menos, muitos bodes expiatórios a berrar…

domingo, maio 02, 2004

Dia da Mãe



Para ir até ao Sousa Bastos, o cinema, subia-se ou descia-se, conforme o ponto de partida, calçadas, escadas, muitas pedras e pedrinhas, ruas envergonhadas do sol, vielas por onde ainda circulava a tacanha sombra medieval da vida universitária coimbrã. Éramos quatro, amigos deambulatórios de dias e horas displicentes, ocupantes desordenados e distraídos de degraus e muros baixos, à espera que abrissem a bilheteiras para a última sessão da tarde. O negro da capa e batina, nossas fatiotas de um ano inteiro, absorvia ainda mais a escassa luminosidade vizinha do crepúsculo.

Dou com uma mulher, de costas, que descola a custo as passadas das pedras da calçada aonde a prega o peso de um volumoso molho de cavacas, à cabeça.
Como é possível? Passou à minha beira e não me disse nada? A cabeça colada ao tronco sob o peso da carga o vulto acreditava poder dobrar a esquina próxima sem ser reconhecido: não queria revelar aos colegas a débil estrutura sócio económica da família, susceptível, no seu entender, de envergonhar o convívio aburguesado do filho com os restantes pares, cuja maioria, naquela altura, ascendia ao ensino superior oriunda de camadas sociais abastadas.

O filho chamou-a – Ó Mãe! – um misto de apelo, compreensão e ternura. Teve de voltar o corpo todo para responder ao apelo.

Foi então que um sorriso se desprendeu do rosto de minha Mãe, iluminou as vielas estreitas à volta, aqueceu a alma dos meus colegas, e entrou no meu coração para sempre.

É esse sorriso que hoje devolvo ao Céu, querida Mãe, quarenta e seis anos depois!

quarta-feira, março 31, 2004

Tal pai, tal filho.



Jesus nasceu para a história já bem adulto. Teria uns trinta e tal anos. Como se teria processado e com que idade teria acontecido o sobressalto íntimo da passagem do sentimento de filiação natural ao de filiação divina? Afirma a Bíblia que Deus é. Assim só, sem nome predicativo do sujeito. O judeu não ousava dizer do Altíssimo o que quer que fosse. Mas Jesus, judeu entre judeus, aparece a chamar-lhe Pai com uma veemência de tal modo inusitada e acompanhada por uma transformação consequente tão radical do próprio comportamento quotidiano que acabou por encantar uns e escandalizar outros. Entregou a vida na encruzilhada desta contradição. Encanto e escândalo perduram ainda hoje. Tantas vezes na mesma pessoa.

Mas todos aqueles a quem ele encantou não mais esqueceram “as palavras de vida eterna” que proferira. Viram-no morrer, mas não acreditaram na morte. Está vivo. O ungido – cristo – ressuscitou. Nós vimo-lo. É ele o Messias.
A afirmação da ressurreição de Jesus fascina-me. Mas tenho pena de não ser dos primeiros a verificar o facto. E, sinal de contradição, gostaria de que essa verificação tivesse acontecido já na posse da convicção íntima que me anima hoje, isto é, a de que a história do Universo e da Vida é um longo processo de espiritualização que passa evidentemente por uma ressurreição que vença a morte, a culpa e a lei.

A minha noção de Deus é fortemente influenciada pela cultura judaico-cristã, através da doutrina católica. Com o judaísmo afirmo que Deus é único, existe e é (sublinho a terceira pessoa do indicativo do verbo ser) aquele que É, criador do céu e da terra, englobando nesta expressão, a ideia de que Deus é um cómodo postulado para que em vez de nada exista algo. Uma espécie de primeiro autor de uma primeira narrativa intitulada Universo e Vida, a sua obra única, edição única e tiragem única inesgotável, irremediavelmente irresistível aos cinco sentidos e... ao sexto.

Trago também comigo ideia de que há um povo de Deus, o povo que o reconhece como sendo aquele que é, e, tendo em conta o relato mítico e poético da Bíblia, credito a minha simpatia ao povo do Sinai por ter trazido até mim o exemplo da fidelidade de Abraão à voz que o convidou a embrenhar-se na aventura de procurar fazer florir o deserto.

E com Jesus habituei-me a chamar a Deus pai. É realmente impressionante a intimidade com que Jesus chama pai ao Deus de Abraão, de Moisés, de Elias, Isaías e demais profetas, ao Deus de David e Salomão, ao de João, o baptista, esses e muitos mais, guias, mentores, chefes, profetas, mensageiros de gerações, cujo convívio privilegiado com Aquele que É permite hoje honrá-lO sob a invocação de um único Pai-nosso. Chamava-lhe pai, porventura papá, certamente, paizinho. Quem assim trata um Deus tem direito à primogenitura divina. Tal Pai tal Filho: nesta perspectiva é até fácil de entender que o Filho seja consubstancial ao Pai, gerado e não criado. E como não há dois sem três, nem enigma sem mistério, a trama narrativa do Universo e da Vida é igualmente fácil de entender através da minha própria esperança de participar das trocas amorosas entre o Pai, o Filho e o Espírito, a necessária trindade, pressuposto do rodopio inicial da engenharia genética do Amor.

Adivinha-se a influência judaico cristã, via doutrina católica? Arrasto desde a meninice o meu catolicismo com perplexidade crescente. Enquanto os apóstolos e os íntimos acreditaram na redenção ao vivo não se preocuparam com a teologia para nada. Bastou-lhes o testemunho da fidelidade a essa loucura para fazer crescer a esperança. Contudo, os fiéis apesar de fazerem finca-fé iam duvidando. Os apóstolos foram envelhecendo, seus continuadores também e a comunidade não resistiu à tentação de caucionar com teologias, celebrações e ritos a adoração ao Pai que o Filho aconselhara a fazer não aqui nem ali, nem no monte nem no Templo, mas em Espírito e em Verdade.

Até os Evangelhos e as Epístolas respondem a essa tentação, quanto mais outros escritos subsequentes do cristianismo nascente: servem-nos o testemunho de Jesus embrulhado em sentenças readaptadas ao caldo dialéctico das experiências, êxtases, mitos e razões das margens do Mediterrâneo de onde então emergiam as ânsias cansadas de esperar na história a libertação prometida para amanhãs adiadas.

E foi assim que o Espírito e a Verdade se fizeram doutrina, cada cabeça cada sentença e que não se resistiu à tentação e ao escândalo de também separar os corações. Três séculos depois da palavra liberta e libertadora de Cristo, entenderam “canonizá-la” - o credo de Niceia - uma teórica, douta e desenraizada lenga-lenga que, à medida que se desenrola, mais nos embrenha na dúvida.
E a doutrina fez-se dogmática. Em nome de Deus e de Jesus, seu cristo, abriram-se prisões, cadafalsos e fogueiras.

Permitam-me, caros amigos, este desabafo de um crente envergonhado. Mas não posso deixar de reconhecer que a sedução de um Jesus Redentor me chegou através da história trágica dos crentes e das instituições que os enquadraram e ainda enquadram, feita afinal de pecados e virtudes em marcha, a caminho da uma utopia mobilizadora que eu vejo, com e como Jesus, na adoração do Pai (que também é Mãe) em Espírito e em Verdade.
E quem é o pai? E quem é o filho? E quem é o espírito? O Amor, a gratuidade pura de um tal pai tal filho.

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

O escafandro da razão



Ainda sou do tempo em que os pais festejavam a entrada dos filhos na idade da razão. Quem fazia sete anos era um homenzinho, ia (os bem poucos que iam…) para a escola e para a doutrina, tinha mais trabalho e menos brincadeira, enfim entrava no mundo dos saberes e dos credos através do exercício ufano dos créditos só devidos à pessoa - o homem, animal racional, apenas súbdito do divino todo-poderoso senhor da vida, também ele, o Divino, uma hipótese bem racional para explicar a miúdos e graúdos que do nada nada vem.

Mais coisa, menos coisa, o panorama não se modificou muito. Razão e Fé instalaram-se no areópago da cultura, andaram (e ainda andam?) às turras uma com a outra, esgrimindo aliás os mesmos respeitáveis argumentos racionais, porque ambas procuram o invisível e o que há-de vir e ambas perdem igualmente o entusiasmo quando vêem o que já veio…

Nada a fazer? Cá para mim, a razão é o melhor escafandro para o homem inventariar o real, isolando-se objectivamente dele. O termo inventariar é próximo de inventar. O mundo da ciência é o mundo da ficção. Não é mundo real. Quem se atrever a descer às profundezas de si mesmo e ali, sem medo que o escafandro rebente, se encontrar com o radicalmente outro que o faz ser, voltará à superfície para se encontrar com o seus próximos, os outros diferentes entre si e de si mesmos, irredutíveis aos esquemas da racionalidade que a ficção da igualdade propõe.

Ir ao fundo com o escafandro da razão e regressar ao cimo sem ele, eis a tarefa da fé. A fé, ao contrário do que a razão propõe, obriga ao encontro da realidade próxima, a que transcende o pensamento e… tão simplesmente é a proximidade do mundo e da vida irredutível ao que dele e dela se possa pensar.

Cristo, esse campeão da fé, operava maravilhas quando aproximava o pão da fome e amaldiçoava as figueiras que cientificamente davam figos em tempo de figos, mas não os forneciam quando a boca os reclamava. A figueira deveria estar próxima da fome de figos, como tu e eu devemos estar próximos do nosso próximo.

“Quem é o meu próximo?” A parábola de Jesus é uma marabília da fé contra as razões dos que argumentam não poderem em nome dos deveres da razão parar diante da quotidiana necessidade que, também aqui e agora, o indigente manifesta à beira do caminho.

A ciência abate, perfura ou aplaina montanhas. A fé, move-as. E não te esqueças de que quem mais próximo está de ti mesmo és tu. Ousa respirar sem o escafandro da razão.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Entes e entendidos



O que não faltam são os entendidos. Nisto, naquilo e em tudo. Quanto a isto estamos entendidos. Falta entendermo-nos sobre os entes. A confusão entre entes e entendidos vem de longe (Olá, Parménides!), incomoda o intelecto, mas, paradoxalmente resiste aos esforços (Olá, Sócrates, Platão e Aristóteles!) que a história da razão documenta no sentido de explicitar a mecânica do entendimento (Olá “ismos” greco-latinos e anglo-saxónicos continentais e transatlânticos, antigos, modernos e pós modernos e contemporâneos!), essa mecânica da maiúscula Razão que singulariza o bicho homem em relação aos demais seres do universo e da vida.

O homem estonteado pelos êxitos da racionalidade inventou um método contra natura que reduz os entes a ideados e… nada a fazer, auto proclamou-se “a medida de todas as coisas". De filho do mundo e da vida, tornou-se pai do mundo e da vida – um Deus feito à imagem e semelhança do homem…

Enquanto os homens não conseguirem perceber a irredutibilidade do ente ao entendido, mais e mais se enredam nos vícios filosóficos que impedem a razão de dar conta da transcendência dos seres (e evidentemente da do Ser...), cuja identidade se singulariza na existência, independente da razão que a pensa, dos termos que a expressa, das proposições que a traduz ou da vontade que a manipula.

E não digam que isto não tem importância para o mundo e para a vida: vejam os resultados dos comportamentos humanos quando a razão não respeita nem a singularidade do mundo, nem a singularidade da vida, nem a singularidade do espírito.

O primeiro produto da razão é o rácio. Do rácio ao racismo é um pulo de nada.

quinta-feira, janeiro 08, 2004

O eterno ausente.


Um amigo evocou o meu nome, ao recordar uma memorável noite de Viseu que juntou meia dúzia de carolas que resolveram trocar emoções atrás de emoções e muitas foram as que de uns e de outros arrancámos e a uns e a outros fomos provocando.
Teria então dito, referindo-me a Deus: Senhor, que medo ou que mania da superioridade, Te faz ser tão ausente?
Apetece-me vir a terreiro não para negar ou confirmar a frase, mas para reforçar meu convívio privilegiado com a transcendência.
Convivo tu cá tu lá com Deus e, como lhe retribuo a amizade que Ele tem para comigo, não tendo medo d'Ele, de vez em quando, provoco-O, e... digo coisas semelhantes a essa que o meu amigo agora veio lembrar.
De facto, às vezes apetece-me apresentar Deus aos amigos e a Sua permanente invisibilidade incomoda-me.
Será que nessa noite em Viseu em que eu tanto quis apresentar o meu amigo Deus, me passei da bola e, com mais copo menos copo, O invectivei dessa forma? E aqui para nós já nem sei se Ele lhes apareceu, isto é, se se fez presente, já que eu nunca O deixo de ver na Sua ausência.
É assim, caríssimos amigos, é a ausência de Deus que invade o universo inteiro a mesma que enche toda a minha humanidade. E se sucede meu coração ver-se envolvido pela negrura, esse buraco negro do coração me aponta o grito de Fausto de luz, mais luz.
Meu amigo Deus não me mete medo, liberta-me da lei, da culpa e da morte. Da lei e da culpa já cá tenho a minha conta libertária. Resta-me a saudade da minha própria morte. A morte é para mim o esperado encontro com a ausência. Se o eterno ausente não responder à chamada, é porque não é Amor. E se Deus não for Amor, então, seja o que seja e onde quer que for, não me faz falta.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Das razões do coração



Convém diante do computador libertar as capacidades imaginativas próprias da infância e da adolescência e desencadear os mecanismos intelectuais que lhes são peculiares para, em face do irritante monstro que se não engana, sonhar acordado, auto conscientemente iludido, com uma máquina que não tenha só razão, mas seja apaixonadamente humana.

Passemos, então, a utilizar os ditos mecanismos intelectuais tão próprios da criatividade infantil e adolescente.

Por transferência analógica, tal como o coração é bomba hidráulica, o braço guindaste e o rim filtro, o computador é cérebro. E que cérebro! Coloca gente na lua, guia sondas por entre estrelas, aponta milionários do totoloto mal cai a última bola, e até corrige automaticamente os erros de ortografia.

Mas se assim é, então a cabeça do homem serve para outra coisa: cabelo de ráfia, chapéu às três pancadas, bola de nariz vermelho, rosto de maçãs escarlate, boca que abraça o rosto em arco-íris, olhos onde desaguam rios de rugas, sorri o sol e as lágrimas esguicham, o palhaço é ainda, com os seus disparates, mais símbolo do homem que o computador.

Por identificação do objecto o engenheiro de sistemas descobriu a mecânica da razão: trata-se de uma ridícula soma de zeros e uns, bem como de uma óbvia rapidez de escolha entre alternativas ao par. Pobre razão que aborta diante de uma alternativa fechada e pára inerte à porta do mistério.

Ao findar do século XX, eis que o computador devolve ao homem a certeza de que o pensamento racional é tão só um compromisso rotineiro com a utilidade. Esperemos que a lição lhe baste e ele possa compreender a itinerância do devir e se prepare, descomplexado, para responder ao apelo que a gratuitidade pura lhe grita desde que no princípio o Verbo proclama o risco de existir.

Continua a ser do homem e nunca será da máquina o poder de evocação fantástica, outro mecanismo intelectual, que preside aos mais belos sonhos da nossa infância. O computador povoa as mais delirantes aventuras do mundo dos humanóides. Óptimo! Deixou o homem de poder justificar a auto flagelação diante dos erros quando dá murros na cabeça e grita ai que burro que eu sou. Deve antes comprar um cacete de espuma (é um hardware... soft) e desancar o cérebro electrónico sem o ferir: burro é ele, o computador, quando zurra beep, beep, porque lhe falta a memória ou se encontra com uma instrução imprevista!...


NB. Cá me vou repetindo fazendo o vai-vem entre o que há muito escrevi ali e agora vou pondo aqui.