segunda-feira, abril 01, 2002

Páscoa Feliz


Surpreendi Moisés, Jesus e Maomé a passar a Páscoa juntos. Foi no deserto, a terra deles. Acordaram entre si fazer uma grande fogueira com o Livro: o Velho Testamento, o Novo e o Alcorão. Diziam entre eles que o Livro deveria sair da memória e feito assim em chamas arderia para sempre no coração dos homens. Resolveram mais: não voltar a casa e deixar a sinagoga, a igreja e a mesquita às moscas. Crentes e cheios da fé do início Moisés, Jesus e Maomé não perderam a esperança: quando os templos forem só das moscas, rabi, papa e emir voltarão a procurá-los e encontrarão os três juntos, no deserto da origem, iguais a si próprios, nenhum maior do que outro, falando de uma só voz – amai-vos uns aos outros.

quinta-feira, março 28, 2002

Razão antes do tempo...


A razão vem sempre antes do tempo. E não espera pelo tempo para lhe dar razão. Aliás, o homem não aprende nada com a razão porque a tem sempre toda antes do tempo. A característica fundamental da razão é mesmo a de desconfiar do tempo. Os irracionais só cometem um erro uma vez e de cada vez: gato escaldado de água fria tem medo. Mas o homem, esse racional inveterado, como anda com a razão o tempo todo, nunca perde uma ocasião para demonstrar por a+b que errar... é humano. E de erro em erro, nunca perde a razão: - presunção e água benta, cada qual toma a que quer. Sempre, até haver água e quem a benza...

quarta-feira, março 27, 2002

Uma mente brilhante


Fui ver o filme. É a história de John Forbes Nash Jr. que em 11 de Outubro de 1994 ganhou o Prémio Nobel da economia pelos seus trabalhos de matemática no campo da teoria dos jogos. Nash, com vinte e um anos de idade, mostrou como construir cenários matemáticos nos quais se pode verificar, numa competição, a vitória de ambos os lados. Foi o que a economia quis ouvir. Os economistas transformaram a teoria dos jogos num instrumento e hoje só se ouve falar em economês competição, competição, competição. Tudo graças a Uma Mente Brilhante – a de Nash.
Depois... a esquizofrenia. Deu em ouvir vozes e em dar estatuto de realidade ao que se passava tão só na sua mente brilhante. Pretendem os psicólogos freudianos explicar estes desarranjos mentais, dizendo que o casamento e a gravidez da mulher teriam conduzido a mente de Nash a perder a capacidade de distinguir sensações e razões, de ordenar o seu vasto campo de emoções. Mas ainda bem que casou: a mulher perdeu um amante; mas Nash não perdeu uma esposa. Graças a ela, a mente brilhante voltou a verificar que o que é real na vida é o encontro de dois corpos numa carícia, é a fragrância de um filho fruto da dádiva e não a fruição de um produto ordenado pelo jogo matemático da competição.
E no fim foi a uma mente brilhante que a Academia do Nobel deu o prémio, mas foi uma mente bonita (A Beautiful Mind) que o recebeu.

quarta-feira, março 20, 2002

ri melhor quem...


Como poderá o homem um dia achar irrisória a divindade sem se encontrar com o deus do riso?

terça-feira, março 19, 2002

Vem lá o pai.


Eu lembro-me onde e quando apareceu meu pai. Era de noite, não havia electricidade, e minha casa tinha nas traseiras uma varanda. De lá se avistavam, ao longe, a dois quilómetros ou mais, pirilampos de lanternas lentas que tracejavam a esperança de quem no escuro da aldeia aguardava um caminhante vindo da cidade.
Minha mãe procurava fazer coincidir a cozedura da broa com a folga semanal do marido, aleatória sucessão rotineira de caprichos do calendário que ritmava seus encontros semanais.
- Vem lá o pai!
- Onde?
- Passou agora na Fonte da Nogueira.
- Ora! Como é que sabes, daqui, tão longe.
- Eu conheço a luz da lanterna de carbureto da bicicleta do pai.
E era. Meu pai vinha atrás dessa lanterna que meus olhos nunca mais esquecem. Meu pai foi essa lanterna que de minha memória se não apaga. Meu pai é essa lanterna que eu hoje, Dia do Pai, doo aos filhos do mundo inteiro.
Querido Pai, o beijo que hoje depositei na lanterna velha que ainda guardo não é só meu: é de todos os filhos que esperam, seguem, guardam e devolvem a chama das lanternas que são seus pais.

domingo, março 17, 2002

Humor, sexo e Deus


Quem se embrenha na Internet verifica, a olho nu, que os temas humor, sexo e Deus estão entre os mais procurados da Web. Há quem veja nisto uma prova da subversão de valores: poucos curam de coisas sérias; muitos andam atrás das inutilidades.
Eu julgo que quem assim pensa corre o risco de se enganar: humor, sexo e Deus têm de comum o apelo à transcendência.
Vejamos. Normalmente, antes de se contar uma anedota, os parceiros envolvidos na representação são convidados pelo contador ao recolhimento da escuta – então, já sabem da última... – e o grupo distancia-se voluntariamente dos afazeres para saudar com uma boa gargalhada a entrada no mundo dos prazeres gratuitos, até que um companheiro acorde os outros para a rotina dos interesses – pronto, já chega, vamos ao trabalho... O sexo também exige um corte com o mundo: a procura da intimidade do outro é um convite à partilha de entranhas que catapulta os corpos até aos limites da perca dos sentidos – a dádiva gratuita do orgasmo. E Deus só se acha no corte radical que se opera entre a mente e a imanência do mundo e da vida – um apelo à gratuidade pura que transcenda a transhistoricidade da memória.
Humor, sexo e Deus apelam à transcendência, um corte com a realidade. É algures nos interstícios da gratuitidade a que apelam que se encontra o critério para distinguir o humor do sarcasmo, o sexo da pornografia e o sagrado da religião.

terça-feira, março 12, 2002

... o inimigo do bom


Sempre ouvi dizer que o óptimo é inimigo do bom. Se o amigo do meu amigo, meu amigo é, a sentença contrária (o inimigo do meu inimigo) também. Confessam os óptimos que não gostam dos bons; avisam os bons para os perigos do óptimo. Óptimos e bons são maus entre si. Resta-nos ter confiança nos medíocres. Isto é, na hora da decisão venha o diabo e escolha... A propósito: no domingo há eleições.

quarta-feira, março 06, 2002

Ladrar ou morder pela calada?


As caravanas passam, todas iguais: carros, bandeiras, altifalantes. Vêem-se, mas quem os ouve? Cães que ladram? Mas não mordem? No dia das eleições, civicamente, no silêncio das urnas, ninguém é nómada, a caravana pára, palhaços e circo, artistas e bichos, ordenadamente, todos igualmente crentes, põem o voto na urna... Eu lembro-me invariavelmente de uma quadra, de autor desconhecido, a qual, na minha juventude, aludia à interferência sarcástrica de duas desilusões, então com muito significado ético, mas hoje igualmente anómicas:

Teve o azar de casar
No dia de eleição
Pos o voto na urna
Não sentiu oposição

É assim, como pressente o povo bom e crente: mudam as moscas... Mais caravanas hão-de passar, nas autárquicas, nas legislativas, nas presidenciais... No dia da eleição, contam-se os cães que ladram (os votos), contam-se os que não ladram (as abstenções) e... tem razão o Zé Povinho: os que ladram, não mordem; outros mordem pela calada...

segunda-feira, fevereiro 25, 2002

De pequenino...


Quantas vezes já se ouviu dizer que de pequenino se torce o pepino? Muitas. Mas, confessemos, são sempre os mais velhos quem proferem o ditado em relação aos mais novos. Aliás, ditados e provérbios, frases feitas e estereótipos são coisas de velhos. Eu que o diga que não escrevo n’ O Proverbiota duas linhas sem a protecção de um “ditote”. Então, a que propósito vem hoje à baila o pepino? Da juventude. “Juventude” é apenas uma palavra e se forem ao dicionário (o da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo) verão que é até a última da letra J. Nem de propósito: os últimos são os primeiros... Nunca se falou tanto de juventude e nunca um dado biológico (velho quanto a idade da vida) foi tão manipulado socialmente como este o é hoje pelos detentores das rédeas do poder. Há juventudes para todos os gostos e são um produto de consumo que dá a muita gente a oportunidade de ganhar uns tostões para sair da juventude e... entrar na vida adulta – o mundo dos adúlteros... Só uns exemplositos: a juventude rasca dá trabalho à polícia e aos técnicos de prevenção social; a juventude bem comportada tem uma Secretaria de Estado que lhes passa cartão, os jovens dos partidos políticos têm assento no parlamento, os jovens empresários têm subsídios a fundo perdido, as juventudes dos clubes têm patrocinadores para as claques, os sub16, os sub20, os sub21 são o alfobre do nosso futebol, a Banca disponibiliza crédito jovem, etc. etc. e tal. Sem falar das televisões onde a juventude é o prato forte das audiências... Eis a juventude que chega à idade adulta com o pepino... torcido.

quinta-feira, fevereiro 21, 2002

Quem cabritos vende e cabras não tem...


Ultimamente, com a campanha eleitoral e a insistência dos candidatos sobre a necessidade de responder às exigências de Bruxelas para equilibrar as contas, de forma a que os gastos correspondam à riqueza produzida, lembrei-me do ditado quem cabritos vende e cabras não tem, de algures lhe vem. A sabedoria popular deveria tranquilizar a erudita sabedoria dos políticos: o povo entende bem o discurso da chapa ganha, chapa gasta. Mas... habituámo-nos a que o terreiro do paço distribua à tripa forra e abra os cordões à bolsa e são cada vez mais os que vivem às sopas do Estado. Isto é, o Zé Povinho tira sempre um provérbio do manguito. Ora, quanto ao dos cabritos, sabe o povo que os não há, sem cabras e cabrões. De maneira que... acautelem-se os políticos porque há muito anda o povo a perguntar onde vão os cabrões arranjar tantos cabritos...

segunda-feira, fevereiro 18, 2002

Lágrimas de crocodilo


A poluição é um assunto que já polui o espírito mais do que os resíduos poluem os corpos. Trata-se de uma autêntica indústria do medo. Se quem semeia ventos colhe tempestades, quem semeia medos, colhe débeis mentais... Não semeiem tantos medos: há seiscentos mil anos que o homem anda a poluir o ambiente e fá-lo na medida em que avança com a sua inteligência. Aliás, é com a consciência cada vez mais aguçada que o homem se vai afastando do tal paraíso terrestre pelo qual agora tanto chora. São lágrimas de crocodilo, venham elas das associações de defesa do ambiente, da anónima sociedade civil, dos governos, de outros poderes, de mais saberes, de quem os informa e outros patuscos que tais. Quem quiser mudar o ambiente tem que mudar de vida: não jogar no tabuleiro da utilidade, mas no da gratuidade. Deixem de ser tão úteis, meus senhores, porque é a utilidade que polui o mundo. Se querem tocar nas coisas para as transformar em ouro, não se queixem agora de que o ouro não mata a sede.

quinta-feira, fevereiro 14, 2002

Um descuido sem intestinos...



Tudo (mas mesmo tudo, o universo, o mundo e a vida) teria começado com um grande estoiro, o Big Bang. Mas pelos vistos foi um pum!... inorgânico, inodoro e inaudível, pois os cientistas dão por adquirido que só apareceram os primeiros cagagéssimos de vida, muitos, muitos e muitos biliões de anos após rebentar a bolha inicial. Os cientistas nada dizem sobre a bolha antes de à bolha lhe ter dado na bolha e... descuidar-se. Mas contam tim por tim toda a história que se seguiu ao cataclismo inicial.
Resumindo a história : o primeiro pum deu lugar ao espaço e ao tempo com tanta energia que trezentos milhões de anos depois (mais milhão, menos milhão, não interessa para a história...) já havia estrelas e galáxias bem arrumadinhas, girando sobre si ou à volta umas das outras.
Bem arrumadinhas, é como quem diz: encontrão daqui e encontrão dali, deu-se um acaso feliz, o nascimento do sol, já lá vão cinco biliões de anos (mais bilião, menos bilião, não interessa para a história...).
Com o sol, aquece além e aquém, e arrefece ali e acolá, e vice-versa e de cima para baixo e de baixo para cima, num caldeirão de lama, apareceram umas bichezas, que são assim como o resultado de uma revolta da matéria que queria ter voto na matéria. É a vida!. Mas que vida tão chata. Não há bela sem senão: descobre a vida que para ter voto sobre a matéria teria que fazer pela vida... morrendo. A luta pela sobrevivência.
A partir desta constatação (a morte da bicheza) foi um ver se te avias com todos os biotas a ultrapassarem-se a si mesmos: peixes que viram repteis, repteis que viram pássaros, ovos que viram mamas para os mamíferos mamarem nas tetas da vida. Os mamíferos andam a mamar há duzentos milhões de anos (mais milhão, menos milhão, não interessa para a história).
O maior mamão de todos ainda estava por nascer. Claro que já havia uns macacos de imitação, mas tiveram que pelar o rabo e fazer muita ginástica para endireitar o corpo e dar cabeçadas para arredondar o crânio e fazer sexo cara a cara, sem horas marcadas pelo ritmo do cio. E nasceu o homem, sem o cio do macaco, mas cioso por macaca quanto o seu antecessor ainda o é por banana. Estamos por esta altura a uns seiscentos mil anos deste “post” (mais mil menos mil, não interessa para a história...).
Temos portanto o homem, um macacão de primeira. É o responsável por esta história: há meia dúzia de anos (mais meia, menos meia, não interessa para história) o nosso homem confirma que tudo começou com o tal pum inicial. Quando lhe perguntam pela origem intestina desse descuido iniciático, responde, matreiro, que o segredo é a alma do negócio.

quarta-feira, fevereiro 06, 2002

Com a verdade me enganas


A sabedoria popular é o bom senso em marcha. Os sentidos não enganam a mente, pelo contrário, é a mente que engana os sentidos. Os sentidos sentem e a mente... mente. E a mente mente com a verdade. Nós esquecemo-nos com muita frequência do que é a verdade. Na civilização ocidental que foi beber a razão na Grécia, o direito em Roma e a moral em Jerusalém, o termo verdade tem, pelo menos, dois sentidos: no mundo greco-latino, a verdade é a conformidade com a proposição necessária e o seu contrário é o erro; no mundo judaico cristão, a verdade é a fidelidade a um compromisso e o seu contrário é a mentira. O espectáculo da ciência e da fé está à vista: a ciência não erra, mas diz que não há regra sem excepção; a fé não mente, mas diz que há males que vêm por bem... O que nos vale, é de novo a sabedoria popular: anda meio mundo a enganar outro meio. Uns com a mente mentem; outros acreditam, mas são (de)mentes. Mas a solução é de caras. Cada um arranja a cara-metade que lhe der jeito.

domingo, fevereiro 03, 2002

a brincar a brincar...


- Tenha paciência, Senhor Einstein, Deus joga mesmo aos dados. Mas não é para testar a sorte; é para lembrar aos homens que deixem de procurar coerência onde ela não faz falta – no mundo que transcende o pensamento. Coerência é coisa que só funciona na cabeça dos homens. Só a incoerência permite que um ser nascido do chão possa voar.

quarta-feira, janeiro 30, 2002

... dar tempo ao tempo


No princípio era o tempo. O tempo tinha o tempo todo ao mesmo tempo e no mesmo tempo. Como não havia tempo a perder, o tempo rebentou. O universo, mundo e vida, é o conjunto de fragmentos do tempo com a memória do tempo antes de rebentar – é um backup do sopro criador. O homem já descobriu que não há memória RAM nem ROM que processe o restore de semelhante backup. Chega-se sempre lá... sem memória. Não vale a pena perder tempo com o tempo. Dá tempo ao tempo, porque atrás de tempo, tempo vem.

... pelos dedos de uma mão


Os dígitos têm a ver com os dedos da mão. As mãos são duas e os dedos são dez. Os dígitos também. Começas a contar no dedo um e se não fosse o zero vias-te aflito para acabar a contagem. Medita: o zero é um pró-memória do fim — foi inventado para dizer que a mão acabou. E quem anda sempre com o zero à mão, escusa de se preocupar com tirar com uma mão o que dá com a outra.

terça-feira, janeiro 29, 2002

Cada cabeça, cada sentença


Toda a gente aceita a sentença cada coisa no seu sítio. Porém, o equilílibrio e a paz dependem cada vez mais da aceitação de dois ou mais sítios na mesma coisa. É a tradução proverbial da chamada teoria do caos, mais coisa, menos coisa...

sexta-feira, janeiro 25, 2002

As palavras são como as cerejas.


Puxa por uma e outra e mais outra, quase um açafate delas vem agarrada à primeira. Servem de brincos. As picadas pelos passarinhos cantam doces em nossas bocas. A polpa colorida confunde-se com os lábios e os caroços, quais balas impulsionadas pela elasticidade das bochechas, tinam nos alvos que vamos escolhendo ao sabor dos disparates.
Brincos e balas, palavra puxa palavra, ao sabor do som que a diz, a humanidade lavra a natura e cria cultura. Já chegámos à realidade virtual: a palavra, no computador, é qualquer mancha de impulsos separada pela barra de espaços. Adeus cerejas: comem-se as poucas que há alinhadas e calibradas pela gramática do consumo nas embalagens frias de uma mensagem via Internet.

terça-feira, janeiro 22, 2002

A terra a quem a trabalha e o mar a quem o pesca...


Vêm aí eleições para um novo parlamento e, consequentemente, para um novo governo. Um governo para Portugal.
Dei comigo a pensar em Portugal. Dantes dizia-se alma até Almeida. Em várias ocasiões ao longo da nossa história, circunstâncias várias obrigaram os portugueses a fazer das tripas coração para leste e a malta ia, mas não ia muito longe, porque para lá de Almeida, a alma era de outros. E depois tínhamos umas rezas e umas cantigas protectoras: Senhora do Almotão/ minha tão bela arraiana/ voltai costas a Castela/não queirais ser catelhana. Portugal é pouca terra e muita água. Terra é apenas a suficiente para nela nos aparelharmos para ir para o mar: quem vai para o mar aparelha-se em terra Mas... nem tanto à terra, nem tanto ao mar. Está certo, mas esquecer o mar, nunca. É por isso que a fronteira terreste que Deus haja esteve sempre colocada à distância ideal para não esquecer o mar. Nascemos na extrema do Douro e empurrámos a Foz do Douro até Foz do Côa, trouxemos a Extremadura para a boca do Tejo e o mar foi por aí cima até às gargantas do Ródão, alargámos Ribatejo Alentejo, subimos o Caldeirão para ver o mar no Algarve, e toca de o levar Guadiana acima, não muito longe, porque não nascemos para marinheiros de água doce...
Mas o mundo é feito de mudança Vai haver eleições para um novo governo de Portugal. De Portugal? Agora que o mar já não é solução, mas antes problema, não basta apenas alma até Almeida. Alma até Bruxelas ... de mão estendida, sem sangue na guelra, porque nosso mar já não dá peixe.

sexta-feira, janeiro 18, 2002

Mãe


Hoje é dia de teu aniversário. Como se festeja aí no céu o dia de anos? O pai fez anos no passado dia oito. Encontraram-se? Já deves saber que a nossa pobre imaginação projecta cá na terra o reencontro idílico no céu dos mortais deste mundo. Seja como for quero recordar-te um sorriso teu.
É datável. Foi em 17 de Fevereiro de 1941. Tinha eu cinco anos e cinco meses. Estávamos sós em casa. O pai trabalhava em Coimbra, o Zé, com onze anos já era marçano na loja do Zé Moca e a Lurdes aprendia costura, ambos na vila. Levantou-se um vento doido, árvores, telhados, alfaias, gados e capoeiras voavam sem destino. Ao teu lado nunca tive medo e, por isso, minha inocente e curiosa expectativa de um dia fora do comum estranhou a inquietação com que me ajoelhaste a teu lado, de mãos erguidas, a gritar o socorro de Jesus, Maria e José. Mas os nomes de Deus Jesus e José atropelavam-se à saída de teus lábios aflitos e soavam de um só folgo inquieto Judé. Ai Maria Judé nos acuda! Maria e Judé , Maria e Judé. Emendei-te com uma cotovelada tranquila: - Oh! Mãe, não é assim que se diz. É Maria e José.
Voltou a tranquilidade ao teu rosto. O sorriso que me devolveste ainda anda comigo e faz parte da substância sagrada da percepção de divino que nunca mais me abandonou.