domingo, maio 25, 2003

Chamar as coisas pelos nomes...



Pelos vistos, não é coisa fácil dar um nome à coisa, até porque, afinal, parece que a coisa sem nome não é coisa nenhuma. Daí, os apelos constantes para chamar as coisas pelos nomes. Parece haver um consenso generalizado sobre de que não há duas coisas iguais... E mais: cada coisa no seu sítio, um sítio para cada coisa e, portanto, sempre que se verificar a tentativa de meter duas coisas no mesmo sítio, não estamos a falar da mesma coisa... no mesmo sítio.
Jogo de palavras, mas não só. Trata-se sobretudo de ir ao encontro uma vez mais do real. O real narra-se; não se define, nem se classifica.
É por comodidade, tantas vezes por ignorância, muitas por preguiça da mente ou ainda por disfarçada desonestidade intelectual que a palavra coisa (da mesma família de causa) se transforma no lugar comum estereotipado e estático da realidade, cuja substância é essencialmente dinâmica e, por isso, nunca se esgota no discurso que a narra.
À expressão chamar as coisas pelos nomes, prefiro a de agarrar o boi pelos cornos.

sexta-feira, maio 16, 2003

NUM VERÃO DA MÁ CONSCIÊNCIA DO CRENTE



Poluição, protectores, sol que aquecia antes e agora só queima, um ventre disforme — anda lá, ao menos não exibas a barriga — o pai leva para a praia a cabeça ainda mais poluída do que a praia e como sempre corre atrás das circunstâncias de que se ri no íntimo, mas que consigo transporta e espalha.
O stress aflora à superfície das preocupações e das águas e na areia reduz o espaço para um corpo de cócoras, uma toalha, uns sapatos e lá dentro uns óculos, uma boa maneira de meter os pés pelo nariz e partilhar um metro quadrado do palco de areia — cada veraneante um actor único de uma plateia pejada de actores únicos exibindo-se diante de um público alheio — o rebuliço do espectáculo de Verão, tão certo no calendário como está certa a contradição que lhe levou ali o corpo ritmado pelo pretexto de um passeio à beira mar, cansado de imaginar a esperança de uma diferença.

E de repente o pai refugia-se na igualdade do absoluto: pai-nosso que estais no céu santificado seja o vosso nome…
É! Assim tal e qual: a frase estereotipada da catequese de menino conspurcada pela cultura que acha natural que deus não tenha outra maneira de se manifestar senão pela ausência — e, resignado, “Tu lá sabes por que te ocultas…”
Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu… A terra e o céu, dois lugares e uma só vontade, o império do absoluto?
E porque não reconhecem Tua a vontade de duas gotas por onde escorrega, lenta, entre quatro-olhos, dois rostos e um desejo a maresia inteira do oceano que aporta e se funde no tempero ajustado de quatro lábios, duas línguas e uma boca?
E assim na terra como no céu brinquem as estrelas no prazer instantâneo da fusão dos corpos, pálida fantasia da explosão quente de duas almas a quem acontece no marasmo calendarizado de um Verão a inesperada oportunidade de esgotar o oceano na alquimia de um beijo.

A fome prosaica da hora do almoço. O pão-nosso de cada dia nos dai hoje. Hoje. Eufemismo do pão antecipado no cartão de crédito… Também o telemóvel faz parte do pão-nosso de cada dia. E Deus deu um ao pai, outro à mãe e outro ao filho. O farto sossego da informação guia-os até ao restaurante: o mar serve-lhes o peixe e a terra o acompanhamento. Serve a quem serve. É a fartura ou a fome que está mal distribuída? À mesa readquire sentido o perdoai as nossas ofensas…

Pai, mãe e filho — a família é a última guardiã das convenções da tribo. É o último alfobre da uniformidade dos deveres e dos costumes, o último bastião colectivo da regulação dos afectos. De maneira que se o perdão tiver sentido, compete aos progenitores pedirem perdão aos filhos por serem pais e os filhos aos pais pelos netos que geram.

E não nos deixeis cair na tentação de ocultar o cais anárquico de onde partem sem regresso as velas do vento morte.

E livrai-nos do mal. Ámen.

sábado, maio 10, 2003

Criação sem lei


Gaivotas desenham na cadência azul um bailado branco. E são brancos os novelos de espuma que cavam a areia branda debaixo dos seus pés.
O mar fustiga as rochas e esculpiu na pedra com o capricho dos anos uns sáurios estranhos que vigiam a variação da cor no horizonte calmo.
O homem, só, calcorreia a corda limite das águas de um ao outro braço da harpa que ponteia a surdina musical da baía solitária.
Quantos anos esperaram as rochas pela memória que hoje as transforma em crocodilos do mar? E como era o silêncio antes de se ordenar o som nos búzios?
O homem que anda por ali à procura da solidão primordial é um crente: imagina o mundo antes de haver homens e não concebe a possibilidade de o universo poder existir para ninguém. Procura o radicalmente outro.
O homem pára de vez em quando, absorto. Como era tudo antes da sensibilidade, da inteligência e da memória? Conclui: Era tudo ao deus-dará. – o fascínio da criação sem lei só atribuível a um deus.

quarta-feira, maio 07, 2003

Uns olhos e um rosto



Uns olhos e um rosto
fixos no instantâneo de outros olhos e outro rosto
ambos, anos a fio, quedos no mesmo gesto e no mesmo olhar
que a magia da palavra fixou no riso aberto do primeiro encontro
e revelou até ao infinito relevos, toques, pele, luz
e o mordisco renovado na polpa intumescida
ondulada pela luz da cortina coada na brisa de gargalhadas
entre pasmos humedecidos de soluços brandos,
afogados nos impulsos de corpos confundidos,
leves, lentos, agitados, furiosos
ao ritmo da entrega, e da placidez partilhada do regresso
aos olhos e ao rosto, quedos no mesmo gesto e no mesmo olhar
e subitamente soltos, desprendidos e alheios a um adeus imerecido.

sábado, maio 03, 2003

Dia da Mãe



Mãe, lembrei-me hoje muito de ti e fui aos meus papéis buscar o único documento escrito que sabias fazer: a tua assinatura.

Assinatura da minha mãe


Quando nasceste, na tua e minha aldeia, campónios não iam para escola, e tu também não. Mas quando te apercebeste, à beira do casamento, que havia gente que se identificava através da assinatura de um estranho a rogo de, a determinação de mulher forte que sempre foste levou-te a aprender as primeiras letras para ao menos saber fazer teu nome.

Mãe, nunca mais escreveste nada. Mas eu sei que a tua assinatura testemunha uma grande obra. Por isso a vim colocar na Internet que espero também chegue ao céu onde te encontras.

Apoiado na tua assinatura, grito ao mundo inteiro o meu grande orgulho em ser teu filho.

Fronteira



Lamento meu caro
mas chegaste tarde à ingénua criação
e a realidade é mesmo mesmo a realidade
quando caminhas no ângulo superior direito desse castelo
donde do lado de cá avistas do lado de lá
a indiferença da distância.

Lamento meu caro
mas chegaste tarde à ingénua criação
e a realidade é mesmo mesmo a realidade
de portas e janelas
alçadas na vertente do espaço e da distância
na linha exacta em que do lado de cá
isso se chama lá do lado de lá.

Lamento meu caro
mas chegaste tarde à ingénua criação
e a realidade é mesmo mesmo isso
sem feitiço.

Em Poemastro me confesso

sábado, abril 26, 2003

Cai na real.


Há mais de um mês que não escrevo neste espaço. Acordei com esta na cabeça: vou dizer qualquer coisa nem que seja uma idiotice...
Registam os dicionários que idiotice é qualidade do que é ou de quem é idiota e/ou acção, procedimento ou dito de idiota ou de pessoa dada como idiota (Dicionário Houaiss). Ora se forem ver o termo idiota (e aconselho a consulta de um qualquer dicionário especializado de psicologia) verão que nenhum idiota é capaz de consultar o dicionário, nem capaz de dizer uma idiotice: - o idiota não fala por se tratar do grau mais adiantado da degradação intelectual.
É com sua lábia de sábio que o humano enrola tudo o que não fala na categoria do quem cala consente. Como só o humano fala, o resto que sobra é idiota, fazendo jus à etimologia da palavra que vem do grego idiotès, termo que se aplicava ao irredutível homem comum singular, um qualquer zé-ninguém face aos magistrados e aos sábios que sempre conseguem subordinar o particular a uma lei geral que desvia a atenção do comum dos mortais da inexorável realidade.
O homem foge do real como o diabo da cruz. Abomina o que é simples, e treme diante do que é único. Por isso o humano imaginou um sistema para iludir a realidade que assenta no famigerado princípio de que o homem é a medida de todas as coisas. Parece que o mistério de todos os mistérios (ver o livro de Michael Ruse, com este título, edições quasi, 1ª edição, Outubro de 2002) é saber se existe ou não uma realidade para além do que os nossos sentidos percebem. No entanto, a realidade leva sempre a melhor. Não são as utilíssimas leis da ciência que iludem a realidade (evoco aqui o prefacio ao livro citado do Prof. Alexandre Quintanilha): os prédios caiem, as pontes ruem, as barragens cedem, os aviões despenham-se, os automóveis embatem, os navios afundam-se; uma cegonha provoca um apagão num país; os medicamentos curam e matam; a genética reproduz a cor dos pigmentos, mas não impede que sejam “teus olhos castanhos de encantos tamanhos pecados meus”.
É assim a plenitude do real com ou sem as leis da mecânica, as leis da electricidade, as leis da química, ou as leis da genética.
Amigo, cai na real.

quinta-feira, março 06, 2003

Partir a diferença ao meio?...



A expressão em título é comum no mundo dos negócios. E o que é que não é hoje negócio? Apregoa-se por todo o lado que há que respeitar as diferenças, mas toda a educação se resume ao treino permanente para encontrar coisas iguais. A razão é um cata ventos de semelhanças e tem horror à singularidade.
Claro que para anunciar grandes princípios estéticos, diz-se que não há duas obras iguais e só uma é prima – a tal que é única, mas se protege com “copyright”. E... a caminho da ética, também se proclama que não há gente, há pessoas, cada uma delas com todos os direitos garantidos na célebre declaração universal que razão autoral inventou para eliminar as diferenças... entre as criaturas.
Reinventemos a cultura do ócio, a única capaz de produzir obras únicas. Tenhamos a coragem de não nos deixarmos vencer pela fruição utilitária que a razão descobre, mas abramo-nos às trocas gratuitas das diferenças que o amor único – criação sem lei – aponta.

segunda-feira, fevereiro 24, 2003

Na Ponte da memória.



Na ponte parada da memória
entre a margem da candura e do disfarce
corre enigmaticamente plácido
o distanciado mistério.

por de trás das origens
brotam silêncios de esperança,
suaves e doces,
ao encontro da primeira madrugada fria.

quem desenhou a ponte onde só a solidão pára?
contornos, cores, vozes, gestos,
carícias, matizes, melopeias e movimentos,
onde se escondem ou de onde surgem?

parada na ponte
é a solidão
prisioneira da paisagem.

Em Poemastro me confesso

sexta-feira, fevereiro 21, 2003

A medida de todas as coisas...


O conflito entre a teoria e a realidade é cada vez mais patente. É o divórcio entre a razão e a vida, aquela forçando a realidade a vergar-se perante a auto-suficiência explicativa, a vida, por seu lado, contrariando a petulante ousadia da razão poder ter razão sozinha sem o incómodo da singularidade.
Espero que quem me leia, homem ou mulher, seja uma singularidade. Eu sou na realidade uma primeira pessoa do singular. Mas os filósofos dizem que somos "homem" e como tal, "a medida de todas as coisas"... Eu ainda me não dei conta do facto de ser "a medida de alguma coisa, fará então de todas elas"... O fascínio da razão é de veras ofuscante: dá por boa a imagem que cada um faz em determinado momento das relações que mantém com a natureza e depois deita fora ou reconverte essa imagem quando encontra uma realidade que a desminta, susceptível de verificação (por mais do que um homem) . Desta forma, a razão tem sempre razão: as "coisas" que existiam antes do homem não tinham medida, porque não havia homens para as medir; as "coisas" depois do homem têm sempre a medida que a razão lhes dá enquanto houver coisas "coisas" e coisas "homem" e.. mais do que um homem para garantir a submissão da prova ao processo do contraditório. Olha que o bicho homem é mesmo uma inteligência...
Parece que ultimamente anda a inteligência atrapalhada com a chamada física quântica. Já não é o "homem" a medida de todas as coisas, mas o "fulano de tal" observador. E o que ele observa tem a medida da sua observação, pelo que não pode dizer a outro "vem ver o que eu estou a observar", porque esse outro, quando observa, modifica a coisa observada. E já não há prova real de que o homem seja a "medida de todas as coisas", mas tão só daquela "coisa". A minha intuição é de que a "teoria" passa pela medida da "coisa", a do homem e a da mulher... A psiquiatria que resolva...

quarta-feira, fevereiro 12, 2003

Até ao fundo do coração de si mesmo.


Mas haverá homem que não se encontre consigo próprio? Mas homem não é mesmo esse biota que ao encontrar a substância da sua intimidade radical a expressa no conceito de pessoa - seu seu e seu dos outros em marcha pela estrada irredutível à de qualquer outro companheiro?

Nunca haverá clone de si mesmo a não ser nas retortas das alquimias “abstractizantes”. Homem faz-se em confronto irremediável com a solidão. Caminha. Com a razão? Com a razão, bem entendido. É um falso problema, separar, no homem, a razão daquilo que supostamente o não é, só porque à razão não convém enfrentar o incómodo da sua auto reconhecida limitação. A história da actividade humana não passa de um grande cemitério de teorias racionais que a própria razão vai arrumando nos caixotes da incoerência...

Faça-se então a caminhada metafórica até ao fundo do coração de si mesmo. É escusado deixar na borda do poço o escafandro da razão. Leve-o consigo, mas não se assuste quando ele rebentar sob a pressão do silêncio. É a isso que se chama o apelo do sagrado. Religião? Não necessariamente. Por vezes, a experiência individual e a colectiva da humanidade revela que são as religiões quem mais impedem o encontro com o divino.

domingo, fevereiro 02, 2003

Rejuvenesço



REJUVENESÇO quando gratuito me abro à esperança de lá chegar
REJUVENESÇO quando por aí passo e não esqueço outros mais velhos a andar
REJUVENESÇO quando na coragem do silêncio ouço o mistério vibrar
REJUVENESÇO quando firme o pensamento caminha sem espezinhar
REJUVENESÇO quando anteponho ao agravo o gesto de perdoar
REJUVENESÇO quando atento a mim mesmo com outro caminho a par
REJUVENESÇO quando ser ouso e sem meus nem haveres teus recomeçar
REJUVENESÇO quando meu rosto te olha e tua pele fica a brilhar
REJUVENESÇO quando abatido e cansado me estendes a mão tutelar
REJUVENESÇO enfim quando envelheço sem parar

NB: Entende-se melhor este post passando pelo Livro de Visitas, antes ou depois, tanto faz...

terça-feira, janeiro 28, 2003

Para sofista, sofista e meio...


Um sofisma pode cair como sopa no mel para enganar ou confundir os sofistas de profissão que se servem da sofística para não terem o incómodo de confrontarem seus interesses com a verdade que voluntariamente desprezam. Eu, por exemplo, confesso minha predilecção por perguntas sofísticas do género: - terá sido Galileu quem pôs a terra a andar à voltado sol?

quinta-feira, janeiro 23, 2003

Para quê o quê?


Um anónimo deixou no meu Livro de Visitas uma sugestão: escrever aqui com mais regularidade. Gostaria bem de corresponder ao sugerido. Mas... sinto que não tenho nada para dizer, apesar de o mundo solicitar muita reflexão. Aliás o que não falta no mundo é reflexão ou não seja a vida uma autêntica tenda de espelhos mágicos que reflectem entre si a realidade imaginada. Onde está a realidade real? Estou convencido que se encontra bem fora da imaginação. E... cada vez a possuo menos para convencer os meus amigos de que se torna urgente quebrar os espelhos que nos reflectem.
Só me atraem desafios radicais. Por exemplo, o de um pai meu amigo que, em face do espanto do filho sobre o facto de Gandhi ter morrido apenas com uns óculos, uma tanga e um livro, lhe redobrou a estupefacção com este comentário: - acho, filho, que Gandhi morreu com muito: um livro para ler o quê, uns óculos para ver o quê, uma tanga para esconder o quê...

terça-feira, dezembro 31, 2002

Ano Novo, promessa de sempre.


Passam os anos e eu continuo a olhar para trás. Mesmo para antes de ter nascido. Vejo sempre meus pais a imaginarem minha vida algum tempo antes de me terem concebido. E continuo agarrado à fidelidade com que eles cumpriram essa promessa. Por isso, meu Bom Ano Novo vai cheio das esperanças que de meus pais herdei e eles me ensinaram a partilhar. E desta maneira, sem deixar de olhar para trás, convosco continuarei a caminhar em frente.

terça-feira, dezembro 24, 2002

Meu Natal radical


Natal não é pacífico: queixam-se de todos os quadrantes que o espírito de Natal foi desviado para fins ínvios. E queixam-se crentes e não crentes. É mais ou menos voz corrente de que deveria ser Natal todos os dias. Mas não: - é só uma vez por ano com hora certa no calendário.
Deixo aqui minha interpretação radical do Natal. Radical e, certamente, pouco ortodoxa. Trata-se de um símbolo transversal da humanidade que se foi habituando a comemorar o mistério feito criança todos os anos a horas certas. Nasceu da virgem Maria, outro mistério para muitos, apenas para os que esqueceram que os filhos do amor nascem todos de mães virgens. Eu não esqueci: virgem era a minha mãe e que eu saiba teve quatro filhos.
Filho de uma mãe que não conheceu homem. Outro mistério? Talvez, mas para mim há muito esclarecido: mulher nasce mãe muito antes de ter homem, casar e ter filhos. Só homem se torna pai depois de mulher lhe apresentar um filho. Nisto de ter filhos, pai é secundário; mas sem mãe, nada feito. Por isso, só se pode fazer uma ideia do que é o amor olhando para a mãe. Ela é a personificação da esperança e o ser que transforma a esperança, virtude do fim, em permanente coragem, virtude sem fim que suporta a ansiedade permanente de ver o filho cada vez mais separar-se dela.
E pai, quando é fiel, assiste. Não desiste. Nem a mulher é sua, nem o filho é seu. Só passa por ele o sopro da vida, mas não detém a chave do mistério. Assiste com a mulher ver o filho partir para outra. Nasce o menino numa folha do calendário da esperança; morre o adulto noutra folha roxa da paixão: - Deus meu, porque me abandonaste? E se não fora a ressurreição, para quê o Natal todos os anos?
Deixo-vos meu Natal radical: - mães, pais e filhos a caminho de alimentar o Além. Além 2002 e além Sempre.

quarta-feira, dezembro 11, 2002

Uma resposta a dez questões muito sábias.


E o que é a ciência? Um articulado de razões para submeter ao pensamento a realidade. E a realidade, o que é? Tudo aquilo que resiste ao pensamento e deixa a ciência sem hipótese. E a hipótese o que é? Um cheque em branco que a ciência emite no banco da verdade. E a verdade, o que é? O misterioso banqueiro que dá ou não à hipótese a cobertura da experiência. E a experiência o que é? O conjunto de manipulações com que a ciência procura subornar o banqueiro, abalando a verdade com a ameaça da revolução. E a revolução, o que é? A irreprimível tendência da ciência para não aceitar o facto. E o facto, o que é? É “isso” mesmo que constitui para a revolução um permanente problema. E o problema, o que é? É o conjunto de factos que a revolução não resolve e pede à ciência que arrume na prateleira da teoria. E a teoria, o que é? Um grande armazém de hipóteses sem cobertura, um rol de quebra-cabeças para divertir a argumentação. E a argumentação, o que é? Uma escada rolante para viajar entre os patamares teóricos, mas que encrava sempre à porta do mistério que escapa à ciência. E a ciência, o que é? Volte ao princípio e continue a lenga-lenga até à argumentação.

quarta-feira, dezembro 04, 2002

Sem fim...


Gosto muito da expressão sem fim. Mas gosto dela porque tenho consciência da morte. O fim da vida não tem que ser necessariamente o seu termo, nem o termo da vida se esgota necessariamente no seu fim... Em todo o caso, parece-me que só a consciência da morte torna suportável a ideia de o infinito poder durar a eternidade. Confesso a minha incapacidade para conceber a vida eterna sem a morte, bem como conceber a morte como o fim da vida. Fim e meta não se confundem, como nos lembrava um professor de ginástica de quem, aliás, muitos troçavam por ser um metafísico da educação física. Respondia sempre aos que lhe lançavam o remoque: preferia uma meta para a educação do físico do que educar o físico para cortar a meta. Parafraseando: antes programar uma corrida sem fim para o espírito do que construir um pódium para o destino final de um corpo.

sexta-feira, novembro 15, 2002

Palavras para um catálogo


de uma exposiçãp patente
até 30 de Novembro de 2002,
de Terça a Sábado das 14 às 19h


Caleria
NOVO SÉCULO
R. do Século, 23 A B
1200-433 LISBOA




Entre! É uma exposição de João Vaz de Carvalho. São quadros. Telas sem cenário. Fundos de cores que entram pelos olhos dentro matizadas por variações tonais que a mestria do pintor faz sobrepor como se o gesto do pincel encontrasse tão só a presença subtil de camadas de tule transparente.

Entre! Agora no quadro. Trave conhecimento com uma, duas, três, quatro cabeças bojudas encrostadas em troncos rectangulares proporcionais à cabeça. Olhos? Ou distraidamente cegos, a olhar para dentro, ou redondamente arregalados a olhar para fora. Repetidamente desproporcionados em relação ao volume de outros sentidos bem proeminentes nas carantonhas narigudas com beiçolas escarlates. E os membros? Apenas uns paus de fósforo suficientes para manter de pé e movimentar os cabeçudos entroncados ou sugerir, quando necessário, um arremedo de braços para animar os trânsitos comportamentais dos personagens. E há bichos que ainda falam. Humanóides.

Sim, entre! Os quadros contam histórias. Uma ou várias a cada espectador. Uma ou várias por cada quadro. Uma ou várias pela sucessão das sugestões pictóricas que convidam o visitante a embrenhar-se na leitura de uma banda desenhada sem o apoio dos balões linguisticos que, por regra, orientam um só sentido óbvio da narrativa.

Entre! Venha e participe na desconcertante destruturação do inelutável convívio do pintor com o mundo dos objectos quotidianos, que são também da memória colectiva. Pairam em equilíbrio instável sobre as cabeças. Quando se anda com a cabeça cheia de coisas (símbolos de quê?…), coisas simultaneamente indispensáveis e fúteis, oscilando entre a utilidade e o empecilho, balançando, afinal, entre o desespero que a lucidez ilumina e a futilidade que também ao desespero não escapa, então, rir é o melhor remédio.

Entre! A proposta de João é de humor contido. O humor salva. O pintor já fez descer o riso às profundezas de si mesmo. Está salvo. Aproveitemos agora as achegas que ele nos estende e salve-se como puder: encontre uma cifra para o código de barras que encima e finaliza muitos quadradinhos desta história; assuma sem rebuço as significações das “coisas” com que anda na cabeça – pés, mãos, olhos, língua, pénis, útero, mamas, nádegas; ouça, veja e… ria. Ria, sobretudo de si mesmo.

João Lamas.

Lisboa, 2 de Outubro de 2002.

segunda-feira, novembro 11, 2002

da costela de Adão...


Parece-me razoável o mito que pretende explicar a criação da mulher por causa do homem. Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, mas emendou logo a mão e criou a mulher para o humanizar. De facto, sem a mulher, os homens correriam o risco de se tornarem deuses insuportáveis.