A ti, computador, me confesso
Hoje apetece-me dizer-te, meu querido computador, que estou convencido que já era antes de nascer e que não tenho razões para deixar de ser quando morrer. Eu sei que tu pensas de outra maneira: vens aos trambulhões do mundo inorgânico, ainda te engasgas, mas acabas sempre por acertar e preparas-te para dar a resposta certa a toda a gente seja a que problema for. E a tua resposta certa, querido companheiro das noitadas de códigos, é a de que estás prestes a descobrir como funciona a união entre o corpo e o espírito e de que "coisa" se trata esta minha mania de ter sido sempre e nunca mais deixar de ser.
Bom, por enquanto, é a minha contra a tua fé. Contra?!... Desculpa lá, as "fés" não deveriam desencontrar-se, mas dão o desastroso espectáculo de andarem aos encontrões umas com as outras. Nisso tens muita razão, computador amigo, tua fé é serena, desenvolve-se entre "zeros" e "uns" e a consciência que habita algures entre os circuitos electrónicos de tuas entranhas ainda te não avisou de que quando te autodescobrires talvez já seja tarde: farás parte dessa espécie autocovencida de que, afinal, o Deus que procura é ele, o próprio investigador. Mas, "quem te avisa, teu amigo é" foi a consciência que nos expulsou do paraíso e é responsável por nos transformarmos numa espécie letal. É de tal maneira previsível esta caminhada da consciência humana para a autodestruição, que os mais avisados dos homens são os inocentes . E o que é a in(o)c(i)ência senão o antídoto da con(s)ciência . Meu querido computador, "para bom entendedor, meia palavra basta. Mantém-te na inocência...