quarta-feira, dezembro 11, 2002

Uma resposta a dez questões muito sábias.


E o que é a ciência? Um articulado de razões para submeter ao pensamento a realidade. E a realidade, o que é? Tudo aquilo que resiste ao pensamento e deixa a ciência sem hipótese. E a hipótese o que é? Um cheque em branco que a ciência emite no banco da verdade. E a verdade, o que é? O misterioso banqueiro que dá ou não à hipótese a cobertura da experiência. E a experiência o que é? O conjunto de manipulações com que a ciência procura subornar o banqueiro, abalando a verdade com a ameaça da revolução. E a revolução, o que é? A irreprimível tendência da ciência para não aceitar o facto. E o facto, o que é? É “isso” mesmo que constitui para a revolução um permanente problema. E o problema, o que é? É o conjunto de factos que a revolução não resolve e pede à ciência que arrume na prateleira da teoria. E a teoria, o que é? Um grande armazém de hipóteses sem cobertura, um rol de quebra-cabeças para divertir a argumentação. E a argumentação, o que é? Uma escada rolante para viajar entre os patamares teóricos, mas que encrava sempre à porta do mistério que escapa à ciência. E a ciência, o que é? Volte ao princípio e continue a lenga-lenga até à argumentação.

quarta-feira, dezembro 04, 2002

Sem fim...


Gosto muito da expressão sem fim. Mas gosto dela porque tenho consciência da morte. O fim da vida não tem que ser necessariamente o seu termo, nem o termo da vida se esgota necessariamente no seu fim... Em todo o caso, parece-me que só a consciência da morte torna suportável a ideia de o infinito poder durar a eternidade. Confesso a minha incapacidade para conceber a vida eterna sem a morte, bem como conceber a morte como o fim da vida. Fim e meta não se confundem, como nos lembrava um professor de ginástica de quem, aliás, muitos troçavam por ser um metafísico da educação física. Respondia sempre aos que lhe lançavam o remoque: preferia uma meta para a educação do físico do que educar o físico para cortar a meta. Parafraseando: antes programar uma corrida sem fim para o espírito do que construir um pódium para o destino final de um corpo.

sexta-feira, novembro 15, 2002

Palavras para um catálogo


de uma exposiçãp patente
até 30 de Novembro de 2002,
de Terça a Sábado das 14 às 19h


Caleria
NOVO SÉCULO
R. do Século, 23 A B
1200-433 LISBOA




Entre! É uma exposição de João Vaz de Carvalho. São quadros. Telas sem cenário. Fundos de cores que entram pelos olhos dentro matizadas por variações tonais que a mestria do pintor faz sobrepor como se o gesto do pincel encontrasse tão só a presença subtil de camadas de tule transparente.

Entre! Agora no quadro. Trave conhecimento com uma, duas, três, quatro cabeças bojudas encrostadas em troncos rectangulares proporcionais à cabeça. Olhos? Ou distraidamente cegos, a olhar para dentro, ou redondamente arregalados a olhar para fora. Repetidamente desproporcionados em relação ao volume de outros sentidos bem proeminentes nas carantonhas narigudas com beiçolas escarlates. E os membros? Apenas uns paus de fósforo suficientes para manter de pé e movimentar os cabeçudos entroncados ou sugerir, quando necessário, um arremedo de braços para animar os trânsitos comportamentais dos personagens. E há bichos que ainda falam. Humanóides.

Sim, entre! Os quadros contam histórias. Uma ou várias a cada espectador. Uma ou várias por cada quadro. Uma ou várias pela sucessão das sugestões pictóricas que convidam o visitante a embrenhar-se na leitura de uma banda desenhada sem o apoio dos balões linguisticos que, por regra, orientam um só sentido óbvio da narrativa.

Entre! Venha e participe na desconcertante destruturação do inelutável convívio do pintor com o mundo dos objectos quotidianos, que são também da memória colectiva. Pairam em equilíbrio instável sobre as cabeças. Quando se anda com a cabeça cheia de coisas (símbolos de quê?…), coisas simultaneamente indispensáveis e fúteis, oscilando entre a utilidade e o empecilho, balançando, afinal, entre o desespero que a lucidez ilumina e a futilidade que também ao desespero não escapa, então, rir é o melhor remédio.

Entre! A proposta de João é de humor contido. O humor salva. O pintor já fez descer o riso às profundezas de si mesmo. Está salvo. Aproveitemos agora as achegas que ele nos estende e salve-se como puder: encontre uma cifra para o código de barras que encima e finaliza muitos quadradinhos desta história; assuma sem rebuço as significações das “coisas” com que anda na cabeça – pés, mãos, olhos, língua, pénis, útero, mamas, nádegas; ouça, veja e… ria. Ria, sobretudo de si mesmo.

João Lamas.

Lisboa, 2 de Outubro de 2002.

segunda-feira, novembro 11, 2002

da costela de Adão...


Parece-me razoável o mito que pretende explicar a criação da mulher por causa do homem. Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, mas emendou logo a mão e criou a mulher para o humanizar. De facto, sem a mulher, os homens correriam o risco de se tornarem deuses insuportáveis.

quarta-feira, outubro 30, 2002

Palavras, trá-las o vento.



Redondo
Luz
Distância
Ponto
Auréola

Sede
Odor
Desliza

Morde
Torce
Cede

Recebe
Encontra

Lágrima
Aflora
Expande
Cora

Aquece
Esquece
Desponta

Hora
Boca
Evoca
Tonta

Toca
Retira
Troca

Aponta

domingo, outubro 06, 2002

São Josemaria Escrivá


Esta canonização é um sinal dos tempos. E os tempos não são os melhores. São mesmo tempos inquietantes: "santificar o trabalho". Ora o trabalho, segundo certos mitos da relação do homem com o criador que Bíblia acolhe, fez esfregar as mãos de contente ao Diabo... Por outro lado, não consta que Jesus se tenha preocupado em fazer da carpintaria do pai uma multinacional do móvel. Jesus, recebido na casa de Maria e Marta, preferiu, sem margem para dúvidas, a disponibilidade de Maria sentada ao seu lado, sem fazer nada, à eficência doméstica de Marta, muito "santa", a cozinhar, varrer o chão e a lavar a louça... Inquietante é o espírito que hoje foi glorificado: o trabalho burocrático eficiente de uma instituição que levou o Papa a declarar santo para toda a Igreja o homem que os membros da Opus Dei vêm aprendendo a glorificar desde 2 de Outubro de 1928. A fé de Maria (irmã de Marta) nada entende de "burocracia canónica". É a fé de quem não precisa do Vaticano para canonizar Padre Cruz e Padre Américo. A fé de Marta, fazendo seu pé de meia na economia doméstica que vai depois engrossar os activos da banca, essa fé, sustentada pelo trabalho humilde do dia a dia, muito santo, vai levar ao altar muitos presidentes de conselhos de administração, gestores santos de santos dinheiros, fruto redentor do trabalho santo... E se a prelatura já é do Santo Padre, virá um dia em que o Santo Padre será da prelatura.

quarta-feira, outubro 02, 2002

O humor é uma virtude


A ironia é uma ponte para o desprezo. O humor, não. Pelo contrário, é a antecâmara do amor. O humor é um convite para a tolerante conviabilidade da amizade; promove a partilha erótica de corpos adversos que se harmonizam; apela para o mundo das interpretações compreensivas cada vez mais descomprometidas com as lógicas quotidianas dos interesses. É uma saudável deambulação gratuita através do gozo.

segunda-feira, setembro 16, 2002

Encontros do terceiro grau


É o subconsciente colectivo que conserva a memória dos homens. Não há que ter medo, por isso, de máquinas inteligentes, porque o homem evita nelas, o que alimenta em si próprio, ou seja, o acumulado recalcamento emotivo com que a humanidade vem disfarçando a inépcia da inteligência para se explicar a si mesma.
Um computador não passa de um controlador mecânico do “vírus” da inteligência... A memória das máquinas acabará por se apagar irremediavelmente.
E se a história se redimir com encontros do terceiro grau, não será porque as máquinas inteligentes aproximem as galáxias, mas por nelas viajarem homens emocionados ao encontro de outros homens igualmente prenhes de memória colectiva.

sábado, setembro 07, 2002

Longe da vista, longe do coração e... vice-versa


Fala-se muito em crise de valores, mas nunca houve tantos. Há valores a dar com pau... Incontáveis, tantos quantas as pessoas. Até temos uma imagem consensual dos valores: a caminhada ascensional da base para o cume. É no cimo que se encontra o busílis da caminhada: a linha das duas vertentes da montanha separa muitas vezes valores inconciliáveis, como vida vs morte, ter vs ser, liberdade vs honra, enfim, o mais do que provável dilema de ter de dizer não ao intolerável.
A crise passa então dos valores para a crise dos critérios. E mais uma vez a proliferação dos ditos: - cada cabeça, cada sentença. Ao sabor dos interesses, todos muitíssimos legítimos e/ou legitimáveis. Perto da vista, (um horror, as bandarilhas...), perto do coração (bárbara a estocada no touro...), mas o contrário também dá, longe da vista (o embrião não é pessoa...), longe do coração (o aborto asséptico numa unidade hospitalar)
Prega Frei Tomás... Olhemos para o que ele diz e para o que ele faz e... tenhamos a coragem de tomar decisões através de critérios que nem sempre compatibilizam vida e liberdade, honra e eficiência, conforto e dignidade.

sexta-feira, agosto 30, 2002

Nem tudo o que luz é oiro


A propósito da cimeira de Johannesburgo, li um texto de CARLOS VOGT, Presidente do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp.
De todo o longo e útil texto retenho: "... não basta decompor analiticamente o todo em suas partes para chegar à plena compreensão de seu funcionamento".
O fascínio da ciência, (a luz da modernidade), leva a supor que sim, isto é, que basta decompor o todo em partes para depois arranjar uma explicação das coisas... decompostas. E como a explicação resulta, (o oiro da modernidade) conclui-se muito cientificamente que o que ainda não tem explicação aguarda melhor oportunidade para se... decompor e... finalmente ser explicado. E de decomposição em decomposição, isto é, de explicação em explicação, TEMOS O AMBIENTE QUE TEMOS, MAS NÃO SOMOS O QUE GOSTARÍAMOS DE SER.
Insisto: ser ou ter, eis a questão. Será que ainda há tempo (e se houver tempo, ainda haverá coragem?) de deitar fora o supérfluo acumulado e reaprender a gostar de ser amante despojado da vida? Dizem que nem tudo o que luz é oiro, mas parece que tudo o que balança, cai.

quarta-feira, agosto 21, 2002

O sexto sentido.


Embora se diga que contra factos não há argumentos, o homem é um exímio aldrabão dos sentidos. Tem cinco sentidos, mas é com um sexto, (pelos vistos todos têm um, mas ninguém sabe como opera...) que ele elabora os argumentos contra os factos. Os outros animais não possuem este olhómetro e, por isso, obedientes ao relógio de seus ritmos biológicos, arrumam-se na vida conforme os instintos, e se alguns a eles escapam, é porque os homens os submetem às tropelias da domesticação e às fantasias que evocam nas histórias do tempo em que os animais falavam os envergonhados êxitos e frustrações da humanização da natureza.
Como em terra de cegos quem tem um olho é rei, o homem é o rei dos animais graças ao sexto sentido – o tal olho suplementar que nós temos e eles não. A bem dizer, o sexto sentido orienta o homem de forma a reduzir os outros cinco à expressão mais simples, simplesmente dispensáveis: às tantas, não são precisos olhos para ver, ouvidos para ouvir, mãos para apalpar, boca para saborear e nariz para cheirar. Nem a realidade é necessária, porque o sexto sentido navega como peixe na água na realidade virtual.
Na realidade virtual, o corpo vai para o galheiro, mas ressuscita e pirilampa por entre tufos de “bites” ordenados pela mestria dos algoritmos que colocam ao alcance de um digito humanóide a promessa profética de uma Jerusalém Celeste, finalmente invertida a contento do sexto sentido do homem: enquanto no Éden dos édipos a utopia redentora é o mundo da inocência, quiçá da ignorância, no Ciberespaço, a versão digital da ubiquidade dos contrários desenha um mundo de saber e de inteligência perpétua...
Estaremos condenados pelo sexto sentido a ser deuses? Pelo sim e pelo não, fia-te na Virgem e não corras e verás o trambolhão que levas...

segunda-feira, agosto 12, 2002

O verso e o reverso da medalha.


Quando se deita uma moeda ao ar é para saber se é cara ou coroas. Apanhamo-la na queda, espalmada entre mãos, e a sorte é determinada pelo primeiro a escolher, a mão direita ou a esquerda, cara ou coroas ou vice-versa. O truque de a apanhar no ar entre mãos é para evitar, não vá o diabo tecê-las, que ao cair no chão, a moeda se ponha a rolar e vença definitivamente a inércia sem verso nem reverso. Se assim fosse, não haveria sorte para ninguém – pelos vistos, o desejo do diabo.
Sorte para todos é desejo divino. Desconfio que ainda não é o programa de todos os homens: há sempre quem queira um pouquinho mais de sorte para si do que para os outros... Mas homem é bicho de fé. Se não em Deus, pelo menos na ciência, cujo fascínio o leva a acreditar de que é possível e plausível ter, simultaneamente, sol na eira e chuva no nabal. Só que até ao momento as soluções ditas científicas também obedecem à lei do verso e do reverso da medalha...

domingo, agosto 04, 2002

A alma do negócio


Confundir a certeza com a verdade é vulgar. Mas há uma diferença muito grande: a verdade é; a certeza tem-se. A confusão entre uma e outra corresponde à confusão entre ser e ter. A certeza passa pela apropriação da verdade para uso exclusivo. É o domínio dos pronomes pessoais e dos adjectivos possessivos – o segredo, a alma do negócio, a luta pela vida.
A verdade requer a transcendentalidade do objecto. É o domínio do nome predicativo do sujeito que actualiza aqui e agora a utopia mobilizadora de que o homem carece para ser. A verdade diz-se. Proclama-se aos quatro ventos. A verdade mostra-se. Quem a encontra sabe muito bem como mostrá-la ou escondê-la. É fácil reconhecer a verdade: basta que quem a encontre mostre o caminho que percorreu para lá chegar e revele a “senha” do código que utilizou para a conhecer. A verdade é. Não se possui. Ninguém tem a verdade. O que as pessoas têm são certezas. Muitas. A cada um sua certeza, a sua própria alma do negócio...

sábado, agosto 03, 2002

O primeiro homem.



Parece que agora temos outro primeiro avô: - o Sahelantropus tchadensis. Foi desenterrado no deserto de Djurab uma caveira parecida com o crânio de um homem, mas com volume para a massa cinzenta de um chimpazé. Será de facto o crânio do primeiro macacão que disse pela primeira vez à sua macaca olha que isto de ter cio todo o ano obriga a pensar duas vezes antes de?... Mais crânio, menos crânio, pouco importa. São ossos do ofício de antropólogo. O que eu gostaria mesmo de ouvir era a primeira conversa de nossos macacões avoengos.

sexta-feira, agosto 02, 2002

O outro mundo...


O caminho é o espaço entre duas camas: a cama da mãe e a cama da morte. É o caminhante que vai fazendo o caminho. Mas o chão tem uma prioridade absoluta sobre a mãe, a morte, o caminhante e o percurso. Nada a fazer, pelo chão ou pelo ar, este mundo já cá estava quando o homem deu por ele. Se tem uma noção de passagem, de um outro mundo vem e para outro mundo vai. Não seria nada mau que regressasse ao mundo de onde veio: o da inocência.

sábado, julho 27, 2002

Noves fora, nada...


A propósito das contas públicas, lembrei-me do meu primo Zé Inocêncio, companheiro de instrução primária. Quando aprendeu a prova dos nove, nunca mais errou uma conta: espalhava um número ao calhas entre as parcelas para em cima de um traço aparecer por baixo o mesmo número que aparecia em cima. Meu primo foi para o Brasil cozer pão e... com os noves fora nada por lá morreu. Fazes muita falta, querido primo, para acertares as contas de São Bento. Quinze, noves fora, seis, e vão... todos para Bruxelas deitar contas à vidinha...

quinta-feira, julho 18, 2002

"Três” é o número que Deus fez


Vá lá a gente conceber um, só!... E só um para quê? Pelo menos mais outro... um. Assim já são dois... uns. Um e dois são primos. O povo, que nem precisa de ir à escola para perceber a sofisticada matemática das uniões naturais, intui que quanto mais primo, mais lhe arrimo”: - não há dois sem três. E como continuam primos, redondamente divisíveis por si e pela unidade, os primeiros três números são a sagrada família primordial que rompeu a inconsequente virgindade eterna. Só um Deus poderia de tal sorte tirar os três à solidão. O “quatro” é o primeiro número humano: abandonou o círculo divino para se tornar divisível por um, por si e... por mais. Anda o homem, o “quatro”, condenado a conceber a quadratura do círculo: - tirar os três a toda a gente, mas ficar sempre com umas sobras para o que der e vier nos quatro cantos da casa, a mais redutora metáfora do universo que o ser humano inventou.

sexta-feira, junho 28, 2002

A primeira a saber és tu.


Quando começa então a vida humana? Não será quando ela se anuncia? E quem recebe o anúncio, tu, sabe do que se trata: a de uma nova vida humana. Anúncio solitário. Bem-vindo? Mal-vindo? Iniludivelmente vindo. Desasadamente vindo.Vindo para a vida ao encontro da morte. Não é pessoa? De certeza que não é se o/a não deixarem ser: a pessoa vai-se fazendo sustentada pela humanidade em marcha para cada vez mais ser. Recorrer à ciência e à filosofia para destruir o embrião antes de? É sempre depois de que se opera a destruição, sustentada pela humanidade em marcha para cada vez mais ter. Ser ou ter - eis a questão.

quinta-feira, junho 27, 2002

Nu Verão


Eu gosto do Verão porque as pessoas despem-se. E algumas despem-se tanto que ficam nuas. Eu gosto do nu: duas letras muito significativas - "n" de não; "u" de um. Nu = não um. Não um, mas dois ou mais...
No Verão as pessoas andam com menos (roupa, dinheiro, adereços, etc.). Podem portanto partilhar mais o que são e não o que têm. Se calhar Adão e Eva nasceram no Verão e... vestiram-se no Outono, a estação da Queda...

sexta-feira, junho 21, 2002

A verdade de La Palice.


Os velhos (chamo velhos a quem, como eu, tem direito ao passe social da terceira idade), numa ocasião ou outra deixam escapar que estão próximos da morte. Há dias percebi uma leve inquietação de um amigo a propósito deste assunto e atirei para a mesa com esta sentença:
- Eh pá, toda a gente nasce com que é necessário para morrer.
- Pois, essa é mais uma verdade de La Palice.
O tema da conversa morreu por aqui e voltámos a dar vida a outros discursos para os quais não foi mais necessário evocar as verdades de La Palice...
Agora, no silêncio de O Proverbiota, venho perguntar:
- Mas haverá alguma verdade com a qual estejamos todos de acordo que não seja de La Palice?
Valha a verdade que La Palice não é célebre por ter sido autor de verdades incontestáveis. Marechal de França entre o último quartel do século quinze e o primeiro do dezasseis, Jacques de Chabannes, senhor de La Palice, viu-se envolvido numa batalha travada sem o seu consentimento. Bateu-se, porém, com grande determinação e bravia. Morreu no campo de batalha. Seus soldados, gente simples e por certo analfabeta, para afugentar as mágoas da derrota, beberam uns copos para esquecer, mas imortalizaram para sempre o seu chefe, cantando a verdade da vida de La Palice que “um quarto de hora antes de morrer, estava vivo”... E esta é a verdade de La Palice que muito pouca gente conhece.
A verdade dita científica, o acordo com a proposição necessária, neste sentido o contrário do erro, é tão obediente à mecânica do raciocínio que basta uma vintena de anos de estudo para que não nos escape a conclusão ao fim de um percurso step by step de qualquer primário debugger. Mas a verdade de um compromisso vital, neste sentido o contrário da mentira, não convence quem tem um arsenal neutro de razões prontas a disparar mecanicamente, mas não escapa a quem partilha a fidelidade ao compromisso de andar na vida, não para a prolongar, mas para a viver... até antes da morte.