sexta-feira, junho 21, 2002

A verdade de La Palice.


Os velhos (chamo velhos a quem, como eu, tem direito ao passe social da terceira idade), numa ocasião ou outra deixam escapar que estão próximos da morte. Há dias percebi uma leve inquietação de um amigo a propósito deste assunto e atirei para a mesa com esta sentença:
- Eh pá, toda a gente nasce com que é necessário para morrer.
- Pois, essa é mais uma verdade de La Palice.
O tema da conversa morreu por aqui e voltámos a dar vida a outros discursos para os quais não foi mais necessário evocar as verdades de La Palice...
Agora, no silêncio de O Proverbiota, venho perguntar:
- Mas haverá alguma verdade com a qual estejamos todos de acordo que não seja de La Palice?
Valha a verdade que La Palice não é célebre por ter sido autor de verdades incontestáveis. Marechal de França entre o último quartel do século quinze e o primeiro do dezasseis, Jacques de Chabannes, senhor de La Palice, viu-se envolvido numa batalha travada sem o seu consentimento. Bateu-se, porém, com grande determinação e bravia. Morreu no campo de batalha. Seus soldados, gente simples e por certo analfabeta, para afugentar as mágoas da derrota, beberam uns copos para esquecer, mas imortalizaram para sempre o seu chefe, cantando a verdade da vida de La Palice que “um quarto de hora antes de morrer, estava vivo”... E esta é a verdade de La Palice que muito pouca gente conhece.
A verdade dita científica, o acordo com a proposição necessária, neste sentido o contrário do erro, é tão obediente à mecânica do raciocínio que basta uma vintena de anos de estudo para que não nos escape a conclusão ao fim de um percurso step by step de qualquer primário debugger. Mas a verdade de um compromisso vital, neste sentido o contrário da mentira, não convence quem tem um arsenal neutro de razões prontas a disparar mecanicamente, mas não escapa a quem partilha a fidelidade ao compromisso de andar na vida, não para a prolongar, mas para a viver... até antes da morte.

segunda-feira, junho 17, 2002

Um, dois, esquerda, direita e... troca o passo.



Direita e esquerda? Estou pela esquerda condenado a ser da direita, pois é a esquerda que diz que é de direita quem não vê a diferença. Mas não vejo, embora me julgue capaz de diferenciar os discursos.
Mas... há os comportamentos: - estudam nos mesmos colégios, vestem nos mesmos alfaiates, penteiam-se nos mesmos cabeleireiros, comem nos mesmos restaurantes, vão às mesmas festas, andam nos mesmos automóveis, lêem os mesmos livros, falam nas mesmas televisões, escrevem nos mesmos jornais, etc. e tal. Por que raio de magia deverão ser diferentes as políticas?
E quem pergunta é o Zé Povo que estuda na mesma escola degradada, veste na tenda do mesmo cigano, vai ao barbeiro da mesma esquina, come em pé a mesma sopita, diverte-se à bisca lambida nos mesmos jardins, agarra-se como pode aos mesmos varões dos autocarros, lê (quando sabe ler...) a mesma Maria, partilha os mesmos sonhos do Big Brother, e desabafa as mesmas angústias nos directos dos mesmos telejornais, etc. e tal.
Um, dois, esquerda, direita e... troca o passo. É tempo de dizer "Basta!".

domingo, junho 16, 2002

Cravo e canela livre de impostos


Chegou da Coreia a selecção nacional de futebol. Esperava poder desfazer o sentido do último post. Mais: esperava desancar meu pessimismo precipitado e dizer que aquilo com a América tinha sido “primeiro milho para pardais”. Pardais? Pardalecos, esses americanos que têm a mania de ser bons em tudo, até em futebol, vejam lá, a única garantia que ao terceiro mundo ainda resta de poder figurar nas primeiras páginas dos noticiários sem ser por via da fome, da epidemia ou da guerra.
Os “tugas” não catapultaram meu ego de pobretana ocidental para a via ascensional dos mastros e velas que outrora sonharam buscar o sol lá onde nascia o astro-rei.
Mas há ainda uma réstea de portugalidade no campeonato do mundo: os brasileiros continuarão a contar as facécias anedóticas do Zé Pacóvio que os descobriu e ... o Senegal, por quem passo agora a torcer: - o Senegal moderno deve muito a Leopold Shengor, cujo nome vem directo do português "Senhor" e que, enquanto poeta, lembrou que lhe corria no sangue a alma do fado.
Quanto aos "Tugas" foi mais um sonho perdido no regresso das caravelas. Partiram Gamas e nem sequer regressam com a fantasia purificada pela Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Foram ao oriente e como bons agiotas ocidentais querem cravo e canela livre de impostos.

quinta-feira, junho 06, 2002

Cedo, a decadência



Euros Bruxelas

Pobre povo

Nação cadente

E fé fatal

Murcham hoje mastro e velas

Cravo e alhos de Portugal

Entre o esperma da memória

Ó Tugas, sente-se que a vós

Faltam ventos dos avós

Que nos soprem a vitória

Garganta! Garganta!

Nem mar, nem barcos, nem anzóis

Garganta! Garganta!

Vamos pastar os caracóis

Mudam-se os ventos

Espanhóis, espanhóis



Bom, se, entretanto, passarmos à fase seguinte lá no oriente que já foi nosso, voltamos ao hino republicano, à Maria da Fonte e à Padeira de Aljubarrota. E desculpem o mau jeito: ando azedo desde ontém. Falta-me alma até Ameida. Cheguei ao Almotão e que vi eu? A Senhora de lá virada para Castela e de costas voltadas para Portugal... Contava com os Tugas para vencer a crise...

quarta-feira, maio 22, 2002

A galinha da minha vizinha...


A austeridade está na ordem do dia. Há que circunscrever o termo “austeridade” à coisa que ele quer nomear e a coisa é o equilíbrio entre receitas e despesas públicas.
Mas as palavras acarretam uma carga afectiva. Elas denotam e conotam e carambolam umas nas outras. Sinónimos, homónimos e homófonos quando referidos “à mesma coisa” (a contabilidade pública) reencaminham o espírito para os horizontes mais alargados da economia política global e, então, austero é também o nome de um vento que sopra do sul o severo rigor da fome aos ouvidos frios de um norte rico que equilibra os seus activos com os passivo dos antípodas.
Alinhemos então alguns sinónimos de “austeridade”: abstinência; aspereza; dureza; estoicidade; estoicismo; inflexibilidade; integridade; inteireza; mortificação; parcimónia; pulso; rigidez; rigor; rispidez; severidade; têmpera; tesura.
Como se vê, austeridade é um raio de substantivo abstracto que referido a pessoas e/ou a coisas concretas não deixa grande margem à simpatia. Bem pelo contrário. O mesmo se dirá da sinonímia do adjectivo austero. Vejam: acerbo; acre; adstringente; apertado; áspero; cru; desabrido; disciplinado; duro; escuro; espartano; estóico; grave; inflexível; íntegro; intransigente; parco; penoso; ponderoso; rígido; rigoroso; rijo; ríspido; rude; sério; severo; sisudo; sombrio.
Ufa! Isto aplicado à política levará meia dúzia de votos às urnas. No entanto, dada a indisfarçável desproporção entre os recurso (escassos) e as necessidades (muitas), o reequilíbrio entre a coluna da esquerda e a coluna da direita de uma contabilidade “austera” (nada como a contabilidade para equilibrar a esquerda e a direita) exige o abandono de direitos adquiridos, de privilégios actuais, impõe, afinal, a lúgubre panóplia das significações austeras.
Foi, creio, um frade austero que inventou o método das partidas dobradas do registo das contas nos livros de contabilidade: créditos menos débitos sempre igual a zero. Que austeridade matemática! Mas onde se inscreve o lucro que faz com que a galinha da vizinha seja mais gorda que a minha? O homem até compreende o “bom fundamento da austeridade”, mas é geralmente mais severo com os outros do que consigo próprio...
Em Portugal não se fala senão do almejado zero do Orçamento de Estado. Fala-se em Portugal, na Europa e no Mundo. A “austeridade” tornou-se mesmo um imperativo categórico. Afinal, não é a riqueza que está mal distribuída; é a pobreza. Haja a coragem de inscrever esta verdade nas contas públicas...

segunda-feira, maio 13, 2002

Assim não chegas lá...


Ao longo da minha vida ouvi, e ainda ouço dizer em diversas ocasiões, muitas, assim não chegas lá. Pergunto sempre lá onde? e reparo no súbito embaraço do meu interlocutor. Como nunca quis chegar ali e lá cheguei, aquele assim não chegas lá cheira-me a suborno e põe-me logo de pé atrás em relação ao manifestado interesse de me levarem para onde eles vão. Confesso que me embaraça o frenesim de ter de um dia chegar lá, só. Mas levo a esperança de ouvir no fim muitas vozes dizerem-me assim chegaste cá.

sábado, maio 04, 2002

Dia da Mãe


Nunca ninguém viu Deus. Quanto a mim, sempre que procuro imaginá-lO, encontro-me com a tua imagem, querida Mãe.

quarta-feira, abril 24, 2002

Com os pés no chão


Há quem se gabe de ter os pés bem assentes na terra. Porem, o homem inventou as meias e os sapatos bem cedo precisamente para não sentir a terra e andar com a cabeça no ar à vontade. Se há característica que melhor identifique o bicho homem é essa de uma cabeça no ar, tão no ar, que a mente se desprende do corpo para justificar o injustificável, aquilo que nem sequer o cérebro justifica. Hoje a cultura é paradoxalmente esquizofrénica: venha de onde venha, todo o discurso avança com as condições mentais prévias justificativas do saber e do poder de quem discursa sem o incómodo de assentar os pés no chão. É urgente que o homem mude a sua relação com o saber e o poder. O homem? Sim: eu, tu e o outro.

segunda-feira, abril 01, 2002

Páscoa Feliz


Surpreendi Moisés, Jesus e Maomé a passar a Páscoa juntos. Foi no deserto, a terra deles. Acordaram entre si fazer uma grande fogueira com o Livro: o Velho Testamento, o Novo e o Alcorão. Diziam entre eles que o Livro deveria sair da memória e feito assim em chamas arderia para sempre no coração dos homens. Resolveram mais: não voltar a casa e deixar a sinagoga, a igreja e a mesquita às moscas. Crentes e cheios da fé do início Moisés, Jesus e Maomé não perderam a esperança: quando os templos forem só das moscas, rabi, papa e emir voltarão a procurá-los e encontrarão os três juntos, no deserto da origem, iguais a si próprios, nenhum maior do que outro, falando de uma só voz – amai-vos uns aos outros.

quinta-feira, março 28, 2002

Razão antes do tempo...


A razão vem sempre antes do tempo. E não espera pelo tempo para lhe dar razão. Aliás, o homem não aprende nada com a razão porque a tem sempre toda antes do tempo. A característica fundamental da razão é mesmo a de desconfiar do tempo. Os irracionais só cometem um erro uma vez e de cada vez: gato escaldado de água fria tem medo. Mas o homem, esse racional inveterado, como anda com a razão o tempo todo, nunca perde uma ocasião para demonstrar por a+b que errar... é humano. E de erro em erro, nunca perde a razão: - presunção e água benta, cada qual toma a que quer. Sempre, até haver água e quem a benza...

quarta-feira, março 27, 2002

Uma mente brilhante


Fui ver o filme. É a história de John Forbes Nash Jr. que em 11 de Outubro de 1994 ganhou o Prémio Nobel da economia pelos seus trabalhos de matemática no campo da teoria dos jogos. Nash, com vinte e um anos de idade, mostrou como construir cenários matemáticos nos quais se pode verificar, numa competição, a vitória de ambos os lados. Foi o que a economia quis ouvir. Os economistas transformaram a teoria dos jogos num instrumento e hoje só se ouve falar em economês competição, competição, competição. Tudo graças a Uma Mente Brilhante – a de Nash.
Depois... a esquizofrenia. Deu em ouvir vozes e em dar estatuto de realidade ao que se passava tão só na sua mente brilhante. Pretendem os psicólogos freudianos explicar estes desarranjos mentais, dizendo que o casamento e a gravidez da mulher teriam conduzido a mente de Nash a perder a capacidade de distinguir sensações e razões, de ordenar o seu vasto campo de emoções. Mas ainda bem que casou: a mulher perdeu um amante; mas Nash não perdeu uma esposa. Graças a ela, a mente brilhante voltou a verificar que o que é real na vida é o encontro de dois corpos numa carícia, é a fragrância de um filho fruto da dádiva e não a fruição de um produto ordenado pelo jogo matemático da competição.
E no fim foi a uma mente brilhante que a Academia do Nobel deu o prémio, mas foi uma mente bonita (A Beautiful Mind) que o recebeu.

quarta-feira, março 20, 2002

ri melhor quem...


Como poderá o homem um dia achar irrisória a divindade sem se encontrar com o deus do riso?

terça-feira, março 19, 2002

Vem lá o pai.


Eu lembro-me onde e quando apareceu meu pai. Era de noite, não havia electricidade, e minha casa tinha nas traseiras uma varanda. De lá se avistavam, ao longe, a dois quilómetros ou mais, pirilampos de lanternas lentas que tracejavam a esperança de quem no escuro da aldeia aguardava um caminhante vindo da cidade.
Minha mãe procurava fazer coincidir a cozedura da broa com a folga semanal do marido, aleatória sucessão rotineira de caprichos do calendário que ritmava seus encontros semanais.
- Vem lá o pai!
- Onde?
- Passou agora na Fonte da Nogueira.
- Ora! Como é que sabes, daqui, tão longe.
- Eu conheço a luz da lanterna de carbureto da bicicleta do pai.
E era. Meu pai vinha atrás dessa lanterna que meus olhos nunca mais esquecem. Meu pai foi essa lanterna que de minha memória se não apaga. Meu pai é essa lanterna que eu hoje, Dia do Pai, doo aos filhos do mundo inteiro.
Querido Pai, o beijo que hoje depositei na lanterna velha que ainda guardo não é só meu: é de todos os filhos que esperam, seguem, guardam e devolvem a chama das lanternas que são seus pais.

domingo, março 17, 2002

Humor, sexo e Deus


Quem se embrenha na Internet verifica, a olho nu, que os temas humor, sexo e Deus estão entre os mais procurados da Web. Há quem veja nisto uma prova da subversão de valores: poucos curam de coisas sérias; muitos andam atrás das inutilidades.
Eu julgo que quem assim pensa corre o risco de se enganar: humor, sexo e Deus têm de comum o apelo à transcendência.
Vejamos. Normalmente, antes de se contar uma anedota, os parceiros envolvidos na representação são convidados pelo contador ao recolhimento da escuta – então, já sabem da última... – e o grupo distancia-se voluntariamente dos afazeres para saudar com uma boa gargalhada a entrada no mundo dos prazeres gratuitos, até que um companheiro acorde os outros para a rotina dos interesses – pronto, já chega, vamos ao trabalho... O sexo também exige um corte com o mundo: a procura da intimidade do outro é um convite à partilha de entranhas que catapulta os corpos até aos limites da perca dos sentidos – a dádiva gratuita do orgasmo. E Deus só se acha no corte radical que se opera entre a mente e a imanência do mundo e da vida – um apelo à gratuidade pura que transcenda a transhistoricidade da memória.
Humor, sexo e Deus apelam à transcendência, um corte com a realidade. É algures nos interstícios da gratuitidade a que apelam que se encontra o critério para distinguir o humor do sarcasmo, o sexo da pornografia e o sagrado da religião.

terça-feira, março 12, 2002

... o inimigo do bom


Sempre ouvi dizer que o óptimo é inimigo do bom. Se o amigo do meu amigo, meu amigo é, a sentença contrária (o inimigo do meu inimigo) também. Confessam os óptimos que não gostam dos bons; avisam os bons para os perigos do óptimo. Óptimos e bons são maus entre si. Resta-nos ter confiança nos medíocres. Isto é, na hora da decisão venha o diabo e escolha... A propósito: no domingo há eleições.

quarta-feira, março 06, 2002

Ladrar ou morder pela calada?


As caravanas passam, todas iguais: carros, bandeiras, altifalantes. Vêem-se, mas quem os ouve? Cães que ladram? Mas não mordem? No dia das eleições, civicamente, no silêncio das urnas, ninguém é nómada, a caravana pára, palhaços e circo, artistas e bichos, ordenadamente, todos igualmente crentes, põem o voto na urna... Eu lembro-me invariavelmente de uma quadra, de autor desconhecido, a qual, na minha juventude, aludia à interferência sarcástrica de duas desilusões, então com muito significado ético, mas hoje igualmente anómicas:

Teve o azar de casar
No dia de eleição
Pos o voto na urna
Não sentiu oposição

É assim, como pressente o povo bom e crente: mudam as moscas... Mais caravanas hão-de passar, nas autárquicas, nas legislativas, nas presidenciais... No dia da eleição, contam-se os cães que ladram (os votos), contam-se os que não ladram (as abstenções) e... tem razão o Zé Povinho: os que ladram, não mordem; outros mordem pela calada...

segunda-feira, fevereiro 25, 2002

De pequenino...


Quantas vezes já se ouviu dizer que de pequenino se torce o pepino? Muitas. Mas, confessemos, são sempre os mais velhos quem proferem o ditado em relação aos mais novos. Aliás, ditados e provérbios, frases feitas e estereótipos são coisas de velhos. Eu que o diga que não escrevo n’ O Proverbiota duas linhas sem a protecção de um “ditote”. Então, a que propósito vem hoje à baila o pepino? Da juventude. “Juventude” é apenas uma palavra e se forem ao dicionário (o da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo) verão que é até a última da letra J. Nem de propósito: os últimos são os primeiros... Nunca se falou tanto de juventude e nunca um dado biológico (velho quanto a idade da vida) foi tão manipulado socialmente como este o é hoje pelos detentores das rédeas do poder. Há juventudes para todos os gostos e são um produto de consumo que dá a muita gente a oportunidade de ganhar uns tostões para sair da juventude e... entrar na vida adulta – o mundo dos adúlteros... Só uns exemplositos: a juventude rasca dá trabalho à polícia e aos técnicos de prevenção social; a juventude bem comportada tem uma Secretaria de Estado que lhes passa cartão, os jovens dos partidos políticos têm assento no parlamento, os jovens empresários têm subsídios a fundo perdido, as juventudes dos clubes têm patrocinadores para as claques, os sub16, os sub20, os sub21 são o alfobre do nosso futebol, a Banca disponibiliza crédito jovem, etc. etc. e tal. Sem falar das televisões onde a juventude é o prato forte das audiências... Eis a juventude que chega à idade adulta com o pepino... torcido.

quinta-feira, fevereiro 21, 2002

Quem cabritos vende e cabras não tem...


Ultimamente, com a campanha eleitoral e a insistência dos candidatos sobre a necessidade de responder às exigências de Bruxelas para equilibrar as contas, de forma a que os gastos correspondam à riqueza produzida, lembrei-me do ditado quem cabritos vende e cabras não tem, de algures lhe vem. A sabedoria popular deveria tranquilizar a erudita sabedoria dos políticos: o povo entende bem o discurso da chapa ganha, chapa gasta. Mas... habituámo-nos a que o terreiro do paço distribua à tripa forra e abra os cordões à bolsa e são cada vez mais os que vivem às sopas do Estado. Isto é, o Zé Povinho tira sempre um provérbio do manguito. Ora, quanto ao dos cabritos, sabe o povo que os não há, sem cabras e cabrões. De maneira que... acautelem-se os políticos porque há muito anda o povo a perguntar onde vão os cabrões arranjar tantos cabritos...

segunda-feira, fevereiro 18, 2002

Lágrimas de crocodilo


A poluição é um assunto que já polui o espírito mais do que os resíduos poluem os corpos. Trata-se de uma autêntica indústria do medo. Se quem semeia ventos colhe tempestades, quem semeia medos, colhe débeis mentais... Não semeiem tantos medos: há seiscentos mil anos que o homem anda a poluir o ambiente e fá-lo na medida em que avança com a sua inteligência. Aliás, é com a consciência cada vez mais aguçada que o homem se vai afastando do tal paraíso terrestre pelo qual agora tanto chora. São lágrimas de crocodilo, venham elas das associações de defesa do ambiente, da anónima sociedade civil, dos governos, de outros poderes, de mais saberes, de quem os informa e outros patuscos que tais. Quem quiser mudar o ambiente tem que mudar de vida: não jogar no tabuleiro da utilidade, mas no da gratuidade. Deixem de ser tão úteis, meus senhores, porque é a utilidade que polui o mundo. Se querem tocar nas coisas para as transformar em ouro, não se queixem agora de que o ouro não mata a sede.

quinta-feira, fevereiro 14, 2002

Um descuido sem intestinos...



Tudo (mas mesmo tudo, o universo, o mundo e a vida) teria começado com um grande estoiro, o Big Bang. Mas pelos vistos foi um pum!... inorgânico, inodoro e inaudível, pois os cientistas dão por adquirido que só apareceram os primeiros cagagéssimos de vida, muitos, muitos e muitos biliões de anos após rebentar a bolha inicial. Os cientistas nada dizem sobre a bolha antes de à bolha lhe ter dado na bolha e... descuidar-se. Mas contam tim por tim toda a história que se seguiu ao cataclismo inicial.
Resumindo a história : o primeiro pum deu lugar ao espaço e ao tempo com tanta energia que trezentos milhões de anos depois (mais milhão, menos milhão, não interessa para a história...) já havia estrelas e galáxias bem arrumadinhas, girando sobre si ou à volta umas das outras.
Bem arrumadinhas, é como quem diz: encontrão daqui e encontrão dali, deu-se um acaso feliz, o nascimento do sol, já lá vão cinco biliões de anos (mais bilião, menos bilião, não interessa para a história...).
Com o sol, aquece além e aquém, e arrefece ali e acolá, e vice-versa e de cima para baixo e de baixo para cima, num caldeirão de lama, apareceram umas bichezas, que são assim como o resultado de uma revolta da matéria que queria ter voto na matéria. É a vida!. Mas que vida tão chata. Não há bela sem senão: descobre a vida que para ter voto sobre a matéria teria que fazer pela vida... morrendo. A luta pela sobrevivência.
A partir desta constatação (a morte da bicheza) foi um ver se te avias com todos os biotas a ultrapassarem-se a si mesmos: peixes que viram repteis, repteis que viram pássaros, ovos que viram mamas para os mamíferos mamarem nas tetas da vida. Os mamíferos andam a mamar há duzentos milhões de anos (mais milhão, menos milhão, não interessa para a história).
O maior mamão de todos ainda estava por nascer. Claro que já havia uns macacos de imitação, mas tiveram que pelar o rabo e fazer muita ginástica para endireitar o corpo e dar cabeçadas para arredondar o crânio e fazer sexo cara a cara, sem horas marcadas pelo ritmo do cio. E nasceu o homem, sem o cio do macaco, mas cioso por macaca quanto o seu antecessor ainda o é por banana. Estamos por esta altura a uns seiscentos mil anos deste “post” (mais mil menos mil, não interessa para a história...).
Temos portanto o homem, um macacão de primeira. É o responsável por esta história: há meia dúzia de anos (mais meia, menos meia, não interessa para história) o nosso homem confirma que tudo começou com o tal pum inicial. Quando lhe perguntam pela origem intestina desse descuido iniciático, responde, matreiro, que o segredo é a alma do negócio.