sábado, janeiro 08, 2005

Parabéns, pai!

- Ó João, por que é compraste um garrafão de aguardente? – dizia a Piedade para o marido, apreensiva e desconfiada daquele inusitado apetite etílico.
- É para a feira, mulher. Um copito dela por cada dois quilos, vais ver que esgotamos num instante a carroça das castanhas...
- E por quanto tens de vender o quilo de castanhas para recuperar o preço da aguardente, homem?
- Ó mulher, o que interessa é a festa! Já temos a ceia na volta, levamos farnel para o almoço, as castanhas já estão pagas, vais ver que depois da festa rija, ainda trazemos dinheiro para casa.

Pai, festejei hoje teu aniversário diante de um prato de bacalhau com couves, com uns copos de vinho de marca do Alentejo e com a emoção nublada de lágrimas, minha homenagem à partilha festiva da gratuidade que me transmitiste com histórias simples de vida como a do diálogo verdadeiro entre ti e a mãe, decorriam os difíceis anos vinte do século passado. Pai, fiz a festa sozinho. Hoje, nas feiras, ninguém entende, nem o meu nem o teu ócio. Hoje, pai, todas as festas são negócio.

domingo, agosto 22, 2004

… quem tenha ouvidos, ouça



De vez em quando lembram-nos que a culpa morre solteira. Agora é a propósito das cassetes alegadamente roubadas…
É óbvio que a culpa está condenada a morrer solteira. É caso para perguntar: quem é que quer casar com uma gaja dessas? Só por amor. Direi mesmo, só por muito Amor, o tal só ao alcance de Deus.
É, aliás, por isso, que a teologia casa Jesus com as culpas todas da Humanidade, a ponto de um santo não sei quem ter exclamado mais ou menos isto: Bendito pecado que nos deu um tal Redentor.
Como se trata de cassetes, obviamente para serem ouvidas, fui buscar para epígrafe deste meu post, outra óbvia sentença evangélica: quem tenha ouvidos, ouça.
Ouvirá, pelo menos, muitos bodes expiatórios a berrar…

domingo, maio 02, 2004

Dia da Mãe



Para ir até ao Sousa Bastos, o cinema, subia-se ou descia-se, conforme o ponto de partida, calçadas, escadas, muitas pedras e pedrinhas, ruas envergonhadas do sol, vielas por onde ainda circulava a tacanha sombra medieval da vida universitária coimbrã. Éramos quatro, amigos deambulatórios de dias e horas displicentes, ocupantes desordenados e distraídos de degraus e muros baixos, à espera que abrissem a bilheteiras para a última sessão da tarde. O negro da capa e batina, nossas fatiotas de um ano inteiro, absorvia ainda mais a escassa luminosidade vizinha do crepúsculo.

Dou com uma mulher, de costas, que descola a custo as passadas das pedras da calçada aonde a prega o peso de um volumoso molho de cavacas, à cabeça.
Como é possível? Passou à minha beira e não me disse nada? A cabeça colada ao tronco sob o peso da carga o vulto acreditava poder dobrar a esquina próxima sem ser reconhecido: não queria revelar aos colegas a débil estrutura sócio económica da família, susceptível, no seu entender, de envergonhar o convívio aburguesado do filho com os restantes pares, cuja maioria, naquela altura, ascendia ao ensino superior oriunda de camadas sociais abastadas.

O filho chamou-a – Ó Mãe! – um misto de apelo, compreensão e ternura. Teve de voltar o corpo todo para responder ao apelo.

Foi então que um sorriso se desprendeu do rosto de minha Mãe, iluminou as vielas estreitas à volta, aqueceu a alma dos meus colegas, e entrou no meu coração para sempre.

É esse sorriso que hoje devolvo ao Céu, querida Mãe, quarenta e seis anos depois!

quarta-feira, março 31, 2004

Tal pai, tal filho.



Jesus nasceu para a história já bem adulto. Teria uns trinta e tal anos. Como se teria processado e com que idade teria acontecido o sobressalto íntimo da passagem do sentimento de filiação natural ao de filiação divina? Afirma a Bíblia que Deus é. Assim só, sem nome predicativo do sujeito. O judeu não ousava dizer do Altíssimo o que quer que fosse. Mas Jesus, judeu entre judeus, aparece a chamar-lhe Pai com uma veemência de tal modo inusitada e acompanhada por uma transformação consequente tão radical do próprio comportamento quotidiano que acabou por encantar uns e escandalizar outros. Entregou a vida na encruzilhada desta contradição. Encanto e escândalo perduram ainda hoje. Tantas vezes na mesma pessoa.

Mas todos aqueles a quem ele encantou não mais esqueceram “as palavras de vida eterna” que proferira. Viram-no morrer, mas não acreditaram na morte. Está vivo. O ungido – cristo – ressuscitou. Nós vimo-lo. É ele o Messias.
A afirmação da ressurreição de Jesus fascina-me. Mas tenho pena de não ser dos primeiros a verificar o facto. E, sinal de contradição, gostaria de que essa verificação tivesse acontecido já na posse da convicção íntima que me anima hoje, isto é, a de que a história do Universo e da Vida é um longo processo de espiritualização que passa evidentemente por uma ressurreição que vença a morte, a culpa e a lei.

A minha noção de Deus é fortemente influenciada pela cultura judaico-cristã, através da doutrina católica. Com o judaísmo afirmo que Deus é único, existe e é (sublinho a terceira pessoa do indicativo do verbo ser) aquele que É, criador do céu e da terra, englobando nesta expressão, a ideia de que Deus é um cómodo postulado para que em vez de nada exista algo. Uma espécie de primeiro autor de uma primeira narrativa intitulada Universo e Vida, a sua obra única, edição única e tiragem única inesgotável, irremediavelmente irresistível aos cinco sentidos e... ao sexto.

Trago também comigo ideia de que há um povo de Deus, o povo que o reconhece como sendo aquele que é, e, tendo em conta o relato mítico e poético da Bíblia, credito a minha simpatia ao povo do Sinai por ter trazido até mim o exemplo da fidelidade de Abraão à voz que o convidou a embrenhar-se na aventura de procurar fazer florir o deserto.

E com Jesus habituei-me a chamar a Deus pai. É realmente impressionante a intimidade com que Jesus chama pai ao Deus de Abraão, de Moisés, de Elias, Isaías e demais profetas, ao Deus de David e Salomão, ao de João, o baptista, esses e muitos mais, guias, mentores, chefes, profetas, mensageiros de gerações, cujo convívio privilegiado com Aquele que É permite hoje honrá-lO sob a invocação de um único Pai-nosso. Chamava-lhe pai, porventura papá, certamente, paizinho. Quem assim trata um Deus tem direito à primogenitura divina. Tal Pai tal Filho: nesta perspectiva é até fácil de entender que o Filho seja consubstancial ao Pai, gerado e não criado. E como não há dois sem três, nem enigma sem mistério, a trama narrativa do Universo e da Vida é igualmente fácil de entender através da minha própria esperança de participar das trocas amorosas entre o Pai, o Filho e o Espírito, a necessária trindade, pressuposto do rodopio inicial da engenharia genética do Amor.

Adivinha-se a influência judaico cristã, via doutrina católica? Arrasto desde a meninice o meu catolicismo com perplexidade crescente. Enquanto os apóstolos e os íntimos acreditaram na redenção ao vivo não se preocuparam com a teologia para nada. Bastou-lhes o testemunho da fidelidade a essa loucura para fazer crescer a esperança. Contudo, os fiéis apesar de fazerem finca-fé iam duvidando. Os apóstolos foram envelhecendo, seus continuadores também e a comunidade não resistiu à tentação de caucionar com teologias, celebrações e ritos a adoração ao Pai que o Filho aconselhara a fazer não aqui nem ali, nem no monte nem no Templo, mas em Espírito e em Verdade.

Até os Evangelhos e as Epístolas respondem a essa tentação, quanto mais outros escritos subsequentes do cristianismo nascente: servem-nos o testemunho de Jesus embrulhado em sentenças readaptadas ao caldo dialéctico das experiências, êxtases, mitos e razões das margens do Mediterrâneo de onde então emergiam as ânsias cansadas de esperar na história a libertação prometida para amanhãs adiadas.

E foi assim que o Espírito e a Verdade se fizeram doutrina, cada cabeça cada sentença e que não se resistiu à tentação e ao escândalo de também separar os corações. Três séculos depois da palavra liberta e libertadora de Cristo, entenderam “canonizá-la” - o credo de Niceia - uma teórica, douta e desenraizada lenga-lenga que, à medida que se desenrola, mais nos embrenha na dúvida.
E a doutrina fez-se dogmática. Em nome de Deus e de Jesus, seu cristo, abriram-se prisões, cadafalsos e fogueiras.

Permitam-me, caros amigos, este desabafo de um crente envergonhado. Mas não posso deixar de reconhecer que a sedução de um Jesus Redentor me chegou através da história trágica dos crentes e das instituições que os enquadraram e ainda enquadram, feita afinal de pecados e virtudes em marcha, a caminho da uma utopia mobilizadora que eu vejo, com e como Jesus, na adoração do Pai (que também é Mãe) em Espírito e em Verdade.
E quem é o pai? E quem é o filho? E quem é o espírito? O Amor, a gratuidade pura de um tal pai tal filho.

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

O escafandro da razão



Ainda sou do tempo em que os pais festejavam a entrada dos filhos na idade da razão. Quem fazia sete anos era um homenzinho, ia (os bem poucos que iam…) para a escola e para a doutrina, tinha mais trabalho e menos brincadeira, enfim entrava no mundo dos saberes e dos credos através do exercício ufano dos créditos só devidos à pessoa - o homem, animal racional, apenas súbdito do divino todo-poderoso senhor da vida, também ele, o Divino, uma hipótese bem racional para explicar a miúdos e graúdos que do nada nada vem.

Mais coisa, menos coisa, o panorama não se modificou muito. Razão e Fé instalaram-se no areópago da cultura, andaram (e ainda andam?) às turras uma com a outra, esgrimindo aliás os mesmos respeitáveis argumentos racionais, porque ambas procuram o invisível e o que há-de vir e ambas perdem igualmente o entusiasmo quando vêem o que já veio…

Nada a fazer? Cá para mim, a razão é o melhor escafandro para o homem inventariar o real, isolando-se objectivamente dele. O termo inventariar é próximo de inventar. O mundo da ciência é o mundo da ficção. Não é mundo real. Quem se atrever a descer às profundezas de si mesmo e ali, sem medo que o escafandro rebente, se encontrar com o radicalmente outro que o faz ser, voltará à superfície para se encontrar com o seus próximos, os outros diferentes entre si e de si mesmos, irredutíveis aos esquemas da racionalidade que a ficção da igualdade propõe.

Ir ao fundo com o escafandro da razão e regressar ao cimo sem ele, eis a tarefa da fé. A fé, ao contrário do que a razão propõe, obriga ao encontro da realidade próxima, a que transcende o pensamento e… tão simplesmente é a proximidade do mundo e da vida irredutível ao que dele e dela se possa pensar.

Cristo, esse campeão da fé, operava maravilhas quando aproximava o pão da fome e amaldiçoava as figueiras que cientificamente davam figos em tempo de figos, mas não os forneciam quando a boca os reclamava. A figueira deveria estar próxima da fome de figos, como tu e eu devemos estar próximos do nosso próximo.

“Quem é o meu próximo?” A parábola de Jesus é uma marabília da fé contra as razões dos que argumentam não poderem em nome dos deveres da razão parar diante da quotidiana necessidade que, também aqui e agora, o indigente manifesta à beira do caminho.

A ciência abate, perfura ou aplaina montanhas. A fé, move-as. E não te esqueças de que quem mais próximo está de ti mesmo és tu. Ousa respirar sem o escafandro da razão.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Entes e entendidos



O que não faltam são os entendidos. Nisto, naquilo e em tudo. Quanto a isto estamos entendidos. Falta entendermo-nos sobre os entes. A confusão entre entes e entendidos vem de longe (Olá, Parménides!), incomoda o intelecto, mas, paradoxalmente resiste aos esforços (Olá, Sócrates, Platão e Aristóteles!) que a história da razão documenta no sentido de explicitar a mecânica do entendimento (Olá “ismos” greco-latinos e anglo-saxónicos continentais e transatlânticos, antigos, modernos e pós modernos e contemporâneos!), essa mecânica da maiúscula Razão que singulariza o bicho homem em relação aos demais seres do universo e da vida.

O homem estonteado pelos êxitos da racionalidade inventou um método contra natura que reduz os entes a ideados e… nada a fazer, auto proclamou-se “a medida de todas as coisas". De filho do mundo e da vida, tornou-se pai do mundo e da vida – um Deus feito à imagem e semelhança do homem…

Enquanto os homens não conseguirem perceber a irredutibilidade do ente ao entendido, mais e mais se enredam nos vícios filosóficos que impedem a razão de dar conta da transcendência dos seres (e evidentemente da do Ser...), cuja identidade se singulariza na existência, independente da razão que a pensa, dos termos que a expressa, das proposições que a traduz ou da vontade que a manipula.

E não digam que isto não tem importância para o mundo e para a vida: vejam os resultados dos comportamentos humanos quando a razão não respeita nem a singularidade do mundo, nem a singularidade da vida, nem a singularidade do espírito.

O primeiro produto da razão é o rácio. Do rácio ao racismo é um pulo de nada.

quinta-feira, janeiro 08, 2004

O eterno ausente.


Um amigo evocou o meu nome, ao recordar uma memorável noite de Viseu que juntou meia dúzia de carolas que resolveram trocar emoções atrás de emoções e muitas foram as que de uns e de outros arrancámos e a uns e a outros fomos provocando.
Teria então dito, referindo-me a Deus: Senhor, que medo ou que mania da superioridade, Te faz ser tão ausente?
Apetece-me vir a terreiro não para negar ou confirmar a frase, mas para reforçar meu convívio privilegiado com a transcendência.
Convivo tu cá tu lá com Deus e, como lhe retribuo a amizade que Ele tem para comigo, não tendo medo d'Ele, de vez em quando, provoco-O, e... digo coisas semelhantes a essa que o meu amigo agora veio lembrar.
De facto, às vezes apetece-me apresentar Deus aos amigos e a Sua permanente invisibilidade incomoda-me.
Será que nessa noite em Viseu em que eu tanto quis apresentar o meu amigo Deus, me passei da bola e, com mais copo menos copo, O invectivei dessa forma? E aqui para nós já nem sei se Ele lhes apareceu, isto é, se se fez presente, já que eu nunca O deixo de ver na Sua ausência.
É assim, caríssimos amigos, é a ausência de Deus que invade o universo inteiro a mesma que enche toda a minha humanidade. E se sucede meu coração ver-se envolvido pela negrura, esse buraco negro do coração me aponta o grito de Fausto de luz, mais luz.
Meu amigo Deus não me mete medo, liberta-me da lei, da culpa e da morte. Da lei e da culpa já cá tenho a minha conta libertária. Resta-me a saudade da minha própria morte. A morte é para mim o esperado encontro com a ausência. Se o eterno ausente não responder à chamada, é porque não é Amor. E se Deus não for Amor, então, seja o que seja e onde quer que for, não me faz falta.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Das razões do coração



Convém diante do computador libertar as capacidades imaginativas próprias da infância e da adolescência e desencadear os mecanismos intelectuais que lhes são peculiares para, em face do irritante monstro que se não engana, sonhar acordado, auto conscientemente iludido, com uma máquina que não tenha só razão, mas seja apaixonadamente humana.

Passemos, então, a utilizar os ditos mecanismos intelectuais tão próprios da criatividade infantil e adolescente.

Por transferência analógica, tal como o coração é bomba hidráulica, o braço guindaste e o rim filtro, o computador é cérebro. E que cérebro! Coloca gente na lua, guia sondas por entre estrelas, aponta milionários do totoloto mal cai a última bola, e até corrige automaticamente os erros de ortografia.

Mas se assim é, então a cabeça do homem serve para outra coisa: cabelo de ráfia, chapéu às três pancadas, bola de nariz vermelho, rosto de maçãs escarlate, boca que abraça o rosto em arco-íris, olhos onde desaguam rios de rugas, sorri o sol e as lágrimas esguicham, o palhaço é ainda, com os seus disparates, mais símbolo do homem que o computador.

Por identificação do objecto o engenheiro de sistemas descobriu a mecânica da razão: trata-se de uma ridícula soma de zeros e uns, bem como de uma óbvia rapidez de escolha entre alternativas ao par. Pobre razão que aborta diante de uma alternativa fechada e pára inerte à porta do mistério.

Ao findar do século XX, eis que o computador devolve ao homem a certeza de que o pensamento racional é tão só um compromisso rotineiro com a utilidade. Esperemos que a lição lhe baste e ele possa compreender a itinerância do devir e se prepare, descomplexado, para responder ao apelo que a gratuitidade pura lhe grita desde que no princípio o Verbo proclama o risco de existir.

Continua a ser do homem e nunca será da máquina o poder de evocação fantástica, outro mecanismo intelectual, que preside aos mais belos sonhos da nossa infância. O computador povoa as mais delirantes aventuras do mundo dos humanóides. Óptimo! Deixou o homem de poder justificar a auto flagelação diante dos erros quando dá murros na cabeça e grita ai que burro que eu sou. Deve antes comprar um cacete de espuma (é um hardware... soft) e desancar o cérebro electrónico sem o ferir: burro é ele, o computador, quando zurra beep, beep, porque lhe falta a memória ou se encontra com uma instrução imprevista!...


NB. Cá me vou repetindo fazendo o vai-vem entre o que há muito escrevi ali e agora vou pondo aqui.

segunda-feira, outubro 06, 2003

... há tão pouco tempo


E o que é isso do tempo antes do anúncio do princípio e depois de esgotado o fim?

sexta-feira, setembro 12, 2003

Europa, Europa, Europa!...



Europa! As coordenadas físicas marcam-lhe um espaço do Atlântico aos Urales no velho continente euro-asiático, na calote rica do planeta, o Norte, berço da civilização ocidental, esse espírito europeu profundamente convicto que o mundo obedece à racionalidade, portanto entendível e dominável pela inteligência do homem, que, para os crentes, é um ajustado reflexo da Sabedoria divina, e, para os agnósticos, o sinal da superioridade do homo sapiens.

A Europa nasceu e cresceu com o cristianismo: nela se fez história a ambivalência do que é de César e do que é de Deus. É difícil encontrar um substrato civilizacional comum donde emergissem tantos aspectos contrastantes como do europeu. Contrastes de povos, línguas, culturas, hábitos, saberes, estilos, projectos, razões, mitos e sentimentos. É ver em quantos arranjos e rearranjos do mapa da Europa se reajustaram ao longo dos séculos os diversos contrastes, até aos dias de hoje, época de outros dramáticos ajustes parcelares e regionais, onde se reivindicam poderes soberanos quando parecia vencer a tendência para os ceder em beneficio do seu exercício integrado em grandes espaços políticos e económicos.

Não há dúvida, porém, que na Europa se desenvolveu um longo processo de humanização, com raízes assentes no caldo comum greco-latino e judaico-cristão das margens do Mediterrâneo. Entendida neste sentido, no mapa-múndi, a Europa consente uma linha de São Francisco a Vladivostok e, quando porventura se sonha com uma civilização planetária de liberdade, bem-estar e respeito pela pessoa humana, os contornos desse sonho assentam em grande parte nas realizações da chamada civilização ocidental que teve por berço a Europa.

Portugal é uma singularidade. Na Europa e na Península. Tem uma fronteira fruto da vontade, traçada terra adentro no ponto ideal para não esquecer o mar, e conservada intacta, há séculos, à rebeldia do sistema geográfico, desde que D. Dinis, esse estratega do Portugal a haver, começou a lavrar a terra, o mar e o espírito; equilibrou com mares nunca dantes navegados as tendências centrípetas de Castela e lançou-se na aventura colectiva louca dos Descobrimentos, gesta genial de glórias, misérias, ambições e luxo, tanto na exploração como na dádiva, cuja expressão maior é essa mestiçagem de corpos e culturas dos falantes de português no mundo; singularidade até em ser o último a conservar um império e hoje, estranho colonialista de mãos a abanar, bater à porta dos ricos da Europa que beneficiam ainda do prestígio de terem sido os primeiros a descolonizar e aproveitam os benefícios de poderem ser os últimos a abandonar o neocolonialismo.

E cá anda Portugal na Europa. Qual? A das lágrimas de Rousseau, a dos risos de Voltaire, a do pensamento puro de Kant, mas gorda de teres e haveres?; a gregária de Jean Monnet, a pragmática de Maquiavel, a rigorosa de Calvino, mas individualista e cada vez mais xenófoba?; a da razão de Galileu, a da fé crítica de Lutero e da fé na história de Marx, mas gorda de materialismo e balofa de luxúria?

Somos hoje dependentes sem recuo da Europa individualista, materialista e hedonista, egocêntrica, gorda e balofa!...

N.B. - Continuo a utilizar meu vai-vem da memória, sem fim nem pensamento...

quarta-feira, agosto 27, 2003

Lá tens as tuas razões ou... emoções?



Tu, jovem ou adulto, não te punas: és humano e tens o direito ao erro, aproveita os encantos e desencantos da vida, di-los com palavras que evoquem música, mistura a dor e o prazer com as tintas da terra e dos céus, plasma a emoção na obra infinita da tua fantasia e canta com o teu semelhante o hino da existência - porque para criar nasceste; e quem é só razoável não afecta a criação.

Foi a raciocinar sobre modelos abstractos e os seus símbolo que o homem isolou no computador a inexorável monotonia do pensamento, incapaz de se libertar das amarras formais da identidade e da não contradição: se o que é, é, não pode ser e não ser ao mesmo tempo, e, então, ou é ou não é.

O computador é para mim a mais gratificante das invenções: só há uma razão, cabe toda num microchip do tamanho de uma unha e desta maneira ninguém me engana quando argumenta eu cá tenho as minhas razões.

Nem o senhor tem as suas, nem eu tenho as minhas. Ponhamos a razão de ambos a funcionar, step by step, que a nós mais ninguém nos leva à certa...

À certa... só o gesto de uma dádiva sem preço - o Amor!

Que os meus harpejos de sapateiro a tocar rabecão não perturbem o entusiasmo perante as novas tecnologias; elas são úteis e abriram ao mundo uma nova era. Mas todas as eras produzem as suas rotinas.

Só a paixão acorda nos adultos as reservas psíquicas da adolescência, capazes de transformar em novidade o repetido e o habitual, e de tornar familiar e possível o que é estranho e misterioso.

sexta-feira, agosto 01, 2003

Até ao fim


De 3 de Abril de 1960 a 18 de Julho de 2003


No mar são tuas cores que a luz desenha
No horizonte de uma outra rota
Segui até ao fim tua façanha
Porquê tanto ocultaste teu rumo em troca?

Partias de manhã com tua dádiva
E nós na praia morna sempre aquém
Vagas que galgavas mulher impávida
Eram serenas ondas sempre mãe

E assim fugiu de mim o teu destino
Espuma branda teu corpo que não ousei
Puras águas as mágoas do meu signo
Que ao lado da tua barca naveguei

Contempla lá do alto o mar ameno
Regressa às margens estreitas do meu rio
Repousa enfim de coração sereno
E só a vela segue como eu a guio.


Também em Poemastro me confesso

domingo, julho 13, 2003

Dali houve meu nome



O bom-nome a que temos direito nunca é mau... Sou Lamas. Perguntam-me com frequência se eu pertenço aos Lamas de... gente célebre. Não, meu lamaçal é outro, mas não tenho nada contra. A identificação civil adianta pouco ou nada sobre a pessoa. Quem vê caras, não vê corações. Aqui sou visto por mim e por outros. Mas só eu assumo a representação da minha insubstituível memória emocional.

Funcionário público, sei o que é o tacho: aconchega o estômago e amolece o engenho. Resisti e barafustei e desisti, frustrado, após 36:00:00 (anos:meses:dias). Sou um aposentado por inteiro. Nada mau: sopas, descanso e até, vejam lá, a Internet para levar o desabafo pelo universo fora...

Nunca rejeitei o passado. Não me lembro de ter desejado alguma vez construir deliberadamente o futuro. Quanto ao presente, incomoda-me a prolongada rotina da passagem. Sou um retrógrado vigilante: uma alma deste mundo com saudades do outro. Daí a tendência para nunca esconder por de trás do discurso a suposta neutralidade da razão diante do sentimento. Vão aqui alguns exemplos, já velhos, da razão com que sinto.

Se eu tivesse que repetir o passado, voltaria ao dia em que meu pai e minha mãe me conceberam. Foi o dia em que Deus se fez história em mim. A necessidade do amor, a que eu chamo o usufruto da criação sem lei, se foi inventada pelo homem, parece-me não poder ser senão impulsionada por Deus. Eu sou um crente e tento expressar minha crença, às vezes sem rei nem roque.

E por ali cresci. O ponto terrestre mais significativo do universo é o largo da minha aldeia. Trata-se do centro geográfico de uma vida cujo perímetro nunca foi além de uns quatro quilómetros até à idade de dez anos. Aprendi depois no liceu que o carro de mão era uma alavanca e na universidade que meus cabelos louros eram um gene. Como é que hei-de desagravar estas ofensas aos meus olhos de menino senão devolvendo à aldeia a ficção que a cidade me deu?

N.B. - Convém lembrar, até para a compreensão deste "post", que o projecto deste blog se integra num outro alojado noutro servidor. De lá vêm textos para aqui e daqui textos para lá. Um vai-vem da memória, sem fim nem pensamento.

sábado, julho 05, 2003

Nos Mártires da Pátria



Vou até ao Hospital dos Capuchos marcar uma consulta. “Venha amanhã, hoje estivemos em greve de manhã e não se marcam exames de tarde.” O que vale é que perto do hospital acolhe os doentes o jardim do Campo dos Mártires da Pátria.
São 1630 da tarde. Densidade enorme de tristeza por metro quadrado de bancos do jardim.
Leio no sopé de uma árvore velha:

Tu que passas e ergues para mim teu braço
Antes que me faças mal, olha-me bem
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de Inverno
Eu sou a sombra amiga que tu encontras
Quando caminhas sob o sol de Agosto
E os meus frutos são a frescura apetitosa
Que sacia a sede nos caminhos
Eu sou a trave amiga da tua casa, a tábua da tua mesa
A cama em que descansas e o lenho do teu braço
Eu sou o cabo da tua enxada, à porta da tua morada,
A madeira do teu berço e do teu próprio caixão
Eu sou o pão da bondade e a flor da beleza
Tu que passas, olha-me bem e não me faças mal.


Tranquiliza-te, árvore! Não te faço mal e vou olhar bem em redor.

O que há de vivo? Crianças, pombas, três garnisés atrás de galinhas. Debaixo de uma árvore, duas mesas de sueca de reformados. Ainda dizem que não cuidam dos reformados. Há um letreiro que atesta: “Árvore classificada de interesse público. Moraceae. Ficus benjamina l. Fico. Regiõe tropicais.” Uma outra árvore: “Árvore classificada de interesse público no D.GOV. IIª série 121 – 21.5.1968. Família:TAXACEAE; Nome científico: Taxus bacata l.; Nome vulgar: Teixo; Origem: regiões temperadas do Norte; Altura: 11 m ; Altura: 11,1. Medidas feitas em 1.1.91. Não sei quanto alargou a copa da árvore na última década, mas creio que dá sombra para outra mesa de bisca lambida.
Do lado (Este? Não trago bússola comigo...) do jardim, seis carros de transporte de carga com aspecto de há muito ali estacionados. O dístico nas carroçarias fechadas, folgosa, tanto contrasta como condiz com a apatia da greve. Transporte de folga (de folga, descanso, ou folga, folguedo, ou com folga nos pistões?...) Mas o logótipo é verde, uma esperança de movimento dos mártires da pátria.

Sons: cantam galos, arrulham pombos, gritam crianças, ressonam velhos, resmungam os sem abrigo.

Atravesso, sempre sem bússola, para o outro lado do Jardim. O Campo Mártires da Pátria polariza à sua volta uma significativa concentração de elementos decadentes do corpo e do espírito da pátria: o instituto de medicina legal e a morgue, hospitais, hospícios, institutos de bactérias, doenças dos olhos e maleitas do espírito, asilos e até a toponímia primitiva não desdenha. O espaço antes chamava-se “Campo do Curral por aí se fazerem as matanças de gado para o abastecimento da cidade”, e o nome actual, mais heróico, mas não menos bestial e sangrento, deve-se ao enforcamento que aí se fez dos presumidos autores da conspiração de 1817 contra o domínio inglês de Beresford. E a praça de touros, também mártires para os protectores dos animais, era ali antes de passar para o Campo Pequeno. E não esqueçamos o monumento a Sousa Martins, um santuário da crendice popular: mártires e remédios da mesma pátria.
O único apelo visível de algum progresso é alemão: Mercedes e wolkwagens de gama alta anunciam os serviços culturais da Embaixada alemã.

Apresto-me a abandonar os mártires da pátria, as crianças, os jovens, os velhos, trôpegos, desempregados, alcoólicos, mais galos, patos, pombos e cães, uma estufa da memória decadente em ruínas neste dia solarengo.

Espero o 33. “Não espere, porque há greve. Começou às 17 e 30 e vai até às 20 e 30 da noite”.

Greve no Hospital. Greve nos transportes. Já não tenho tempo de ir urinar a casa. Na empena nascente do jardim dois sólidos redentores epigráficos indicam aos “homens” e às “mulheres” que os mártires da pátria podem ao menos aliviar a bexiga. Na porta dos homens encimada pelo ícone de Lisboa em relevo, dois corvos, um na proa, outro na ré da nau de São Vicente, piam boas vindas a lisboetas e forasteiros que se aproximam para descarregar as entranhas. De igual modo sugestivo, colado na parede o anúncio de um festival de outras calendas “saberes, sabores e sons de Lisboa”, cuja sibilância escorregadia ainda mais acentuava a necessidade do alívio que fora procurar nas catacumbas dos mártires.

Procurar em vão. O pio dos corvos soturno avisava: não há mijo para ninguém...
Também eu, um mártir da Pátria.

terça-feira, julho 01, 2003

Pela boca morre o peixe



Tenho cana, carretos, linhas e anzóis. E sacos, cestos, tesouras, canivetes e alicates. Sei onde se compra o isco, tenho um livrinho com as marés, mas não me considero um pescador. Passo anos sem ir à pesca e nos anos que vou, contam-se pelos dedos da mão os dias em que abeiro os pesqueiros. Sem o traquejo da lide continuada, coloco-me tímido na enfiada de pescadores tostados pela experiência de sóis, frios, ventos e maresias e armo os aparelhos com a medrosa hesitação de quem não domina a matéria.

Há dias, ousei colocar-me na última nesga de um paredão bem saturado de canas e consegui a autorização tácita para me candidatar ao unânime isto hoje não está a dar para ninguém dos companheiros mais madrugadores. Antes de lançar, com a estudada modéstia do costume, implorei a compreensão da vizinhança: - sou novato nisto, amigos.

Normalmente, recolhe-se um incentivo, mas desta vez, o companheiro do lado reforçou minha timidez: - é novato e nota-se...

Lancei. A linha, a timidez, a afoita esperança de uma cândida ingenuidade que me acompanha desde menino. Um minuto depois tinha um peixe a estrebuchar a ponteira da cana. E nem era sargueta, era sargo, desses que enche um prato com duas batatas e uma macheia de grelos.

O vizinho penitenciou-se do remoque com o provérbio pela boca morre o peixe. Eu, atónito diante do estertor prateado do peixe na ponta do anzol, lembrei-me da sentença de Jesus que cito de memória: não é o que entra pela boca que conspurca o homem, mas aquilo que sai pela boca do homem.

Tanto morre pela boca o peixe, como o homem. Mas nota-se menos no homem, porque fala pelos cotovelos. E quanto mais fala, mais se julga vivo e mais vivo o julgamos. No entanto, a falar se esgota. Com a boca voz do cérebro, manda bocas ao mundo, esse mundo que fica tal e qual o deixamos quando a função cerebral se esgota e com ela a capacidade de mandar bocas.

Evidentemente, também a capacidade de mandar bocas na blogoesfera.

segunda-feira, junho 23, 2003

Dar com a língua nos dentes.



O sentido mais corrente da expressão “dar com a língua nos dentes” é divulgar um segredo. Mas se com a verdade me enganas, a palavra é também disfarce. Também se diz que a falar é que a gente se entende. Como há gente que se entende entre si e outra não, pelos vistos, nem toda a gente fala da mesma maneira. E como palavra puxa palavra e palavras leva-as o vento, as palavras que se apanham no ar entram e saem dos discursos como em sacos rotos.

Há registos dos significados das palavras, mas é inviável andar com o dicionário à costas a promover o entendimento entre os falantes e os escrevinhadores. Contudo, no caso particular da escrita não é de todo estulta a ideia de viabilizar no começo ou no fim do texto um glossário dos termos utilizados. Aliás, há quem o faça, nas ciências e na filosofia e, como a prática é recente, há dicionaristas especializados que reportam os vocabulários próprios dos vários saberes, e dentro de cada saber, o vocabulário próprio de cada sábio. Também não é por falta de dicionários que os humanos se não entendem, nem por falta de ocasião para dar à língua, agora potenciada pela blogosfera.

Tanto no mundo da fala como no da escrita, não é nada óbvia a garantia de que as palavras que utilizamos correspondam àquilo que elas designam. Pelo contrário, a tendência da análise contemporânea do fenómeno da cultura privilegia o discurso como relação entre termos, embrenha-se no exercício lúdico da construção e desconstrução dos sentidos, faz piruetas nas paralelas assimétricas dos semas e meta semas e goza com a indeterminação labiríntica das estruturas.

No mundo da relação discursiva, a sensação é a de que está a chover no molhado. Embriagado com as palavras, o humano rompeu o contrato espontâneo entre o conceito e o objecto concebido, vive a vida isolada da mente (a imanência), perdeu a aposta com a eternidade (a transcendência), viaja na galáxia artificial da significações e foge a sete pés da imediata expressão da singularidade dos sentidos.

Deixemos então que as emoções dêem com a língua nos dentes...

quarta-feira, junho 18, 2003

Outra vez o umbigo.



Desde que tive conhecimento da etiqueta umbiguismo para classificar os blogs com forte dose de carga afectiva mais ou menos íntima, dei em reflectir sobre o umbigo, o meu bem entendido.

Reconheço que o meu blog se inclui nesta classificação e não enjeito o risco de quem voluntariamente exibe diante doutros o exercício arriscado de se manter em equilíbrio no vértice da pirâmide, cujas vertentes mantêm fronteiras entre a vida íntima, privada e pública.

Não vejo correlação imediata entre olhar para o umbigo e a contemplação narcísica. Esta parece cair na tentação esfíngica de petrificar a própria imagem como centro do mundo. O umbigo, pelo contrário, escapa à função abstracta da imagem e impõe-se como sacramento, isto é, uma realidade visível e exterior de uma graça interior e invisível.

De facto, o umbigo assinala no corpo o fim do convívio simbiótico com a origem e o começo do encontro cada vez mais radical com a solidão a que nem a morte promete a esperança do sossego.

Quem pressionar com intenção sagrada o botão do seu umbigo abre duas portas simultâneas interdependentes que o introduzem na histórica aventura que a humanidade prossegue: a porta do amor e a porta da transcendência.

Do amor, a dádiva gratuita das suas entranhas que a mãe oferece ao mundo. Da transcendência, o nome de deus que o humano fixou para guiar o mundo e a vida à plenitude de ser.

segunda-feira, junho 16, 2003

O meu umbigo



O meu primeiro post é de Janeiro, 10, 2002. Meu blog cabe inteirinho na prateleira do umbiguismo, segundo os critérios de análise da blogoesfera propostos por JPP (é o Pacheco Pereira) no seu Abrupto.

O termo não me escandaliza. Não me tinha era lembrado dele. Como ando com a mania de dar relevo às singularidades, em detrimento dos conceitos específico-genéricos, fui realmente olhar para o meu umbigo.

Um sarilho! Falta-me elasticidade para o ver em directo. Fui ao espelho (fui mesmo, não é força de expressão) e lá estava o buraco na vertente descendente da calote abdominal.

Acho o meu umbigo bem feito, uma cratera pacífica bem desenhada onde não cabe a ponta de nenhum dos dez dedos das minhas mãos (não cabe mesmo, eu experimentei). Mas... ó diacho, se lá não cabe um dedo, e eu me lembro de limpar todos os buracos do meu corpo menos este, será que eu ando com o pipo umbilical cheio de sarro sem dar por isso?

Peguei num “bastoncillo de algodón” (não é força de expressão, peguei mesmo, como se prova pela citação original...) e esburaquei até à profundidade máxima sem encontrar lixo.
Meu umbigo anda limpinho.

quinta-feira, junho 12, 2003

O cão de Pavlov



É razoavelmente conhecida a experiência de Pavlov que provoca o reflexo condicionado do cão que saliva ao toque de uma campainha sem a presença da comida, depois de várias vezes associar o som ao acto de comer. Todo o bom guloso sabe disto quando começa a salivar ao aproximar-se de Belém, não a do Presépio, nem a do Presidente da República, mas a Belém dos pastéis de nata...

Também de Pavlov, mas menos conhecida, é condicionar a reacção do cão à presença de um anel circular perfeito que aos poucos vai tomando a forma elíptica. Quando o cão começa a não poder distinguir entre o circulo e a elipse, rosna irritado.

Não me atrevo a dizer que a irritação dos humanos obedeça a este esquema, mas, confesso, que frequentemente me sinto como o cão de Pavlov, sobretudo diante de um interlocutor que se serve conscientemente de discursos ambíguos para levar a água ao seu moinho. E fico duplamente irritado, quando caio na tentação de fazer o mesmo. O mais popular desses discursos é o “da garrafa meio cheia ou meio vazia”... O mais intelectual é o “da razão e o das razões”...

Eu [segue-se uma argumentação que só a mim responsabiliza, mas se inspira no ensino de Miranda Barbosa, meu professor na Universidade de Coimbra, de 1957 a 1963 e cujo pensamento se encontra in A.Miranda Barbosa, “Obras Filosóficas”, organização e prefácio de Alexandre Fradique Morujão, Colecção Pensamento Português, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa 1996] entendo que só há uma razão, uma ordem fundamentadora do saber que parte de um mínimo de pressupostos aceites para um máximo de explicações cujo caminho pode ser percorrido “step by step” por quem tenha a apetência e a competência para o percorrer. Quando esta ordem se põe ao serviço de uma fundamentação racional e radical do saber, encontramo-nos com a Filosofia a qual deve conformar-se a este método único e irreversível para garantir a unidade do sistema.

E então as razões, “os conceitos de..., segundo fulano...”, isto e aquilo segundo Sócrates, segundo Platão, segundo Aristóteles, segundo Averróis, segundo Aquino, segundo Locke, Berkeley e Hume, segundo Descartes, Leibniz e Spinosa, segundo Kant, Fichte, e Hegel, segundo Husserl, Heideger Sartre e companhia, segundo Russel, Whitehead, e mais este e mais aquele, os proto e os neo “ismos”, medievais, modernos e contemporâneos, de ontem, de hoje e de amanhã?

Em princípio não há incompatibilidade entre as afirmações destes dois últimos parágrafos, a não ser quando se confunde a unidade metódica da filosofia enquanto sistema com os processos de investigação e fundamentação face aos problemas concretos com que se debate o filósofo. Estes problemas não se encontram todos no mesmo plano da realidade (a ideosfera, a ontoesfera, a axioesfera, por exemplo), nem lhes convém os mesmos processos de investigação (a analítica, a noética, a dialéctica, exemplos entre os mais usados dos processos de investigação e fundamentação filosóficos).

Há porém um problema que se vêm arrastando desde Descartes (o divórcio entre o cogito e a realidade extra mental) uma aporia que todos os filósofos têm vindo a elucidar com investigações úteis e argumentos sagazes, mas raramente resolvida, porque cada filósofo e seus seguidores arvora o método particular útil em relação ao processo de investigação em disciplina fundamental da filosofia, caso em que o método se torna inadequado para garantir a unidade metódica de fundamentação racional e radical do saber.

A Filosofia como sistema concebida nos termos que aqui se expõem tem uma exigência primeira: ser filosofia do real, isto é, dar conta racional de que o conteúdo das notas caracterizadoras que distinguem um objecto ideado (existente na ideosfera) corresponda a um ente (existente na ontoesfera, ou domínio existencial da realidade). Diz o senso comum que a realidade existe fora da mente que a pensa. É o realismo ingénuo. A história do conhecimento em marcha dá conta do mundo e da vida antes da existência do humano. É o realismo crítico. Mas, como se disse atrás, o cogito cartesiano abalou os fundamentos do realismo ingénuo e os do realismo crítico. Então, uma sã filosofia sistemática deve encontrar uma fundamentação lógica para o realismo que passa pela aplicação do processo da dialéctica aos resultados da analítica: as singularidades da ontoesfera não são nenhuma anomalia na ideosfera porque o conceito de indivíduo, não tendo conceitos subordinados, não é definível, mas é concebível como conjunto transfinito de notas caracterizadoras.

A filosofia moderna e contemporânea é intrinsecamente idealista: comporta-se como se a realidade extra mental não existisse ou, então, exista como construção da mente. Até os “existencialistas” que dizem partir da existência, acabam por deambular sem sentido no seio das reduções eidéticas propostas pela fenomenologia cuja coerência depende significativamente da decisão metódica que coloca a realidade entre parêntesis. A filosofia moderna e contemporânea é uma ideosofia (termo proposto por Jacques Maritain).Só problematiza; não dá soluções a nada e faz jus à tradicional definição anedótica de que “a filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual nós ficamos tal e qual”. E ficamos mesmo. Ou pior: aturdidos e sonâmbulos na galáxia das ideias à solta, onde a palavra e a coisa nunca se encontram.

A primeira vítima do idealismo (a realidade imanente ao pensar) é a história. De facto, a perspectiva histórica exige o respeito pela singularidade do devir que não se define, mas apenas se narra. Como a realidade é para a cultura de cariz idealista uma construção do pensamento, a narrativa histórica solta-se ao sabor de interesses ideológicos, confessados ou não, interpretando os factos até ao ponto de os torcer ao serviço da construção de um passado que a realidade não consente ou até rejeita, e propondo para o futuro uma ordem ideal para o qual nada indica que o presente aponte.

Esta crítica não significa menos apreço pela utilidade intrínseca das investigações processuais nos vários campos do saber que a perspectiva histórica da filosofia nos oferece. Mas a pluralidade de processos que contribui para a solução de filosofemas só ganha capacidade explicativa racional e radical quando integrada num sistema com unidade metódica, isto é, no interior de uma ordem de fundamentação que parte de um mínimo de pressupostos para um máximo de explicações e que, portanto, integra e supera conhecimentos progressivamente.

O cão de Pavlov rosnava, mas habituou-se... condicionado. A cultura actual foge da realidade como o diabo da cruz. Está assim condicionada à ideia que devora ideia e rumina ideia, duplos mentais das coisas que fazem crer que a realidade é uma ilusão.

quinta-feira, junho 05, 2003

Cheguei aqui.



Cheguei aqui a este quarto de quadros e flores atapetado
vindo da Barreira em tarde de figos que matavam fome
empurrado pela mesma cana e a mesma reentrância que colhia os frutos
e empurrava o eixo do triciclo que o Viquinho me deu partido
e o Escabelim forjou como forjou as colheres pequenas de pedreiro
com que construí as casitas iguais às que não tinha
moldadas pelas que deitavam sobre as nossas as sombras delas
e luziam como nossos sonhos de canas verdes
vergadas em corpos e asas de aviões de dois pés
e motores de lábios num frenesim de som que perseguia borboletas
e na fuga desenhavam a metamorfose dos voos em ziguezague
até aqui a este quarto de flores atapetado
morta com o Escabelim a forja da minha infância.

In Poemastro Me Confesso